semtelhas @ 11:04

Qui, 16/01/14

 

Não há dia algum em que não sejamos sistemáticamente atingidos pelas mais diversas formas de condescendência, menorização, desdenho, falsa benevolência ou, numa palavra, subestimados. Tal como a própria palavra diz, a coisa começa logo por ser uma falta de estima por quem é objeto dessa atitude, mas é muito mais que isso até porque, além de funcionar como boomerang, na maior parte dos casos de facto enraíza numa mal disfarçada baixa autoestima. 

 

Ándamos metade da vida a tentar demonstrar a nós próprios, pensando fazê-lo exclusivamente aos outros, que somos extremamente espertos, muito mais que eles, para quando já pouco interessa, quando práticamente todas as decisões verdadeiramente importantes para definir a vida que vamos viver estão tomadas e são irreversíveis, só então descobrir-mos que a arte, a inteligência, ou o truque, depende dos casos, está em fazer-lhes crer que, eles sim!, é que são espertos.

 

Claro que sempre houve e haverá uma minoria que descobre esta estratégia bem jovem, ainda a tempo de a transformar em sucesso, a diferença fundamental está nas razões porque a descobriram, e o que dessa descoberta vão fazer. Normalmente essa espécie de iluminação precoce nasce de uma capacidade intriseca, mas também pode resultar do convivío intenso e desde tenra idade com pessoas naturalmente humildes, com uma propensão maior para ouvir que falar.

 

É o meio ambiente onde crescem, e a educação que recebem, onde estes afortunados vão definir o que fazem com essa mais valia. Para o bem e para o mal o segredo é sempre o mesmo, não subestimar o outro. Essa atitude, além de que baixar a guarda do adversário, levando-o a uma exposição que o pode fragilizar, obriga a grande atentividade de quem opta pela dúvida sistemática, logo à necessidade de convocar todas as suas forças para uma contenda da qual sempre se espera o pior.

 

Como todas as regras também esta tem as suas exceções e, por vezes, rarissímas, alguns já bem entrados na idade ainda vão a tempo de corrigir o rumo. Muito mais, quase todos, quando a descobrem ficam cínicamente a assistir na primeira fila à ingénuidade reinante. Outros ainda, mas poucos, são aqueles que, não sendo já útil para eles tentam partilhá-la. Infelizmente só para concluírem da enorme dificuldade da sua aplicação, salvando-se algumas honrosas exceções que confirmam esta Regra de Ouro.


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semtelhas @ 15:38

Qua, 15/01/14

 


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semtelhas @ 11:27

Ter, 14/01/14

 

