semtelhas @ 12:43

Qua, 25/04/12

 

Hoje não há aulas, podem ir embora. Voltem amanhã.

 

Foi nessa quinta feira que comecei realmente a perceber o que queriam dizer os meus colegas mais velhos quando, nos meses anteriores, me falavam do Maio de 68, make love not children, flower power, mudar programas de ensino, liberdade, pide, etc.. Nesse tempo cada um de nós estava incumbido de, na sua zona de residência, distribuir, entenda-se deixar pousado aqui e ali, um pequeno conjunto de folhas fotocopiadas e agrafadas, ao qual chamávamos "A Semente". Pretendia-se subversivo, apelo a revoluções. A mim, o único retorno que tive de tão nobre tarefa, foi uma sonora bofetada resultado do contacto da enorme mão paterna na minha inocente face, quando orgulhosamente lhe dei conhecimento dos meus corajosos feitos. Veio acompanhada por um aviso, se não páras imediatamente com isso ainda vais preso. Duvido.

 

Desde essa quinta feira até ao 1º de Maio seguinte os minutos, as horas, os dias, não existiram, apenas foram acontecendo coisas, uma atrás das outras, aquele que levou uma sova porque era bufo, o outro que deixou de ir trabalhar porque era lacaio, perseguia os trabalhadores (palavra a dar os primeiros passos), os que estavam desaparecidos, ou em fuga, ou já no Brasil, as ilustres figuras do exílio agora de volta, muitos jornais, a toda a hora, com letras garrafais, muita música revolucionária, o reencontro dos presos politicos com as familias e amigos e muita muita alegria, imensas pessoas nas ruas, o S Pedro foi revolucionário, culminando tudo isto em gigantescas manifestações por todo o país mas mais visíveis em Lisboa e no Porto. Quanto a mim, também por lá andei, Os Estudantes Estão com as Forças Armadas, era o que dizia no lençol o qual, no último dia de Abril desse ano, tinha estado a preparar, entre dois cabos de vassoura. Nesse mesmo dia acabou a festa.

 

Tudo o que se passou desde esse dia, em que, juntamente com outros colegas, com outros cartazes, desfilei pelas ruas do Porto, oferecendo sei lá bem o quê, sabe-se lá a quem, tinha uma certeza, o mundo ía ser mais solidário, a pobreza e a ignorância íam acabar, a justiça iria prevalecer. Desde esse dia até hoje, todos sabemos o que se passou, simplesmente cada um faz a sua leitura e, é sabido que as há para todos os gostos. Em trinta e oito anos, o que aprendi é que as revoluções existem para dar empurrões mas, depois, tudo passa por um processo de construção, sistemático, paciente, feito de recuos e avanços e durante o qual a única postura que poderá conduzir ao sucesso é a esperança pertinaz.


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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