semtelhas @ 11:47

Qui, 17/04/14

 

A gente vê o povo ucraniano a ser inexorávelmente conduzido em manada ao cumprimento dos interesses estratégicos e políticoeconómicos das grandes potências dominantes; o primeiro-ministro a percorrer uma passadeira vermelha que dócilmente lhe estendem à frente disfarçada de entrevista; o FC do Porto a ser paulatinamente arredado da discussão de qualquer título, por se pôr a jeito para o cumprir de um ajuste de contas ansiosamente aguardado, e percebe por estes dias de intenso mediatismo, com o chamado quarto poder cada vez mais ele próprio refém do poder instalado, em vez de esclarecer, funcionando exatamente como força contrária ao status quo, espécie de garante de isenção e procura de justiça, pelo contrário submisso e obediente, limita-se a fazer eco das vitórias conquistadas em circunstâncias laboriosamente cozinhadas nos gabinetes e nos corredores dos e por quem manda.

 

Salvaguardando as óbvias diferenças não deixa de ser profundamente frustrante concluir que não basta ter razão é também preciso dominar os bastidores para ver ser feita justiça através da evidência da verdade. Como abutres, os donos das decisões, vão a um tempo, minando pacientemente o campo de batalha para, ao minímo deslize aplicarem o golpe fatal. Alguém terá dúvidas de que os infelizes ucranianos mais não estão do que a ser realinhados em função da vontade dos blocos ocidental e oriental, tendo por cenário uma farsa em cujo palco só eles saem sacrificados? Ninguém se terá questionado como é possível um país como a Grécia, que ao longo da intervenção da troika teve um desempenho diametralmente oposto ao português, estar hoje a obter perfomances em tudo semelhantes a Portugal? Que na verdade desde que os carneiros sejam amansados e continuem a servir quem manda, pouco importa o que qualquer pequeno país faça se comparado com a dita conjuntura internacional? Que a única medalha que Passos Coelho pode reclamar é de ter sido o maior dos lacaios e, mesmo assim, receber os mesmos louvores do mais rebelde dos alunos e até a disfarçada repugnância dos seus pares? Haverá uma só pessoa que não estivesse à espera desta avalanche de falta de vergonha, durante anos suspensa por um dique feito de qualidade e excelência que foi o FCP, que à primeira brecha desaba sobre o clube do norte, até agora espécie de paradigma do contracentralismo que urge destruir a qualquer preço, e consubstânciada nomeadamente pelo desempenho pornográfico de um dos autênticos embaixadores de Portugal no estrangeiro, como tão bem o demonstram os elogios e prémios profusamente recebidos? Dois Pedros, duas faces da mesmo fraca moeda de troca de um país distinguido no estrangeiro pela subserviência, aí está Barroso para o provar, e cá dentro aplaudidos por uma comunicação social vendida.

 

Resta esperar pela dança de cadeiras, nova volta nova corrida, ou mais concretamente pelo intervalo entre a troca de protagonistas, durante o qual, fruto de ilusórias banhas da cobra, esperanças feitas de promessas avulsas, o cada vez menos ingénuo maralhal, descansa um pouco do seu papel de carne para canhão nesse processo aparentemente irreversível onde pouco mais pode fazer que inclinar-se à força das coisas, ou então, contra tudo e contra todos, continuar determinadamente a esbracejar quixotescamente por uma utopia, numa luta desigual e condenada à partida.


direto ao assunto:


semtelhas @ 15:17

Qua, 16/04/14

 

Imagine-se uma criança cujos pais sofrem de uma qualquer incompatibilidade por ele desconhecida, que resulta numa vivência na qual, sendo o centro, objeto de repentinas, quase furtivas, demonstrações de afeto das mãe, e da constante preocupação educacional do pai, sente insconscientemente uma permanente sensação de falta que se irá prolongar para o resto da vida. Irá disfarçar essa insegurança latente, e presente num crescente desleixo, pela arrogância, por arrebatamentos patéticos imediatamente seguidos por nostalgias inexplicáveis. A única possibilidade de aquietar esse estado reside numa espécie de espanto perante as maravilhas da natureza, a verdadeira mãe, a que traz a calma e a segurança, uma espécie de terceira condição para ser feliz, nunca realmente encontradas de forma consistente. Há contudo um alto preço a pagar em troca desse pasmo redentor perante essa paz primordial, à adoração por uma certa luminosidade mágica naquele fim de tarde, pelas brumas que pairam lá ao longe nas montanhas, pelo brilho das coisas finalmente limpas pela chuva, irá corresponder o crescente afastamento das frágeis e voluveis pessoas. Um isolamento inevitável.