Era um casarão, e ficava parcialmente escondido pelas árvores de um jardim que crescia selvagem, ou pouco menos. Tratava-se a segunda residência dos desaparecidos pais de Laura, havia ainda um apartamento no Porto, na zona da Boavista, a primeira onde tinham vivido e onde o pai começou a dar consultas de psiquiatria. Nunca o venderam, não porque ele ainda lá trabalhasse, atualmente dividia um vasto andar na zona da Foz com mais dois colegas, mas por acharem útil terem casa no centro, especialmente o pai, que muitos desconfiavam usá-la para fins inconfessáveis. A "casa de praia", como lhe chamavam apesar de não utilizarem outra, para o armanço, criticou Laura. Compraram-na haviam já quase vinte e cinco anos, a menina teria dez anos, como ainda a semana passada a minha mãe comentava com o vizinho daquela casa ali, estás a ver? Dizia-me apontando com o braço estendido para um autêntico palacete ao fundo num pinhal, que descortinei com dificuldade tal a forma como estava camuflado, como se fosse algo ocorrido muito mais tempo atrás, na altura até fiquei um bocado irritada, menina! nem eu sou uma menina, nem a nossa relação estava para aqueles mimos, muito menos em frente a um estranho. Tentou reprimir um soluço, não conseguiu, e desabou num copioso pranto que durou largos minutos. Foi sentados num baloiço enferrujado que a fui ouvindo, primeiro entre lágrimas, depois recompondo-se até acabar perfeitamente senhora da situação, fenómeno de notável recuperação e positivismo ao qual me começava a habituar, que desvendou mais algumas peças do puzzle. As coisas começaram a correr mal precisamente quando mudá-mos para aqui, não é que o meu pai até aí tivesse sido um santo! É tal qual o pai! Conta-se que quando era novo, lá na primeira quinta que teve, não escapava nenhuma! Mas naquela altura houve grandes alterações, ele juntou-se aos amigos e ficou com o terreno mais livre, a minha mãe mudou para a clínica onde ainda estava, eu fui para o preparatório...A verdade é que desde aí eles foram-se afastando um do outro e eu fui com a enxurrada. Passava imenso tempo sózinha aqui, e onde sentia mais carinho e a sensação de pertencer a uma família estruturada era quando, sempre que possível, ía para casa do meu avô em Penafiel. Depois as coisas foram acontecendo. Eu fui-me vingando inicialmente no estudo e depois no trabalho, o meu pai, cada vez mais ausente, lá foi fazendo a sua vida entre pacientes, amigos, as amigas... e as saídas para a caça, gosto que também herdou do pai, e a minha mãe, que ainda andou uns anos mais ou menos perdida, acho que nunca se divorciou porque o amor que tinha pelo meu pai é daqueles de infância, dos que nunca acabam. Reencontrou-se nos braços do patrão, ou sócio ou lá o que é! Neste ponto mudou de posição e expressão, e como quem acorda de um sonho mau e verifica que a realidade em volta é muito mais auspiciosa, atirou, a propósito, o homem quer comprar-me a quota da minha mãe, parece que vale uns milhares largos! Além disso quero resolver os assuntos relacionados com as casas...se faço algum investimento ou monto negócio...o meu avô já se disponibilizou para me ajudar a decidir mas também gostava de ouvir a tua opinião. Completamente estática fitava-me expectante, conheces-me desde anteontem, balbuciei como quem pensa alto, é verdade mas, e não me perguntes porquê, é como se já te conhecesse há anos e, das duas uma, ou és muito enganador ou sinto que contigo se passa o mesmo. Só precisei de me inclinar ligeiramente para a beijar nuns lábios que se entreabiram para mim e, durante alguns segundos, minutos? habitámos um outro mundo, onde mora a paixão, já não juvenil, mas tranquila, consciente, profunda e harmoniosa, a promessa de um futuro radioso.


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semtelhas @ 12:19

Seg, 13/01/14

 

Quando me aproximo, os dois que estavam a trabalhar, os outros dois descansavam, páram para me deixarem passar. Já antes vira uns quantos a limpar o areal dos montes de lixo que o mar provocou e trouxe. Reparo que muitos andarão pela minha idade e mesmo mais velhos e pergunto-me, como se sentirão estes homens vendo-me aqui a exercitar o corpo voluntáriamente, enquanto eles castigam ali o deles, acredito, pelo que me foi dado a ver pelas máscaras de esforço no rosto, com grande sacrificío? É incrível como a partir de certa altura movimentos dos quais nem dávamos conta, sinalizam ossos ou músculos! Deve ser por isso que se diz a velhice fazer-se anunciar quando o prazer, mais que por qualquer outra razão, chega pela ausência de dor. De imediato surge a resposta e redenção para o inusitado mas real sentimento de culpa, sincera ou imposta pelo olhar acusador de quem sofre? A formiguinha que sempre fui. 

 

A questão é que, se pode ser uma boa resposta para a minha própria situação, isso não quer dizer que o tenha que ser para a deles. A uma formiga não tem que corresponder, forçosamente, uma ou uma centena, de cigarras, ou viceversa. Quantas destas pessoas, pelas mais diversas razões e pelas quais não são responsáveis, deram duro toda a vida e, mesmo assim, não escaparam a este dificíl destino? E aqui pôe-se a incontornável pergunta, não deverão os outros, que por outras tantas razões, muitas vezes igualmente a elas alheios, conseguiram evitar tais circunstâncias, contribuir de alguma forma para evitar ou, pelo menos minimizar este estado das coisas?

