semtelhas @ 13:14

Dom, 09/11/14

 


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semtelhas @ 13:34

Sab, 08/11/14

 

Ao fim de mandato e meio, seis anos, os repúblicanos conseguiram convencer a maior parte dos eleitores dos EUA que Obama deixou de ser a solução, para passar a ser o problema. Depois da mudança possível, seguramente os democratas desejariam tê-la levado muito mais longe,  quer na política interna quer na externa, eis que é colocado o primeiro entrave verdadeiramente sério à sua continuidade. Até agora as circunstâncias nos vários organismos de decisão, congresso, senado, presidência, apesar de tudo permitiam ao presidente gerir a sua agenda mais ou menos de acordo com o que houvera prometido. A injeção de dinheiro na sociedade, nomeadamente através de opções de apoios sociais aos mais pobres, no sentido de reativar o consumo e consequentemente a economia, a relativa penalização dos mais beneficiados, a implementação, ainda incompleta, de um sistema de saúde pública garantida para todos, dentro de portas e, no exterior, o redirecionamento dos recursos militares dos palcos de maior interesse financeiro, para os de maior necessidade humanitária, o retomar de opções defensoras do bem comum global, em detrimento da defesa cega de curto prazo do dito melhor para os EUA, como no caso da preservação do ambiente, ou a escolha do equilíbrio durante as crises internacionais, ao contrário da deriva belicista tão desejada pelos conservadores, constituem, em si mesmas, o que de melhor e pior fez, dependendo do ponto de vista. Por isso sai penalizado por ambas as partes, para uns não foi suficientemente longe, para outros longe demais. É sempre este o preço a pagar pelos que escolhem o bom senso, aquele que hoje corresponde ao senso comum e, amanhã, a uma minoria. É assim a natureza humana, e homens da dimensão de Barack Obama sabem-no, sabía-o desde o início, daí os seus mandatos darem sempre a sensação de serem uma espécie de corrida contra o tempo. Ele tinha a perfeita noção que, à medida que este fosse decorrendo, o grande poder financeiro iria acabar por conseguir minar todo o seu enorme esforço, a partir de certo momento desenvolvido quase contra tudo e contra todos. Precisou, e mais que nunca vai precisar, de muita convição, perseverança e muita coragem, a juntar ao seu enorme valor enquanto homem, em todos os sentidos. O poder instalado valendo-se da sua principal vantagem, hoje, como sempre, só muda o "como", da insustentável leveza do pensamento das massas fruto de uma vivência cada vez mais à superfície, efémero, temerosa do aprofundamente que deixaria a nú a sua vacuidade, só interrompido por brutais tomadas de consciência de todos, ricos e pobres, por via de desastres ao nível global, foi, paulatina e pacientemente, tempo e "mantimentos" para aguentar o suposto cerco é o que não lhes falta, reinstalando o medo, a sua arma letal, mas sempre com um sorriso nos lábios. É um processo recorrente, que todos conhecem da História, mas do qual parece não ser possível escapar. Uma fatalidade que porventura permite alguns avanços no sentido certo. Durante esta meia dúzia de anos o planeta teve os olhos postos nos EUA, um laboratório onde se relizava mais um ensaio, como se de uma última hipótese de salvação se tratasse. Oxalá os idealistas e humanistas deste mundo, sobretudo os que têm condições para aceder a lugares de decisão importantes, não percam a esperança, que continuem a acreditar, mesmo quando por elas são acusados e derrotados, na necessidade de apoiar as pessoas mais frágeis, por ser esse o único caminho para uma vivência comum mais tranquila. Quanto aos EUA em particular, que Obama logre completar o essencial da sua obra, quem sabe os resultados venham a ser sensíveis ainda a tempo de dar um empurrãozinho para a vitória de Hillary Clinton, possibilitando assim dar continuidade ao sonho e afirmar, agora já beneficiando da junção dos factos às ideias, sim nós podemos!

 


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semtelhas @ 17:39

Sex, 07/11/14

 

- Cavaco condecorou Durão Barroso - Pelos relevantes serviços prestados a Portugal, com a medalha normalmente atríbuida a chefes de estado estrangeiros. Um está preocupado com as justificações, o outro até aceitava uma de latão. 