 

O fantástico paralelismo entre essa criatura e Israel, esse país ainda na infância, habitado por uma população milenar que arrasta consigo ódios antigos com primos mais, ou menos, distantes. O livro A Terceira Condição, de Amos Oz.

 

 

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 15:08

Ter, 15/04/14

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 12:19

Seg, 14/04/14

 

Naquelas circunstâncias normalmente comportámo-nos quase como guerreiros num feroz campo de batalha, em plena ação, ora atacando, ora defendendo, mas sempre em estado de alerta máximo, perante qualquer inesperada e maldosa manobra dos inimigos. Eles apresentam-se e agem das mais diversas maneiras, inesperadamente e sem contemplações, pela calada, sinistros e dissimulados, à espreita de uma oportunidade, ou reativos, à partida inocentes e pacíficos, mas terríveis, a fúria dos justos, se incomodados. Pressentindo o perigo recorremos aos instintos animais mais básicos, desde a força bruta à falsa fragilidade. 

 

É quando temos o destino nas nossas mãos que melhor nos revelamos, quando todos os filtros são insuficientes para esconder o que o verniz ocultava e, subitamente, eis o bicho que realmente somos! Por vezes é possível assistir a cenas espantosas, comportamentos verdadeiramente escabrosos, normalmente sob a forma de violência expressa visceralmente e como der mais jeito, utilizando a linguagem gestual, verbal, e mesmo, mais vezes do que seria imaginável, a agressão física. Incrível esta atitude é absolutamente transversal não escolhendo classes sociais, posses, credos, géneros ou níveis de conhecimento!

 

É por tudo isto compreensível que hajam alguns de nós que tenham autêntico terror em enfrentar tal inferno, mas, tratando-se de um desafio a que poucos podem renunciar, caso queiram lutar mínimamente por um lugar ao sol, apesar de na esmagadora maioria das vezes ter de se contentar com a um cantinho à sombra, não têm outra saída que não seja arriscar, engordando assim de stress e insegurança esse monstro que se alimenta de medo a que chamámos trânsito, e cuja arma de arremesso são as viaturas. Uma guerra não declarada que faz milhares de mortos e muitos mais estropiados.

 

Há no entanto um momento mágico em que tudo muda! Aqueles que poucos momentos atrás evitavam olhar-se para não desvendar o ódio e as táticas de ataque nele contidas e preciosamente escondidas, a força da surpresa!, desatam a lançar pedidos de clemência estampada em olhos suplicantes, entregam-se em manobras de total despojamento, cedem posições entre sorrisos de bem aventurança! anulam-se detestando-se por não conseguirem desaparecer humildemente no ar ou buraco sem fundo! É a sirene de uma ambulância! O milagre da solidariedade ou o brusco acordar para o mundo das convenientes aparências?

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 12:37

Dom, 13/04/14

 

- Carlos Silva, da UGT, diz que Passos só aceita aumentar salário minímo porque pressionado pela implementação do mesmo na Alemanha - Não por causa das eleições, mas comparando com o SM alemão que, em pouco mais de uma semana, paga o português! Um iluminado, este Silva.

 

- Federação Portuguesa de Futebol renovou contrato com Paulo Bento até 2016 - Não vá às vezes a coisa correr mal no Brasil... Com o Bento é assim, ou dão tudo ou levam nada!

 

- Ministra britânica demite-se após petição assinada por 185 mil pessoas - É como por cá onde até já chamam às petições masturbações intelectuais,  queixinhas...

 

- Secretário de Estado afirma: Roma falou, assunto encerrado - Referindo-se aos seus superiores. E outro comparou-se a Pinóquio chamando a atenção a jornalista que o nariz não lhe estava a crescer. É impressão ou cheira a mudança de cadeiras?

 

- Durão Barroso recebeu Bruno Carvalho em Bruxelas - Junta-se a fome de poder à vontade de comer os adversários.

 

- Deputados russos querem levar Gorbatchev a tribunal por ter desmantelado URSS - Lá como cá! Nós a rezar por um Salazar, eles a suspirar por outro Estaline!

 

- Bill Clinton apela à partilha entre ricos e pobres - Se quer mesmo muito desta vez é ele quem vai ter que se pôr de joelhos...

 

- Grécia paga menos de 5% em venda de dívida - Tal como em Portugal ou na Irlanda. A aposta nos carrascos dos que lutam pela sobrevivência.

 

- RTP sondou Marcelo - Este é uma espécie de Luisão dos comentadores televisivos. Perto do final do contrato começa a vender o peixe mais caro!