 

Ao lado de cheirosas senhoras que desfilam em caros fatos de treino, fogosa juventude plena da vigor e energia nos seus sofisticados e levissímos equipamentos, e, tal como eu, um exército de gente a caminho da velhice e a dela tentar escapar mais ou menos desesperadamente, como se isso fosse possível!, trabalham rapazes e raparigas, homens e mulheres, curvados nas suas roupas gastas, muitas vezes sujas, maioritáriamente numa linguagem corporal que exprime alguma revolta mas sobretudo frustração. As respostas fogem-me e as perguntas crescem em mim: as coisas terão que ser assim? em vez de atirarem para aqui esta gente, como quem lhes dá uma côdea para as manter longe da vista, não deveriam ensiná-los a sentir orgulho no serviço cívico que executam? Fornecendo-lhes vestuário limpo e adequado? Até, porque não? Uma formação básica para melhor desempenharem o seu trabalho? Contribuindo para a auto-estima que levaria estas pessoas a apresentarem-se com outra dignidade? E para a diminuição de sentimentos negativos e revanchistas que conduzem às várias formas de violência que a ninguém interessam?

 

Vivemos num ambiente de furioso liberalismo onde, para além de políticas que objetivamente o comprovam, se pressente uma ferocidade só reprimida por alguma vergonha e bom senso que ainda subsistem, sobretudo originária em velhos conhecedores da verdadeira democracia, não pela teoria, mas pela vivência em causas próprias. Boa parte da classe política emergente respira individualismo, tecnocracia, competividade sem limites, do olho por olho, dente por dente, que não hesita em marginalizar os mais frágeis, em diabolizar quem se atreve a deles discordar, tudo em nome do endeusamento de uma suposta incontornável e generalizada capacidade de luta por um objetivo vencedor, sempre material, invariávelmente consubstânciada numa qualquer manifestação de poder, única, defendem, a legitimar a atribuição dos rendimentos suficientes para uma vida digna. Como se fosse possível todos terem acesso a esse tipo de vitória! E, pior, quando as regras do jogo estão viciadas à partida, as melhores oportunidades, leia-se saúde, educação, qualidade de vida, essenciais porque bases de tudo o resto, só estão ao alcance de alguns, sempre dos mesmos, raros são os que conseguem romper essa lógica. Um ciclo vicioso, literalmente. 

 

Infelizmente, e como sempre, vamos aprendê-lo da pior maneira. Acabaram com aquilo que apelidaram de despesismo mas que consistia na possibilidade de muitos milhares de pessoas contactarem, muitas vezes pela primeira vez!, com salas de aulas, livros, computadores, aprenderem um minímo desta ou daquela matérias, mas, acima de tudo, conviverem saudávelmente com tantos nas suas condições, perceberem que não são únicos na sua situação, crescerem juntos para uma civilidade cuja falta é o principal cancro da nossa sociedade, despertarem para as suas, em tantos casos! enormes capacidades desde sempre adormecidas, gostando um pouco mais de si próprias e, consequentemente dos outros. Assim se muda o estado das coisas. Mas não! Que era muito caro, na verdade trocos em comparação com milhões atirados para buracos negros cavados por gente sem escrúpulos. Por isso se destruiram novas oportunidades a milhares de pessoas para diminuir a sua iliteracia, mas sobretudo o seu isolamento e consequente afundar nas trevas da ignorância e atraso que a todos penaliza, e atirou para o desemprego centenas de técnicos, agora quase todos mergulhados na descrença e desespero, a braços com uma vida estúpida e súbitamente interrompida. 

