semtelhas @ 12:55

Ter, 27/03/12

Foi há mais de 50 anos, mas podia ter sido ontem. Quando a minha avó fosse acometida por um certo frenesim era sabido que estava próximo o momento, diário, de ouvir o folhetim do "Rádio Teatro". Apesar da existência de pelo menos um rádio em cada casa, as mulheres juntavam-se. Uma mancha negra, toda ouvidos. Dava mais jeito à fantasia a cumplicidade da troca de olhares, o comentário em cima da hora ou os mútuos esgares,ora de angústia, ora de surpresa e admiração. Em suspenso, à espera da solidão, só os suspiros da resignação.

 

Também ontem, a exibição de "  Gabriela  " telenovela televisiva. A primeira.  Servida, de bandeja, a uma sociedade triste, desconfiada, insegura e a olhar de lado. Muita música, muita alegria e pouca roupa. Ainda a preto e branco, a côr viria mais tarde. Mesmo assim um país parado para ver. Sede de viver mais pouca exigência igual a filão. Muitas outras se seguiram, normalmente resultantes do expurgar de reconhecidas obras literárias, dos episódios de que são feitos os sonhos baratos. Deturpações grosseiras, permitidas por trocas muito lucrativas. Vender a alma ao diabo. Resultado: produtos de consumo rápido, logo esquecidos pela sua superficialidade. Necessidade de mais e mais. Hoje são fábricas de argumentos, de atores e frívolidades. Estão por todo o lado e fazem circular milhões. Anestesiantes de alto gabarito.

 

De outras paragens mais sofisticadas, produto para audiências mais exigentes(?). Para começar,   Dallas   , para depois recebê-las, e muitas. Ainda básico, o mau, o bom, a bela e o monstro. Episódios mais espaçados, mas também mais fundos. Uma clientela mais dfícil de enganar. Os mesmos objetivos. Depois o aperfeiçoamento e a multiplicação. Como esquecer    Archie Bunker    Serviço de Urgência   ou    Os Sopranos  ? Pequeno exemplo em quantidade e estilo. Ele há muito e de tudo. Chega a ser assustador o nível de qualidade e a irressistível capacidade de encantamento, para todos os gostos, repito, de algumas séries que hoje são produzidas nos EUA. A aposta é forte e já representa um dos principais produtos de exportação deste assombroso país e da sua formidável sociedade. Três exemplos:    Erva  , o mundo das drogas leves, supostamente livre do seus piores males e praticado em família, disfuncional, é certo, mas onde prevalece o amor e a defesa comum de interesses. Uma educação "moderna", todos muito inteligentes na procura de saídas e no resto. Um delirio! Depois,   Mad Men  , o charme, o consumo, a libertinagem, a despreocupação generalizada. Qual excesso de oferta! Feminismo? Elas eram uma espécie de bibelots permissivos. Cancro de pulmão? Viviam dentro de uma nuvem de fumo. Enfim, um mundo côr de rosa, literalmente. Talvez convenha lembrar que os anos 50 são pós guerra. Os EUA viviam da vitoria. Real e emocionalmente. Mas a que custo? E, finalmente o que dizer de  Dexter  ? A justiça feita pelas próprias mãos. Implacável, assética, quase elegante. Um mundo paulatinamente aliviado das suas piores bestas. Justiça e vingança na hora e com requintes de malvadez. As mãos? Imaculadas. A cabeça? Vitima. Que mais podemos desejar?

 

Alienados? Somos todos. Quem não fôr que se levante. Mas, cuidado! Dada a singularidade da situação tornar-se-á alvo fácil para a mira de atiradores profissionais, contratados a peso d'ouro. Não temos saída, aguentámos melhor o alto teor de toxidade do verniz ou a subtração de ar provocado pelos filtros e cortinas de fumo, do que a crueza e cinzentismo da realidade.

 

NOTA: Amanhã começa a 5ª temporada de   Dexter  .


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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