 

- Sevilha quatro, Porto um - Ou a história de um bando de meninos perdidos na selva, assustados por uma fada má de apito na boca, e uma fada boa armada de aprendizes de feiticeiro.

 

- Sanches Osório deu uma extensa entrevista ao jornal I - Depois do revolucionário Soares, e de um convertido Freitas, eis mais um visionário! Senis ou sábios?

 

- Salário mínimo vale hoje menos 50€ que em 1974 - A diferença entre serem os ricos a pagar a crise, como se fazia então, ou os remediados a pagar os desvarios dos ricos, como se faz agora.

 

- Bento diz que não olha para o Quaresma só porque faz um cruzamento ou um golo - E não é que não vai mesmo levá-lo ao mundial?! Outro Scolari! Unir pelo negativismo. Há-de ter um lindo enterro!




semtelhas @ 11:24

Sab, 12/04/14

 

Os tempos que se seguiram foram de um lento recomeço, ao ritmo de Laura, em tudo oposto ao que lhe conhecia menos na mesma determinação que sempre punha em atingir o seus objetivos mais imediatos, desta vez com que encarou a sua nova vida. Ciente da espada que lhe pairava sobre a cabeça, dependente de uma medicação rigorosa e de constante vigilância médica, impedida de ter filhos, proprietária de uma publicação e com uma profissão, jornalísta, que só sabia desempenhar na base de pressupostos que, em boa parte, agora lhe estavam vedados, orfã de pais e de práticamente qualquer famíliar, fisícamente distantes, afetivamente quase inexistente após o desaparecimento do seu avô preferido e, porventura o mais importante, tendo por companheiro uma pessoa mais velha e já perto dos sessenta, sentia mais que nunca a necessidade em encontrar um rumo, uma motivação, para viver o dia-a-dia sem que tal representasse um fardo, uma rotina, e, muito menos, um sacrifício.

Finalmente vendeu a casa que fora dos pais, a preços escandalosamente baixos se comparados com outros tempos, mas razoáveis à luz que atualmente incidia sobre a realidade económicofinanceira e social do país, que tinha baixado drásticamente a avaliação dos imóveis, os bancos e afins já haviam sugado o que houvera para sugar, o outrora ingénuo e incauto povo que se amanhasse! A vontade para manter a "Ruiva", não era muita, e eu não podia, não queria, e nem sabia como continuar a fazer ali um papel que definitivamente não era o meu, uma espécie de capataz às ordens do dono, esforçado é certo, mas incompetente face às exigências. Começamos por isso a negociar com o antigo patrão de Laura uma venda que, juntamente com o dinheiro conseguido com a casa, lhe proporcionassem um resto de vida tranquilo sem quaisquer preocupações com questões de sobrevivência financeira.

Ao longo dos últimos anos os meus parcos recursos haviam sido suficientes para manter a minha própria existência a níveis razoáveis, e tencionava continuar, sómente quando Laura me convidava para qualquer "extravagância" que manifestamente o meu bolso não permitia suportar, como viagens por exemplo, acedia a que fosse ela a pagar as despesas. Agora, a viver comigo em minha casa assumiu todas as despesas fixas, impôs-mo como condição para aceitar aquelas circunstâncias, o que me possibilitou, a primeira vez em muitos anos, um desafogo em termos de dinheiro que também aproveitei mimando-a com todo o tipo de presentes, que adorava, nomeadamente em périplos que haveriam de se tornar quase religiosos, por tudo quanto era salas de cinema a exibir bons filmes, peças de teatro, espetáculos musicais, todo o género de exposições, algumas mesmo no estrangeiro, estas pago eu, dizia nessas ocasiões. 

Para além de alguma atividade que mantive na revista, um pequeno artigo semanal, o resto do tempo passava-o nas tais ocupações e sobretudo, eu e ela, lendo muito na nossa casa com vistas para o mar, quase exclusivamente na companhia dos nossos bichos que, com o avançar da idade, também eles cada vez mais sedentários, exigiam a nossa presença, as visitas trisemanais de uma empregada indicada por Lucília a Laura, porque a mim mal me dirigia o olhar quanto mais a palavra, nunca me perdoara o desgosto, como afirmava, que inflingira na sua filha Sílvia, conversáva-mos muito, dissertando sobre o que nos rodeava, um mundo crescentemente crispado, a vitoria da plutocracia, o favorecimento dos poderosos, supostamente únicos a criar os postos de trabalho da sobrevivência de todos, em troca do empobrecimento e indigência de uma maioria a aumentar de forma alarmente. A habitual e histórica "fuga para a frente" de uma humanidade crónicamente refém da sua natureza egoísta que, mais uma vez, nos haveria de conduzir a todos para um abismo cujo limiar era já visível.