 

Quanto tempo faltará para que sejamos mais ali a apanhar lixo do que aqui a tentar manter a forma fisíca? O processo está em evolução e não há como enganar, aquele pessoal, de olhos no chão ou a mirar-nos de lado, é cada vez mais. O costume, a poucos com muito ou tudo, correspondem sempre muitos com pouco ou nada. Cá está um que pára à minha passagem. Bem direito, cabeça levantada, fita-me de frente, bom dia, diz clara e firmemente, bom dia, respondo e deixo-lhe uma sorriso de simpatia. Como seria bom aproveitar a boa vontade e esperança deste rapaz, ainda incólume, vá lá saber-se como! intocado pela descrença, disponível para o trabalho. Como ele merece o meu respeito e admiração! Mas a ferroada das perguntas volta para não me largar: Que lhe dirias se ele te questionásse sobre o futuro? Que conselhos lhe darias? Seguramente que desse o seu melhor, que acreditásse, que não desistisse às primeiras contrariedades. Mas não o conheço. E se aquela postura que interpreto como positiva e plena de entusiasmo para enfrentar o que o espera, corresponde a um qualquer tipo de ingenuidade originária em capacidades intrínsecas ou adquiridas, medianas ou mesmo inferiores à média. O que o espera?


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semtelhas @ 14:44

Dom, 12/01/14

 


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semtelhas @ 11:57

Sab, 11/01/14

 

- França aprova imposto de 75% sobre rendimentos superiores a 1 milhão€/ano - Se a moda pega os holandeses ainda vão ter que levantar mais umas estaquitas para aumentar aquilo, tal vai ser a corrida dos Depardieu e Jerónimo Martins desta nossa fraternal galdéria Europa para aqueles lados! 

 

- Portugueses cada vez têm menos e piores orgasmos - Com a quantidade de maldades que lhes andam a fazer não há tesão que aguente!

 

- Venda de viaturas aumentou em Portugal - Ao contrário do nível de vida dos portugueses que continua a baixar. Há coisas que nunca mudam!

 

- Cavaco vai condecorar Cristiano Ronaldo por ser um símbolo de Portugal - Como? Se é por isso então devia era condecorar-se a ele mesmo!

 

- Reality show's lideram número de queixas junto do provedor para a televisão - Uma vitória em toda a linha para a TVI. Já não lhes chegava liderar as audiências!

 

- Fortaleza da Luz, título da Bola em vésperas da receção do Benfica ao FC do Porto - Nos últimos treze anos o FCP ganhou tantas vezes na Luz quantas tinha ganho nos trinta anteriores! Aquela gente anda mesmo baralhada! Ou como o amor cega.

 

- Lewandowski assinou pelo Bayern - Um dos principais a andar com o Dortmund às costas, o levou a bicampeão e à final da Champions. O mesmo Dortmund que no atual campeonato já esta a doze pontos do mesmissímo Bayern. Parece que o homem andava triste...

 

- Mil pessoas passaram o teste para se candidatarem à primeira viagem a Marte - Será que uma das prerrogativas para tal é ser imortal ou, no minímo, durar tanto quanto o Manuel Oliveira?

 

- Merkel fraturou a bacia ao praticar ski - O facto de também o Sapateiro ser alemão, deve ter provocado alguma confusão nas ordens de serviço lá em cima.

 

- Platini fez-se representar pelo presidente da FPF no funeral de Eusébio - O homem é mesmo um bandoleiro espalha brasas! Mais lhe valia ter ficado caladinho como fizeram todos os outros ilustres ausentes.

 

- Espanhois fizeram saber que querem que o rei abdique - Como é possível ainda não terem percebido que para isso têm é que pedir para que ele continue?

 

- Rita Pereira beija irmã na boca em dia de aniversário, noticía de primeira página do JN - Sim, e depois? Quer dizer que a moça é lesbica? Anda enrolada com a própria irmã? Ou é costume de família? Esclareçam o povo, por favor.