 

- Machete avisa que portugueses jihadistas serão considerados terroristas - Qual foi aquele país onde começaram duas guerras mundiais, com a mania do perfecionismo, pátria de vários déspotas, onde disseram o mesmo?

 

- Manuel Machado: Andam meia dúzia de águias a comer dez milhões de patos - Este pode não conseguir entrar nos dez melhores treinadores, mas em Machadês, e do bom, ninguém o bate!

 

- Portugal considera ser cedo reconhecer estado da Palestina - Pois...é preciso esperar que todos os outros o reconheçam primeiro.

 

- Jorge Jesus estranha não estar entre os melhores dez treinadores - Ainda mais estranho do que se não estranhasse era se se calasse.

 

- CEO da Apple diz que ser gay foi a melhor coisa que Deus lhe deu - Apesar do aparente exagero, tudo bem. Não havia era necessidade de meter Deus nisso!

 

- Rei das laranjas casou com raínha das bananas - Duas grandes multinacionais, depois de bem espremidas, vão dar um sumo rico em despedimentos.

 

- Benfica TV rendeu dezassete milhões de euros limpos - São os tais milhões de patos a pagar para a águia, como diz o sábio Machado!

 

- Presidente do Sporting afirma que clube não precisa de alianças - E que vai ser campeão, o maior clube, etc., etc.. Depois leva três na A, cinco na B, e vê dois adeptos esfaqueados! Onde pára o sentido de responsabilidade deste desiquilibrado?

 

- Em qualquer país já estava alguém preso - Afirma Marques Mendes a propósito do caso BES. Com a verdade me enganas!

 

- Bombardeiros russos sobrevoaram espaço português - E criou-se um ambiente de, vêm aí os russos, que não se justifica, porque quando e se isso vier a acontecer, sucederá como na supracitado filme e, Vamos Todos Morrer Calçados.

 

- Bruno de Carvalho acusa jogadores profissionais de falta de profissionalismo no relvado - Enquanto, na mesma missiva enaltece os sócios de deixarem a pele nas bancadas...já faltou mais do que o que falta para este ter o que merece!

 

- Durão Barroso aproveitou a condecoração de Cavaco para justificar saída do governo para a comissão europeia - Há os que lavam dinheiro para enriquecerem, e os que enriquecem para lavar o dinheiro. 

 

- Marcelo: Passos apalpa pulso a Portas, Portas dá-se como não apalpado - Arrufos entre quem não gosta de apalpar, só de apertar, e de quem gosta de apalpar e ser apalpado.

 

- Angela Merkel diz que Portugal e Espanha têm demasiados licenciados - Apesar de abaixo da média europeia, mas compreende-se, depois quem vai fazer os trabalhos vocacionais, leia-se limpar, assentar tijolos e guiar táxis?

 

- Timor Leste expulsa magistrados que investigam corrupção - Eis a maioridade, matar o pai, e asneirar à vontade. Finalmente temos um país digno desse nome!

 

- Sonae e Isabel dos Santos disponíveis para encontrar solução para PT - Não querem comprar, é só para defender o interesse nacional. Qual? De Portugal? Isabel dos Santos?

 

- Nani: Quem não sabe perder também não sabe ganhar - Primeiro foi o Machado, agora o Nani, onde vão os tempos do grunho futebolês!

 




semtelhas @ 14:34

Qua, 05/11/14

 