Contudo, ao fim de alguns meses, que rápidamente se transformaram em anos, pressentimos a ameaça do vazio a instalar-se. Não obstante a enorme riqueza, do ponto de vista cultural, entre a qual nos movíamos diáriamente, uma certa rotina disso mesmo começou a impôr-se subreptíciamente. Esgotadas todas as soluções que vislumbramos para tudo e mais alguma coisa, desde a mais comezinha contrariedade, até aos maior e complexo conflito internacional, percebemos que nos repetíamos, era urgente somar às nossas divagações intelectuais, ás quais apesar de tudo havíamos juntado duas ou três deslocações profundamente inocentes a destinos paradisíacos, só para "alimentar" os sentidos, algum movimento físico, precisáva-mos de circular! Foi assim que resgatámos aquela ideia nunca cumprida de percorrer o país de norte a sul, com a fundamental diferença de optarmos por fazê-lo não conduzindo um automóvel mas viajando de comboio. Foi logo no inicío dessa viagem, que descobrimos o "tesouro" escondido que haveria de transformar as nossas existências, plenas de maduro entusiasmo e renovada força de viver nos anos que se seguiriam.


direto ao assunto:


semtelhas @ 17:14

Sex, 11/04/14

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 13:00

Sex, 11/04/14

 

Paquetes maravilha, velhinhas ricas e carentes de afeto, milionários maus e avaros, selfmade men, enormes heranças, vaidade e pseudoarte, parentes gananciosos, raparigas prendadas, rapazes apaixonados, falsos românticos, interesseiros militantes, militares ridículos, guerras à vez, patéticas sociedades secretas mas pouco, polícias e ladrões, fantasias hollywoodescas, perseguições espetaculares, truques inteligentes, patrões prepotentes, minorias ultrajadas, descendentes violentos, empregados explorados, assassínos profissionais, estados providência, a magia da ilusão, o jogo do sexo, a nostalgia do passado, a doce decadência, a escassa dignidade, a atração pelo excêntrico, o abismo da tédio, fugas engenhosas, a sociedade hipócrata, religiões decadentes, a vulgaridade...tudo contado a um ritmo alucinante e com um humor desconcertante, pleno de situações cómicas pelo absurdo. Fantástico e delirante retrato da humanidade feito por um magnífico e surpreendente conjunto de atores no filme The Grand Budapest Hotel, mas que podia ser em qualquer lado, onde, afinal, decorre esta comédia trágica, ou será tragédia cómica?, que é a vida. A verdade dita a rir. Haverá melhor remédio do que não levar as coisas demasiado a sério?

 

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 10:45

Qui, 10/04/14

 

Há pessoas que são autênticos anjos na Terra! Aquelas que contra todas as probabilidades, porque nascidas nas mais desfavoráveis condições, rodeadas de pobreza, indigência e violência, a tudo resistem, e emergem desse pesadelo como que imunes a todo o mal, vacinadas, únicamente interessadas na bondade, na justiça e na dignidade. Moldadas e marcadas a quente no inferno que foi a sua vida, e alimentadas pelo pão que o diabo amassou, numa primeira fase resistem como podem e sabem, autênticos bichos selvagens, mas já possuídos por essa natureza nobre, protetora, justiceira e inquebrantável, que os faz encontrar luz na pior das trevas, lutando incessantemente pelos mais frágeis que as rodeiam e protegem, quando elas próprias, ainda e aparentemente simples crianças, os ousam amar acima de tudo, da sua própria subsistência. Mais tarde, se, milagrosamente, escapam a inumeras experiências limite, das quais qualquer comum mortal sucumbiria, tornam-se raríssimos seres maravilhosos, verdadeiramente iluminados e cujas personalidades normalmente funcionam como faróis para quem com eles tem a felicidade de conviver.

 

É uma dessas estranhas criaturas que mostra o filme The Selfish Giant, na verdade uma fábula dos nossos dias, avassaladoramente tocante, uma obra prima! Tal a perfeição que atinge sob todos os pontos de vista, nomeadamente no aspeto emocional, profundo e arrebatador!

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 12:41

Qua, 09/04/14

 

Costumo levá-la por baixo de uma mais quente, mas desta vez estava calor, pelo que tive que mostrar a camisola com a sua inscrição em castelhano, "o que tens no teu copo diz muito de ti", publicidade a uma marca de whisky. Espanhol? perguntou-me ela ao lado do companheiro, ambos de meia-idade. Talvez por ter pressentido que eles não o eram, aquele sotaque, portanto mais dificílmente desmascarável, instintinvamente , ainda agora me pergunto porquê, respondi, si!