 

- Shakira: o meu homem prefere carne a ossos - Põe-te fina filha! Não acredites em tudo que o teu homem diz.

 

- Europa precisa de milhares de milhões de abelhas - Então deve ser por isso que isto está a azedar! Para onde terão emigrado? Mas que venham obreiras, porque raínhas já cá temos a senhora Merkel.

 

- Idoso esteve 50 horas à espera para ser atendido na urgência do Santo António - E sobreviveu! As coisas que eles fazem para evitar ocupar camas e poupar respectivos custos. Ao próximo/a têm que deixá-lo a secar uma semana. 

 

- Manuela Ferreira Leite diz que Governo vê reformados como se fossem buracos na rua - Esta é mesma senhora que dizia deverem evitar-se exames médicos caros pagos pelo estado a pessoas com mais de 70 anos, e que a democracia devia ser interrompida seis meses. Até podemos ter uns sapatos muito robustos, mas quando são nossos os calos calcados...

 


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semtelhas @ 12:06

Sex, 10/01/14

 

Sempre houve, há e há-de haver, o que muda é a forma como os homens a expressam. Hoje exercem-na perseguindo todo o tipo de minorias, incluindo pela côr da pele como o fizéram durante décadas nos EUA. Outras escravaturas, como diáriamente são relatadas pelos orgãos de comunicação social sobre mulheres obrigando-as a prostituir-se, deslocados explorando o seu trabalho, ou pessoas de orientação sexual diferente.

 

A propósito do fenómeno do racismo sobre os negros já se fizéram inúmeros filmes, 12 Anos Escravo é só mais um. Apesar da notariedade que tem vindo a obter junto de alguma crítica, a sensação que fica é que a mesma se deve muito mais a uma promoção massiva patrocinada pelos poderosos estúdios que a produziram, que pelo seu valor intrínseco.

 

Vê-lo corresponde à experiência de apreciar um quadro do realismo, tudo tal qual os olhos vêem, mas com o cuidado de exagerar aqui e ali puxando um bocado a côr, não tanto para com isso passar melhor a mensagem, mas para o tornar mais apetecível a quem o visiona. Concretizando, conta-se o argumento aparentemente seguindo com grande fidelidade o livro que lhe deu origem, escorreito, linear, com a carga de veracidade de algo que foi real, e depois filma-se ao pormenor, as feridas provocadas pelo chicote, mas também as lagartas da peste do algodão. Fica pouco espaço para alargar o raciocínio para além dos factos relatados, o que, hoje, é sempre redutor. Sobra um bom filme apesar desse sentimento ambivalente entre a honestidade do relato, e algum exagero na utilização recorrente daquilo que pode exacerbar e puxar ao sentimento, o que torna legítima a pergunta, qual a motivação? pouca fé na inteligência dos espectadores? promover a venda da fita? venha o diabo e escolha. Com belas imagens, nomeadamente de pormenor, e mais uma impressionante interpretação de Michael Fassebender, só isso não faz um grande filme. Se, noutros tempos, a grande arte era aquela que conseguia exprimir quase na perfeição o que aos sentidos era dado a experimentar, nos nossos dias é preciso ir mais longe, espicaçar a mente, deixar dúvidas, fazer cócegas às certezas. Depois de duas horas de uma espécie de sexo tântrico que acaba por nunca se concretizar, surge uma pequena luz quase no fim, será que ao menos não nos vão dar todas as respostas? deixar-no-ão alguma liberdade depois de tanta escravidão? não, serviram-nos mesmo a receita toda.