A mesa estava posta na cozinha, com um requinte para mim inesperado, apesar de provávelmente para elas todo aquele rigor ser um hábito. Acima de tudo era sensível que por ali se tentava tirar prazer de tudo o que se fazia, o gosto de fazer bem feito, uma postura que não me era desconhecida. Também eu, ainda que eventualmente demasiado tarde como penso a maioria de nós, me obrigava a essa maneira de estar, como se disso dependesse uma espécie de degustação da vida, como se uma atitude diferente, desleixada, fosse inaceitável, quase insuportável, pelo que trazia de dificuldade em aceitar uma vida já em si mesma tremendamente  rotineira, a empurrar para a indiferença. Os pratos de porcelana, os copos de cristal, os talheres de prata, brilhavam sobre a bela toalha de linho pontuada, aqui e ali, por elegantes e discretos bordados coloridos, os guardanapos eram pequenas cópias, no centro da qual não faltava uma fina vela vermelha presa num vistoso castiçal, onde se alongava uma chama absolutamente perfeita a testemunhar a total ausência de deslocação de ar. No ar pairava uma mistura de perfumes, entre os quais, apesar de Emília parecer ter "caído no frasco", sobressaía o do molho de cogumelos que cobria uns quantos bifes bastante altos, só ligeiramente passados, plenos de sangue que a ele se juntava formando um pequeno lago que apetecia provar. A massa, tagliatelli, dentro de uma imensa travessa fechada lateralmente e com pegas, dançava obviamente solta pela manteiga que fazia refletir também pequenos pedaços de alho. Comentei os odores e Rute, como se aí residisse o segredo, informou, fiz o molho com o mesmo vinho que vamos beber...a não ser que queiras outro, ou cerveja...olhei a garrafa, um tinto do Douro, de 2000, doze anos em cima portanto, a acreditar pelo aroma deve ser muito bom, acompanho-vos. E era. Antes já reparara numa pequena garrafeira, aí uma trinta garrafas, todas de vinho de boa qualidade presa na parede ao lado da enorme mesa onde agora nos sentavamos, situada naquilo que creio poder chamar-se copa, dentro da qual, num dos topos, se encontrava um bonito móvel, ocupava toda a largura, onde guardavam louças, talheres, copos, toalhas, etc.. No espaço que sobrava da parede da garrafeira, mais acima, exibia-se um belo quadro a óleo de uma cena de caça.

Seguramente graças ao magnífico néctar, daqueles que exigem ser bebidos devagar, em pequenos e espaçados goles, devido o seu corpo e sabor intensos, algo de completo que só admite ser sorvido na exata medida em que nos é permitido, dado tempo, para realmente admirá-lo em toda a sua complexidade e valor, como quase todas as coisas boas da vida, pensava para mim, mas como dizia, graças ao néctar, Emília esqueceu-se do questionário ao qual teria planeado sujeitar-me, e deixou-se perder nas memórias dos tempos de África. Foi para lá muito jovem pelo que de facto sabia do que falava. Não obstante o seu esforço, e a preciosa ajuda do tinto...o discurso carecia de fluência apesar de eloquente,  mesmo com as repetidas lacunas e repentinos saltos no tempo e nas circunstâncias, e à semelhança de outros relatos de pessoas vindas do ultramar que ouvira, o mais marcante para elas terá sido mesmo a extensão dos espaços a perder de vista a pedir grandes viagens, o clima que convidava à lentidão e à sensualidade, a docilidade, aparente como haveriam de dolorosamente descobrir mais tarde, dos negros, a profusão de cores, os pôr do sol, talvez um certo sentimento de abundância e facilidade que, embora não o verbalizassem, parecia intríseco nos seus discursos. Rute, concerteza escutando a mãe a vaguear por aqueles lados pela enésima vez, confortávelmente recostada num dos simpáticos cadeirões, e já depois de nos ter brindado com uns profileroles de "fazer chorar por mais", especialmente o chocolate espesso e fervente, mas também o gelado, italiano segundo disse, que aliás ajudaram a acabar em beleza o pouco vinho que restava na garrafa, ía fazendo saltar o olhar entre nós, os falantes, exalando uma paz visível na inalterável e formosa expressão que sugeria, mas não era, um sorriso.