 

Somos franceses e gostaríamos de te acompanhar, se diminuires o ritmo da marcha, interveio ele com um sorriso, e conversar um pouco contigo, concluiu ela ficando ambos especados a olhar-me, obrigando-me a, contrariado, parar. Face ao meu ar interrogador continuou, estamos reformados e andamos pela europa a passear de comboio, por vezes também de avião como para aqui, e, a convite de um amigo nosso que tem uma pequena agência de viagens, estamos a tentar recolher informações úteis para ele escrever nos seus prospetos publicitários tentando cativar clientes. Quando te vimos ao longe pensamos que seria interessante uma opinião do vizinho espanhol sobre os portugueses. Um olhar que pode dár-nos novidades diferentes das que já recolhemos. Uma das facetas que queremos retratar, quem sabe até para outras utilizações, é sobre o caráter das pessoas. Tinha falado em francês pelo que lhe respondi na mesma língua, só vou até ali, disse-lhes apontando para a capela junto ao mar, e depois tenho que me ir embora

 

Metemo-nos a caminho, demasiado devagar para o meu gosto, mas que bem que falas francês! sem aquele sotaque tão próprio dos espanhóis, atirou de imediato, continuando, acreditas na mensagem que trazes na camisola?... Não só não acredito como sou completamente contra todo o tipo de rótulos, acontece é que gosto de usufruir das situações até ao limite e gastar as coisas até ao fim. Talvez satisfeitos em verem realizado o seu desejo de me conhecerem um pouco, graças ao rápido mas eficaz traço de caráter que lhes oferecera de mim próprio, deram inicio a um monólogo, sempre ela, como que introdutório daquilo que esperavam fosse o minha visão de espanhol do que são os portugueses. Não sei o que pensas mas nós, os franceses somos sobretudo vaidosos, arrogantes porque inseguros, e muito introspetivos. Já os teus compatriotas são exatamente o oposto, práticos, temerários e superextrovertidos. Concordas? E sem me deixar responder, os ingleses são valentes, snobes e francos. Os alemães frios, eficientes e cismáticos. Já os nórdicos são tristes, azedos e egoístas, tudo ao contrário dos italianos, alegres, positivos e solidários. Calou-se. Era a minha vez.

 

Acredito que a principal razão porque querem a minha opinião sobre o que é ser português deve-se à dificuldade que tiveram, tal como fizeram com os outros, em encontrar variáveis claramente definidoras, características bem marcadas, e esse facto, só por si, responde à questão, é uma gente volúvel. Em qualquer dos casos o meio ambiente é sempre fundamental naquilo que os indígenas são e, no caso dos portugueses, o clima de uma maneira geral ameno e a decisiva presença do mar, influencíam imenso a sua maneira de estar, morna e sonhadora, e que os torna naquilo que são. Sempre com os olhos postos no que estará para além da linha do horizonte marítimo que incansávelmente observam nostálgicos. Uma dúvida que se semeia, uma situação transitória que se eterniza, o só estar bem onde não se está, resultam numa espécie de insegurança latente, que sempre disfarçam transformando-a em simpatia rápidamente adulterada em subserviência, que acaba em sentimentos reprimidos como a inveja, e consubstânciados na arte do sarcasmo e maldicência na qual são mestres. Maneira de estar que os dotou de uma sageza que lhes permite sábia e inteligentemente, gerir as suas vidas dentro de parâmetros de tranquilidade onde todo o tipo de excesso é repudiado. Di-lo, calma e amigávelmente um falso espanhol e português autêntico. Tínhamos chegado. Afastei-me acenando-lhes o braço como despedida, perante o olhar medianamente surpreendido e absoluto silêncio do simpático casal francês.

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 13:25

Ter, 08/04/14

 

Para obter um documento, queixa de furto, necessário para que a companhia de seguros me pague o prejuízo, dirigi-me a uma esquadra da GNR a dez quilómetros do Porto, e o que vi é bem demonstrativo do que é Portugal por estes dias. 