 


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semtelhas @ 09:52

Qui, 09/01/14

 

Ligou-me a meio da manhã para o numero que lhe deixara em cima da mesinha de cabeceira, preso no copo com o resto da água para tomar os comprimidos, o funeral é amanhã, hoje vou estar ocupada com assuntos relacionados com a família, por isso se calhar é melhor não vires para aqui mortificar-te, amanhã volto a ligar-te. Pareceu-me completamente recomposta, a dominar a situação. O que confirmei no dia do funeral durante o qual, apesar de profundamente abalada, ter mantido uma compostura rara para quem tinha acabado de perder pai e mãe, seria uma questão que, esperava, teria muitas oportunidades de compreender melhor. Nas últimas vinte e quatro horas, sem sair de casa, fizera uma espécie de rebobinagem do tempo passado com Laura, e quanto mais pensava mais incrível me parecia como esta mulher encaixava na minha vida, como lhe dava sentido numa fase na qual a falta de objetivos e o crescente desinteresse por tudo eram a regra. Tem calma homem, disse a mim próprio, enches-te de entusiasmo e depois se não der em nada ainda é pior. Para logo a seguir desatar a "fazer filmes" onde ela era sempre o personagem principal. Já deitado a antecipar os acontecimentos que iria viver dali a poucas horas, e cansado dos medos que, desde haviam muitos anos, jurara nunca mais deixar controlar-me, decidi entregar-me, viver o momento, deixando fluir as expectativas livremente. Foi neste estado de espiríto que encarei as horas sujeito ao juízo de um apreciável numero de pessoas, a tragédia tinha atingido uma das mais conhecidas familias da cidade, uma presença inigmática permanentemente ao lado, ou perto, da supostamente maior das vítimas. Como seria de esperar tudo decorreu com a maior das civilidades até porque quem realmente mais sofria, os quatro velhotes, agora reduzidos a pequenas sombras negras, apoiando-se mutúamente numa solidariedade verdadeiramente tocante a um canto do enorme salão onde foram expostos os corpos, ou o que restava deles, segundo alguém que nunca cheguei a identificar, o dela criou grandes dificuldades ao armador na tentativa de lhe dar uma aparência minimamente razoável, foram poupados ao cortejo de ida ao cemitério onde os filhos haveriam de ser cremados. Só o dono da casa, o avô do Saab, pessoa notóriamente extrovertida mas ferida pela morte, adorava aquele seu filho, espécie de cópia de si mesmo, me dirigiu a palavra, Trate bem a minha neta, murmurou suave, mas firme. Apareçam, convidou à despedida. Regressámos no Golf por vontade de Laura que ouvi dizer ao avô, acho que me vai agradar voltar a conduzir um carro mais pequeno, é mais fácil para estacionar. Imediatamente interpretei esta atitude, talvez precipitada, de quem sentia ter fechado um ciclo, pronta a abrir um novo. No entanto uma pergunta permanecia, será que eu fazia parte desse reinicío? Parece impossível como desconhecemos tanta coisa da vida dos que nos são mais próximos, ou deviam ser. Imagina que a minha mãe era sócia da cliníca veterinária onde trabalhava! Disse-mo ontem o dono, ou seja, o sócio. Deu-me tempo para pensar mas já mostrou interesse em readquirir a quota que há uns anos lhe ofereceu como prémio pela sua dedicação. Todos desconfiávamos que havia ali mais que dedicação, agora tenho a certeza. Disse-me que valorizou imenso, é uma empresa de sucesso, muito graças à sua mãe, confessou-me muito emocionado, mas o mais correto é contratarmos alguém capaz de fazer uma avaliação justa, sugeriu-me mudando de tom, talvez pressentindo a minha frieza perante a sua emoção.Ía contando enquanto conduzia. Oferecera-me para o fazer o que recusou alegando a necessidade de fazer qualquer coisa prática para por os "pés no chão". Tenho tanta coisa para resolver! Posso ficar na tua casa? Ainda não me apetece entrar na dos meus pais. Amanhã ajudas-me? Claro, respondi, escondendo quanto me foi possível o alívio que senti e a vontade que tive de lhe perguntar, que outra coisa haveria eu de ter para fazer?