Quanto a mim, de certo modo aliviado por não me ser exigido um relato do meu passado, que me parecia objetivamente prematuro, pelo menos na forma e conteúdo daqueles que acabara de testemunhar, para além do meu caráter reservado, que talvez elas começassem a perceber e respeitar, mas também claramente de "língua mais leve", in vino veritas, desatei a contar-lhes as minhas próprias experiências africanas, exclusivamente literárias, a revolução safara-me, inextremis, da guerra e do ultramar. Expliquei-lhes como, pela mão de Paul Bowles, me deitei nas areias do deserto do Saara, dos seus milhões de estrelas no gelo da noite, da dolorosa irreversabilidade da presença de areia a todo o momento, do incrível exotismo das suas cidades e permanente perigo das aldeias, aprendi a maldade e a traição laboriosamente escondidas pelos homens daquela zona, e o olhar quente e convidativo das suas, contraditóriamente esquivas, mulheres. Falei-lhes das experiências do admirável consul inglês do Sonho do Celta, de Mário Vargas Llosa, durante a inacreditável violência belga no Congo dos primeiros tempos da borracha, da inenarrável maldade dos europeus sobre os africanos nesse relato crú, em carne viva, de Céline em Viagem Ao Fim da Noite, uma visita ao inferno, mas sobretudo de Na Curva do Rio, de Naipul, talvez por ser o livro que melhor tenta explicar o que é África, essa condição terrívelmente enganadora do predador belo e convidativo que chama, num apelo vibrante de beleza, mas que, seja pelos abusos cometidos por quem chega, porventura convencido da fragilidade dos indígenas, seja pela natureza destes, feita de uma espécie de sabedoria primordial, básica e destrutiva mas, ao mesmo tempo, redentora, a lei da selva, seja um misto, acaba sempre por voltar ao início, num interminável ciclo construção/destruíção que mantém aquele continente como autêntico paradigma da própria humanidade, o sonho, sempre renovado, da autosuficiência, da esperança na existência de um paraíso na Terra. Não tive tempo para, embalado, descer à África do Sul do apartheid via da doce Nadine Gordimer, ou através da Desgraça de Cotzee, onde aprendi serem a humildade, a perseverança e a esperança a única possibilidade de uma sobrevivência minimamente positiva e digna, porque Emília já não me ouvia, a cabeça caí-lhe cada vez mais frequentemente para a frente, afinal, na noite anterior, práticamente não dormira.

Depois de a amparar até ao mesmo sofá onde de manhã eu próprio a deitara, quão longínquo isso era! entretanto a simpática e sui generis velhota lançou-me um sorriso, acompanhado de pequeno aceno de despedida, Rute acompanhou-me à porta. Sabes onde morámos, e não te esqueças que tens uma história para nos contar. Juntei as mãos e estendi-lhas de palmas para cima num gesto de amizade, olhou-as, olhou-me, e acomodou lá as dela. Apertei-as suavemente, agradeci-lhe o dia maravilhoso e, brincando num tom pretensamente policial, prometi revelar-lhes tudo enquanto tirava do bolso da camisa um papelito que, pouco antes, arrancara dum pequeno bloco que vira em cima de um dos balcões da cozinha, e onde apontara o nº do meu telémovel. Quando achares oportuno liga-me, proferi em jeito de desafio, mas igualmente deixando-lhe a primazia da decisão e saí. Ainda antes de chegar à minha pequena carrinha, de repente perspassou-me pela cabeça o sumptuoso Mercedes que nem sequer tivera hipóteses de rever para melhor admirar, que esquecera por completo ali estacionada naquele local de escasso movimento, ví no chão junto à porta do condutor reflexos de vidros partidos que, já preparado para meter a chave na fechadura e a abrir, constatei serem da janela que apresentava um buraco numa circunferência quase perfeita.

 


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semtelhas @ 14:36

Seg, 03/11/14

 