 

Única num raio de muitos km2 cinge-se a um pequeno espaço onde os guardas obrigatóriamente equipados com as habituais pesadas fardas, nomeadamente as botas, mal se conseguem mexer apesar de, neste caso, nem sequer fazerem justiça áquela "imagem feita" de anafados que injustamente continuam a carregar. Logo após a entrada, dois passos?, atrás de um balcãozito atendeu-me um homem novo que, quase sem me fitar atirou, em que posso ajudar? Expliquei-lhe o que ali me levava o que óbviamente não percebeu ou sequer ouviu porque perguntou, e já apresentou queixa? Respondi-lhe que era precisamente para isso que ali estava o que o fez desaparecer sem proferir palavra. Voltou três ou quatro minutos depois para me informar que um colega iria proceder ao registo da queixa. Mais dois ou três minutos e aparece de uma porta à qual me encontrava práticamente encostado um outro guarda, pouco mais velho, que me conduziu a um cubículo onde nos encaixámos um de cada lado de uma secretária. Posso sentar-me? perguntei, pode e deve, foi a sua resposta. Relatei-lhe a ocorrência e face à minha dificuldade em situá-la no tempo, ou calcular valores com exatidão, foi sugerindo e registando datas e valores mais ou menos ao "correr da pena", sempre sem me olhar, só dando sinal de reação para além do estritamente necessário para comentar numa observação irónica, ah então só se vem queixar para receber da companhia de seguros! Confirmei-lhe que sim guardando para mim a pergunta que ele merecia, valia-me de alguma coisa fazê-lo por outros motivos? Pronto! Ao balcão dão-lhe um documento para vir levantar isto despachado, entregando-me a folha que tinha preenchido. Tem algum custo? arrisquei perguntar, Se fosse uma certidão eram logo dez euros, finalmente olhando-me entre o desafiador e a ameaça, mas para o que é isto serve. Quase nos atropeláva-mos  a sair do "cóté". Enquanto preenchia o tal papel para eu posteriormente, lá para 6ªfeira, levantar o documento, o agente mais novo ía falando ao telefone com, presumo, um outro mas do sexo feminino pelo ar maroto do seu rosto de galã, não nada de especial...só tem que ligar para aqui e falar comigo...um homicídio mas foi em A., aqui só umas apreensõeszitas de estufefacientes, nada de especial...ligue mais daqui a pouco a ver se há novidades. Quando precisar já sabe...Entretanto acabara o preenchimento e encarando-me ainda com resquícios de malandreco deu-me a tal informação de que se não queria perder tempo era melhor passar só lá para sexta-feira.

 

Só quando cheguei ao exterior me apercebi da diferença da qualidade do ar, de como a exiguidade daquele espaço, da decadência de todo o mobiliário, cadeiras com esponja à vista, secretárias com a madeira e desfazer-se, pastas e resmas de papel antigo a decompôrem-se, das paredes manchadas de humidade, e da presença constante de três homens, aos que referi juntava-se um outro sentado a um canto a escrever ininterrupta e muito lentamente num computador de cujo teclado não levantou os olhos uma única vez, viciava e poluía o ambiente espalhando um odor bafiento bem de acordo com a atitude daqueles homens, também ela tristemente ultrapassada, apesar do tempo que lá estive não ter sido suficiente para perceber se também nela havia uma qualquer revolta contida, apesar de tudo prova de responsabilidade.

 

Pobre país este onde à autoridade, ainda por cima tratando-se de gente relativamente jovem, são dadas tais condições, que em nada ajudam, bem pelo contrário, a mudar a alarmante porque absolutamente desadequada postura, de quem é suposto defender a população de quase todo o tipo de ameaças. Diz-se que a maneira como as autoridades se apresentam e interagem com as populações são a imagem de um país. É tudo uma questão de prioridades que, por cá, são claramente outras.

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 11:59

Seg, 07/04/14

 

- Isabel Jonet afirmou que piores inimigos dos desempregados são as redes sociais - Depois do bife veio esta...será que da próxima vai dizer que o problema foi os pais tê-los trazido ao mundo?

 

- FC do Porto processa Miguel Sousa Tavares e A Bola paga-lhe os custos da defesa - Afirmar no jornal oficial do Benfica, para o qual escreve pago a peso de ouro, que o FCP cometeu uma ilegalidade de tal gravidade, faz com que a despesa sejam trocos para o pasquim. Já para o Miguel... Esta mania de acusar sem provas. 

 

- Boavista está de volta ao principal escalão de futebol - O SLB já deve estar a esfregar as mãos de contente em ter mais um aliado na Liga! Ou os axadrezados terão aprendido a lição?

 

- Seguro afirma que acaba com sem abrigo em quatro anos - Vai exterminá-los? E andava toda a gente a pensar que com o Coelho se tinha atingido a máxima demagogia!

 

- Afinal foram alheiras e não uma navalha que Passos Coelho recebeu em S. Bento - Ou terá sido milagre? Transformou a arma em alheiras! Confirma-se, mora um messias em S. Bento!

 

- Fruta, carne e peixe estão em consumos mínimos - Cá está uma boa questão para pôr à Isabel Xoné. Porque será?

 

- Grécia pode regressar aos mercados antes de Julho - Mesmo tratando-se daquela cambada de arruaceiros? Então para que vale ser bom aluno e não faltar ao beija mão? Uma injustiça!