 


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semtelhas @ 15:52

Qua, 08/01/14

 

Passou na RTP2 um documentário, Surrender, que abordou as circunstâncias em que Portugal abandonou, ou talvez deva dizer fugiu, de Goa, Damão e Diu, na Índia. É constituído por imagens de arquivo da altura, 1961, feitas no local a sobreviventes dessa época, e na atualidade em Portugal a alguns militares envolvidos no conflito. 

 

A quantidade de militares ali destacados era de escassas dezenas, pelo que quando a Índia, face à teimosia portuguesa em tentar resolver a questão pacíficamente, finalmente decidiu expulsar os intrusos, se assim se pode apelidar alguém que ali permanecia haviam séculos, com aviso prévio do qual foi alertado Salazar que, separado por milhares de quilómetros do perigo, deu como resposta, resistir até ao fim.

 

O que aconteceu daí para a frente foi, no mínimo, vergonhoso. Pouquissímo armamento, completamente obsoleto e quase todo em más condições de funcionamento, homens sem a preparação mais básica, desorientação total, falta de qualquer coordenação, uma imagem absolutamente lamentável e patética daquilo que era suposto ser uma força militar.

 

Tal como indica o nome do documentário a única saída foi a rendição, mesmo assim deixando atrás um rasto de destruíção de infraestrutruras, numa demonstração tão triste quanto lamentável de uma noção desgraçadamente distorcida de honra ou de princípios militares, e totalmente desprovida do mais elementar bom senso, como o afirmam com todas as letras, hoje, nas suas casas em Portugal, os antigos soldados e oficiais, com uma desarmante pseudonaturalidade que não consegue esconder um enorme constrangimento, sobretudo perante a atitude complacente do inimigo que fácilmente poderia ter esmagado os portugueses e quem com eles estava ou os apoiasse, o que até seria legítimo dada a sua reação.

 

No meio de toda aquela situação verdadeiramente surrealista, soldados a apontar armas que não disparavam, para alvos que estariam sempre fora do seu alcance, posteriormente, já em fuga, a tentar destruí-las estupidamente batendo com elas contra rochas acabando por ser feridos pelas poucas que funcionavam, discussões ridículas entre quem defendia ou não a rendição, porque absolutamente despropositadas face a um inimigo que os sobrevoava tranquilamente, só não os liquidando porque não quiseram, etc., etc., salvou-se a atitude do principal responsável no campo, que, após o regresso, haveria de ser votado ao mais completo desprezo e abandono apesar da numerosa família que tinha, ordenando a imediata rendição, assim poupando a uma chacina os camaradas e a população civil daquelas localidades sob administração de Portugal. O general, comandante geral do território, longe da confusão e mais preocupado com o seu futuro, limitou-se a mandar executar as loucas ordens que chegavam da metrópole, onde terminou a sua brilhante carreira sem perturbações.

 

No fim, depois de um relato tão profundamente vexatório para a história de um povo descendente do invencível Viriato, como bem provam as mais antigas fronteiras europeias, e com vastos pergaminhos na história universal, apetece considerar como mais marcante no mesmo, e igualmente bem definidor daquela que será talvez a mais distintiva característica dessa coisa que é ser português, os obviamente sinceros, e nalguns casos mesmo sentidos depoimentos agora recolhidos na Índia, mais de cinquenta anos depois, junto dos sobreviventes indianos, alguns deles mulheres com filhos com a côr da pele ligeiramente mais clara... quando falam daqueles tempos, os portugueses eram muito bons para nós, não nos agrediam, tínhamos escolas, comida e paz. Perante isto...