Trazia cervejas e amendoins, só tenho isto, anunciou. Pousou o tabuleiro no banco, entre nós, e começamos logo a beber, em silêncio. Precisas arranjar alguém para cortar aqueles ramos maiores, estão quase sobre a piscina, atirei um pouco depois na vã tentativa de esclarecimento da dúvida que me atormentava. Olhou-os e como que refletindo, essa é a mais simples das imensas coisas que preciso fazer aqui. Encontro-me num impasse da vida, provávelmente é essa a razão porque estamos aqui e agora, eu a abrir-me desta maneira com uma pessoa que realmente não conheço. É curioso como estas situações acontecem! como se houvesse algo predestinado...enfim! mas como dizia, vivo uma daquelas fases em que é preciso tomar decisões importantes, daquelas que podem influenciar muito o futuro. Respirou fundo, observou-me atento e disponível e continuou. Desde que o meu pai morreu o negócio tem piorado. Não quer dizer que haja uma relação direta, antes uma coincidência com o agravar da crise que já se arrastava desde há meia dúzia de anos, logo a seguir à mudança de século e aquela desgraça em Nova Iorque, o princípio de fim, costumava dizer ele confundindo a sua própria condição com a do mundo. Durante muitos anos fez parte dos que souberam aproveitar tudo o que um país atrasado procura ao recuperar tempo perdido. Os tempos das vacas gordas! O dinheiro, a rodos!, estava aí, houvesse quem soubesse utilizá-lo. Pessoas como ele, plenas de energia, capacidade para correr riscos, sagazes, usaram e abusaram das circunstâncias favoráveis. Ele era fundos disto, financiamentos para aquilo, as amizades certas, o sr. vereador fulano de tal, as sistemáticas viagens a Lisboa. Foi um forrobodó! Até meados dos anos noventa foi "sempr'abrir", mas depois vieram as primeiras notificações dos tribunais, uma vez até apareceu aqui a polícia a procurá-lo...Já não era novo e, também por isso, ou se calhar sobretudo por isso, não conseguiu dar a volta. Sabemos que gastou muito dinheiro para escapar mais ou menos incólume aos olhos da sociedade, e principalmente aos meus e da minha mãe, mas os negócios ficaram reduzidos à agência imobiliária criada de raiz uns anos antes, no pico da glória. Depois foi definhando, ele e as vendas, e então após a crise de 2009 práticamente não se vende. Bebeu um demorado gole de cerveja e, mais animada, falar fazia-lhe bem, Não o culpo, pelo menos totalmente, somos o que somos, para o bem e para o mal, e não me posso queixar. Apesar de um tanto temerário teve o bom senso de, nos bons tempos, pôr uma razoável quantidade de dinheiro em meu nome no estrangeiro. Não temos que nos preocupar por esse lado, a questão...interrompeu-se porque Emilía reapareceu, e de que maneira!, como se fosse para uma qualquer festa de verão no jardim de uma importante embaixada estrangeira, usava um belo vestido leve, estava um calor abafado, quase tropical, dos que avisam para tempestades, no qual não consegui descobrir qualquer côr em falta. As sandálias ostentavam três enormes pedras igualmente em cores vivas, e nos dedos gritavam vários aneis faíscantes. Rute chegou-se um pouco para o lado para lhe dar espaço, enquanto perguntava suavemente e olhando-me de soslaio, sorrindo disfarçadamente, onde vais? Ela, majestosa, sentou-se, cruzou a perna e reclamou de sorriso travesso, Então e eu? Não bebo nada?

Enquanto Rute foi reabastecer o tabuleiro trocamos banalidades sobre o tempo, o jardim, a sua saúde, estou como se nada tivesse acontecido!, exclamou satisfeita, mas, ainda a filha não se sentara e ela, Então Vasco? Fale-nos de si. Queremos saber tudo! Não sei se estivera a escutar algures por uma janela, não seria fácil dada a distância, mas a verdade é que aquilo, o tom em que foi proferido, gentil mas com firmeza, soou mesmo a, Chega! Afinal só ela é que abre o jogo? E tu? Pelo que, apanhado de surpresa, atrapalhei-me ligeiramente talvez dando a ideia de ter algo a esconder mas, como não era, de todo, o caso, rápidamente me recompus e dispunha-me a começar quando Rute disse à laia de sentença, Agora não. Vou fazer o jantar. Mãe entretém o Vasco mas não lhe exigas revelações importantes, avisou meio a sério meio a brincar, também quero ouvir. E afastou-se ligeira não dando hipótese a contestações. Obediente, Emilía bombardeou-me com entusiasmadas descrições da última madrugada, da parte do espetáculo do casino, as lindas bailarinas e bailarinos, os músicos fantásticos, e os fatos! ah...os fatos maravilhosos, brilhantes num turbilhão de cores. De repente, sem que me apercebesse como, numa atitude comum nas pessoas idosas, pensam logo falam, estava a fornecer-me sábios traços psicológicos das suas amigas, Todas mais novas, anunciou orgulhosa e triunfante. Quando começava a ficar mais nostálgica, crescentemente perdida nos seus pensamentos, silêncios que seguramente cada vez mais a iriam acompanhar nas suas ausências para longínquos e melancólicos lugares, eu, pressentindo naquela senhora a profunda tristeza de uma vida irremediávelmente adiada, e a relação de tudo isto com a filha da qual por vezes escutava atividade na cozinha, esta, salvando-nos, decretou, vamos comer! 


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semtelhas @ 12:27

Dom, 02/11/14

 

Ao repórter e ao seu cameraman não é permitida a entrada naquela habitação térrea, com uma altura que chegará aos dois metros, uns quarenta metros quadrados no total, erigida com uma espécie de tijolos feitos numa matéria que desconheço, colados por aquilo que parece ser betão. Situa-se nos arredores de Monróvia, capital da Libéria, lado a lado com muitas outras, num desolado descampado entre pequenos amontoados dos mais variados artefactos e árvores raquíticas. No entanto cedem ao pedido para que um dos médicos voluntários que o vai fazer, transporte uma pequena camera de filmar no alto da cabeça. À medida que vai avançando na penumbra, pelo labirinto de pequenas divisões de 2 por 3, sem portas entre si, o pouco que se vê é abandono, vazio, um objeto aqui outro ali, até que, na última, única com uma minúscula janela, e por baixo desta em cima de um retangulo da espuma de um antigo colchão, um corpo, um conjunto de ossos escassamente cobertos por uma fina camada de carne segura pela pele negra, que se pressente com vida dadas as quase impercetíveis tremuras. Pelas feições é uma mulher, e o que a rodeia é difícil de descrever. Para além dos odores que se adivinham tal a sua espessura, está deitada sobre as próprias secreções, em posição fetal, a toda a volta os restos do desespero e, tal como os cheiros, também os insetos só são sensíveis via imaginação não obstante a sua avassaladora realidade.

 

Chama-se Lucy, quem informa são as pessoas que com ela habitavam a casa, hoje dividem-se por outras, tem trinta anos. É vendedora num dos inúmeros mercados a céu aberto da cidade. À semelhança do que por estes dias acontece um pouco por todo o lado, a equipa internacional de médicos voluntários teve conhecimento da presença naquele local de mais um infetado com o virus do ébola, foi recolhê-lo e providenciar o seu transporte para os dos centros médicos criados para o efeito. Aparentemente tudo certo, simplesmente quando o repórter procura Lucy num deles, nem rasto! A deslocação ao longo da cidade em busca da infeliz é surreal. Constítuida básicamente por vias em terra que serpenteiam por entre milhares de pseudohabitações decrépitas, pelo meio das quais vagueiam hordas de criaturas, maioritáriamente sem tino ou vontade, envoltas por sempiternas núvens de pó, enormes montes de lixo que se confundem com os tais mercados, autênticas arenas de sobrevivência essencialmente desinteressada, contagiada pelo desalento, pontuada aqui e ali, pela presença de alguém que, com alguma energia rebuscada sabe-se lá de onde!, procura contrariar o incrível estado das coisas. Nas avenidas de terra não param de circular enormes carrinhas de caixa aberta, de sonantes marcas americanas, carregadas de sacos alaranjados, "herméticamente" fechados por compridos fechos eclair, dentro dos quais seguem cadáveres. Dezenas, centenas? Lucy passou por um dos tais centros, de onde foi recambiada para casa de uma irmã, já ía muito mal, informou, para acabar por morrer a caminho não se sabe bem de onde. O que os faz questionar, quantos daqueles sacos transportarão pessoas moribundas? E, visívelmente derrotados pela paisagem devastadora que estende à sua frente, numa indisfarçável linguagem corporal onde se lê o medo nascido da impotência, passam a todos que os vêem a terrível mas inevitável mensagem, tão longe e tão perto!

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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