 

- Mentiras de Passos lideram audiências na RTP - Não há dúvida que mentir compensa. Até nas audiências!

 

- NATO corta relações com a Rússia mas isenta estação espacial - Gato escondido com rabo de fora.

 

- Mc Donald's fecham na Crimeia - Rússia responde e quer fechá-los em todo o seu território. Pronto! Está o ketchup entornado. Eis que começa a verdadeira guerra!

 

- Gabriel Garcia Marquez bem humorado terá alta em breve - Face ao batalhão de jornalistas que o aguardavam mandou-os ir trabalhar, fazer alguma coisa de útil. Será que viu a personagem O Chato, do Bruno Lopes?

 

- Menos 44 milhões de análises e diagnósticos no Serviço Nacional de Saúde só em dois anos - É só saúde!

 

- Pedro Lomba: o governo tenta continuar a desenvolver o espírito original do 25 de Abril - Ele bem se esforça para lhe darem um tacho coitado! Mas com tiradas destas devem querer é vê-lo longe.

 

- O único sistema de videovigilância urbana que funciona em Portugal é em Fátima - Ali não faltou o financiamento... A habitual eficiência do olho de deus quando se trata de defender os seus interesses.

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 12:37

Dom, 06/04/14

 

Laura foi saindo lentamente da letargia em que se encontrava muito graças aos passeios para que os deuses, parecendo finalmente conceder-nos tréguas, nos convidaram oferecendo-nos um tempo magnífico. As manhãs acordavam luminosas e serenas, o mar, após um inverno de rebeldia e destruição ainda, e seguramente por muito meses, bem visível, apresentava-se calmo e brilhante num azul turquesa incrível, que refletia um céu imaculado onde a passarada exultava de felicidade. Da areia rebentavam por todo o lado plantas verdes das quais, de um dia para o outro, emergiam flores nas mais improváveis formas e cores, que davam áquele pedaço que percorríamos entre a casa e a beira mar, um aspeto de paraíso surreal onde não faltava um odor que faria o perfume ideal, tal era a perfeição da mistura entre a doçura e a acidez. Muito antes de verdadeiramente comunicar comigo, só ao fim de duas semanas naquele idílio redentor, ela fê-lo com os bichos, devagar. Perante o seu mutismo Uli, cumprindo a sua natureza de rafeiro ternurento, insistia em meter a cabeça debaixo da mão dela que estivesse mais a jeito, enquanto lhe lançava um olhar falsamente triste, onde se podia adivinhar um sorriso escondido e rápidamente desmascarado por uma molhada lambidela e furioso abanar de cauda, caso ela desse o minímo sinal de anuência. Já Zinga, mais cauteloso, esperou que o seu companheiro canino fizesse o trabalho, desbravasse as primeiras contrariedades no caminho, para só depois, sem dar hipótese de qualquer recusa, enfatuado, se instalar confortávelmente junto de Laura, mesmo em cima ou encostado, mas sempre em contacto direto, estabelecendo uma ligação que transmitia um mundo de tranquilidade.

Comigo, cujo racíocio envenenava a humildade, foi mais difícil. Não obstante tudo o que tenho aprendido com estas doces criaturas que nada questionam, e tão pouco exigem em troca do incondicional amor que pelos seus humanos eleitos demonstram, sentimentos como o ressentimento ou as expectativas, não são fáceis de minimizar quanto mais anular! Ainda assim tentei apagar-me ao máximo dando todo o espaço que aquela mulher precisava para voltar a ser o que fora, um autêntico farol que se acendera no então cinzento horizonte da minha vida. O nó só se desatou ao fim de mais um dia de quietude total mas durante o qual, pela primeira vez, sentira aquela centelha de desejo, um ligeiríssimo frémito na ponta dos dedos dela sempre que, mais vezes do que o usual desde havia muito tempo, me tocava, na maior parte dos casos sem necessidade de o fazer. Fazia-o acompanhando esse gesto com um sorriso novo, enigmático e para mim completamente desconhecido. Estava habituado às suas gargalhadas francas e sonoras, resultantes de um caráter decidido e aberto, por isso, perplexo, não captei de imediato a mensagem que nele transportava, algures entre o perdão, a dúvida, o amor, mas onde também pairava, como um fantasma, a indiferença. Carinho! Era o que ela, a um só tempo desesperada e indiferente, pedia e sobretudo exigia. Agarrei-me como um naufrago a este laivo do restava da Laura por que me tinha apaixonado, a capacidade de exigir, a força de que ambos tanto necessitávamos para encontrar sentido nos dias que se sucediam mornos. E então, ultrapassando com uma resignação tranquila os novos condicionalismos que, para nós, em tanto mudavam a natureza animal do ato, fizémos amor! Sexo também mas, acima de tudo, amor.


direto ao assunto:


semtelhas @ 12:58

Sab, 05/04/14

 

Cinquenta minutos na BBC com um programa sobre os vinte anos que por estes dias passam sobre o genocídio ocorrido no Ruanda, e a vontade, o ser compelido, a refleti-lo nesta espécie de diário de bordo para um amigo imaginário, cuja solidão que sempre procurei desde muito pequeno me obrigou a criar, também ele, quem sabe? um testemunho para memória futura.