 


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semtelhas @ 11:49

Ter, 07/01/14

 

O mar zangou-se. Onde havia um caminho de madeira, há agora areia misturada com os destroços dele e os das proteções das dunas, minuciosamente tecidos, muitos na última primavera, por ripas e arames, ainda ontem presas por barrotes redondos, troncos de pequenas árvores, os únicos que, aqui e ali, apesar da violência da água e do vento ainda se mantêm no seu posto mas quase todos bastante inclinados, proporcionando, de longe, uma paisagem desconcertante de uma geometria enlouquecida. Temporáriamente afastado pela vazante, menos ameaçador no inacreditável tamanho das suas ondas maléficas, até pela sua cor doente, acastanhadas pelos detritos que foram buscar a terra, toda a ordem de plásticos, inúmeras garrafas de espumoso de fim deste e de outros anos, brinquedos de praia perdidos no últimos verões, também marcas de urgências amorosas em preservativos e pensos higiénicos incógnitos, toneladas de madeira, como aquela raíz para aí com dois metros de diâmetro que faz imaginar a dimensão do resto, um sem fim de tesouros que respigadores exploram febrilmente, acossados por uma concorrência que não pára de crescer à medida que a manhã avança e a intempérie o permite. Grande parte das dunas transformaram-se em areais lisos onde a vegetação laboriosamente protegida tenta sobreviver entre o lixo, a apontar no sentido contrário do vento e do mar, por estes penteada sem direito a qualquer risca ou estilo, antes apressadamente atirada para trás num sinal misto de agressividade, emergência e fuga, mas, em alguns sítios, dando já teimosos sinais de se querer levantar e persistir viva e bela pela sua elegância, côr e odor. Não há bares abertos ao público. Lambem as feridas. Com o desalento estampado no rosto, donos e empregados varrem, empurram com mangueiradas de água sob pressão, encaixam cadeiras e levantam mesas, onde páram as outras?, recolhem com o cuidado que sobrou da raiva e do desespero que os deixam prematuramente esgotados, vidros partidos entre todo o género de objetos sujos e encharcados. The show must go on. Ao longo da estrada, também ela, em vários locais, testemunha de um temporal de que não há memória, se processa a limpeza, aqui por carros de corporações de bombeiros e da Câmara Municipal que trabalham enérgicamente e à vontade devido à ausência do tráfego desde há muitas horas interrompido, finalmente cientes da verdadeira importância da sua função, tantas vezes menorizada, a maior parte do tempo adormecida. As pessoas, muitas conhecendo-se de vista daquele lugar, mas em circunstâncias diametralmente opostas, aquelas que permitem a arrogância da indiferença, cruzam-se verificando estupfactas, naquele zona suspensa sobre o areal, este, ontem a dois metros, hoje aqui, a escasso meio metro e, ao contrário do costume, olham-se nos olhos, a necessidade de expressar por palavras a dor comum que lhes vai na alma, ajuda a exorcizá-la. Mas não. O silêncio impõe-se porque a mensagem no olhar disse tudo. Entre chuveirinhos que vão caindo suaves e serenos, provávelmente também com origem na massa dantesca de água que a algumas dezenas de metros insiste em rugir furiosamente, o sol tenta espreitar, esforçado e tímido, mas , mesmo assim, uma promessa da redenção que chegará com a bonança.

 


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semtelhas @ 14:36

Seg, 06/01/14

 

Ainda não vai muito tempo, em Espinho ali junto ao hotel onde o FCP costuma estagiar nas vésperas dos jogos no Dragão, lembrava-me daquele dia em que a minha passagem por aquele local coincidiu com o passeio higiénico que, ao fim da manhã, a equipa e alguns técnicos habitualmente dão na praia em frente. Curiosamente quando isso aconteceu, já lá vão uns anos, um dos jogadores que se mostrou mais simpático com quem mais ou menos entusiásticamente os abordava foi Quaresma, postura que aliás me surpreendeu, tal como a maioria das pessoas, penso, estava convencido tratar-se de uma pessoa algo mal encarada, logo de dificíl abordagem. Recordo-me que essa surpresa me fez instintivamente sorrir quando com ele me cruzava no que fui simpáticamente correspondido juntamente com os muitos que logo por ali foram aparecendo, saídos não sei de onde, que, tal como eu, com sorriso de satisfação estampado no rosto por poder ver de tão perto aqueles craques, habitualmente muito mais parte do nosso imaginário do que da realidade. