semtelhas @ 12:07

Sab, 01/03/14

 

Foi por isso para mim estranho quando o meu chefe, mas pouco dada a minha condição de freelancer, me contou que ela estava com graves problemas com o indivíduo que me tinha substituído na revista, que estaria a destabilizar a redação numa não assumida vingança pelo facto de Laura não o incluir entre os eleitos para frequentar a sua cama. Quando me referiu o nome do dito, percebi tratar-se daquela mesma pessoa que ela havia depachado à minha frente um ou dois dias depois de a conhecer. Pelos vistos tratava-se de um excelente jornalista, o tal de tendências mais conservadoras que conferia um importante equilibrio à opinião reconhecidamente admirada, e até espécie de opinionmaker entre pares da revista, pelo que afastá-lo não seria tarefa fácil. Quando saí do gabinete, com a minha posição laboral reforçada após acordarmos mais espaço para o meu artigo semanal, já tinha decidido ligar a Laura para me inteirar convenientemente do que realmente se estava a passar.

Foi de uma mesa do canto da sala do restaurante, encostada a uma parede de vidro da qual se podia admirar uma deslumbrante visão do Porto à noite, desde os vastos telhados recentemente renovados num imenso mar laranja, das caves do Vinho do Porto, passando por um rio Douro naquela noite tranquilíssimo a espelhar as magnificas pontes, até ao presépio por ali acima a acabar bem no topo das cúpulas da câmara municipal e da torre dos Clérigos que, dali, parecem chegar às estrelas que brilhavam de promessas num céu negro, que vi Laura mais bela que nunca a entrar na sala. Quando lhe dissera a que restaurante íamos a reação foi imediata, para esse tenho que levar um fatinho de marujo!, só por isso não fiquei completamente desarmado dentro das minhas calças de ganga e camisa branca, dando-me nesse momento por feliz porque, e ainda tive que reentrar em casa para o fazer! tinha trocado as sapatilhas que calçava por uns sapatos pretos razoávelmente brilhantes. Enquanto percorria a dezena de metros que nos separavam pude reparar que estava exageradamente magra, e nem uma dose excessivamente generosa de maquilhagem conseguia disfarçar um cansaço profundo. Sentou-se na cadeira que afastei da mesa antecipando-me ao empregado que me olhou surpreendido.

À medida que comíamos o saboroso peixe e bebíamos o precioso néctar que ela tão bem conhecia das terras do entretanto desaparecido avô, porque não me avisas-te para ir ao funeral, questionei-a não merecendo mais que um, não te quis aborrecer, já íamos na segunda garrafa! Laura foi relaxando e dizendo o que muito provávelmente e apesar do seu caráter frontal, mais sóbria não diria. Confirmou os problemas com o exnamorado e agora também examigo, para logo encerrar essa questão, ainda só não corri com ele porque tenho coisas mais importantes a resolver que me podem obrigar a ausentar-me uns tempos, caso contrário, se tivésse a certeza que estaria presente durante o processo de substituição para "segurar a barra" esse" já era" há muito. Que coisas mais importantes? Perguntei. Fitou-me demoradamente como não fazia desde os nosso primeiros maravilhosos dias, levou o copo à boca depois de ter refrescado com mais algum o vinho que continha, e confidenciou-me numa voz a condizer com uma assustadora expressão no rosto que espelhava um pânico que desconhecia nela e que a desfigurou, não lhe retirando porque impossível a elegância dos traços, mas transformando a dignidade confiante neles inscritos numa espécie de trágica beleza decadente. Senti o coração a avisar-me de que precisava continuar a bater enquanto a ouvia dizer num sopro de voz, acho que tenho sida.


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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