 

Centenas de milhares de mortos, as Nações Unidas a abandonar o país após evacuar as pessoas com nacionalidades estrangeiras, deixando todos aqueles infelizes entregues a si próprios, os filhos dos governantes e muitos outros salvos por um herói improvável graças ao seu humanismo e/ou loucura, que o fez desobedecer a ordens superiores, acabando por morrer às mãos dos beligerantes. Um punhado de pessoas, hoje, prestando homenagem a esse homem, a viúva abandonada por uma causa maior, uma das filhas dos exgovernantes assassinados agradecida mas não demasiadamente comprometida, o chefe da missão das NU da altura a retratar-se do seu fracasso e a revelar os seus fantasmas, à porta do edifício onde exerce a função de senador do Canadá e, finalmente mas não menos importante, o relato do próprio autor do programa, compungido e profissional, também ele a dever a vida a esse idealista com especial engenho para lidar com loucos no meio do completo desatino duma mortandade inqualificável.

 

No fim uma pergunta, para quê? Talvez para fazer mais um belo programa, com uma boa dose dos mortos e extropiados que todos os dias alimentam a nossa alegria por estarmos vivos, minuto atrás de minuto, massivamente através dos orgãos de comunicação social. Vinte anos depois olha-se em volta e novos Ruandas estão aí, nunca deixaram de estar, a Síria por exemplo. Passados estes cinquenta minutos volto, como todos os outros, à vidinha das pequenas coisas, dos egoísmos, da estupidez, da presunção. Então para quê? Parece sermos movidos quase exclusivamente a uma força maior a que se chama sobrevivência, a qual gerimos de formas diferentes, mas quase sempre como o fazem os bichos na selva. Uma fatalidade. Restam-nos estes programas, independentemente das razões mais ou menos profundas que os motivam para, refrescando-nos a memória, contribuirem para que apesar de tudo, talvez, nos tornemos pessoas melhores.

 

 


direto ao assunto:


semtelhas @ 11:59

Sex, 04/04/14

 

Versão suave do antónimo de Glória, filme chileno sobre o desencanto com a vida de uma mulher de meia idade que lhe dá o nome. Triste porque nostálgico, pelo menos para quem andar por aquela idade, mas também aviso sério à navegação para quem lhe quiser dar olhos e ouvidos, já que ninguém lhe escapa. Afinal o que faz sentido quando a energia, a beleza, e sobretudo as ilusões dão lugar à crua realidade, que sempre esteve ali mas que obstinadamente se recusa? Manter, por vezes até reforçar, esse fogo fátuo, insistindo numa postura que fatalmente se vai tornando mais e mais difícil de sustentar, ou assumir a implacável força das coisas como elas são e ir definhando calmamente?

 

Quando o que ficou para trás se tratou de uma nunca assumida fuga para a frente de olhos bem fechados, então o processo apresenta-se bem mais complicado. A ajudar a esse meter a cabeça na areia que irá resultar numa mais ou menos longa e excruciante despedida, existem no abençoado e todopoderoso mercado, um sem número de espécie de paliativos que oferecem aquilo que é suposto prolongar a vida  numa eterna juventude, desde os mais complexos artefactos eróticosexuais, medicamentos e cirurgias milagrosos, livros de autoajuda infalíveis, redes sociais redentoras, até aos mais inofensivos e tristemente enternecedores bailaricos. Muitos milhões em jogo. Venha o diabo e escolha!

 

 


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
procurar
 
comentários recentes
Pedro Proença como presidente da Liga de Clubes er...
Este mercado de transferências de futebol tem sido...
O Benfica está mesmo confiante! Ou isso ou o campe...
Goste-se ou não, Pinto da Costa é um nome que fica...
A relação entre Florentino Perez e Ronaldo já deve...
tmn - meo - PT"Os pôdres do Zé Zeinal"https://6haz...
A azia de Blatter deve ser mais que muita, ninguém...
experiências
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


subscrever feeds
mais sobre mim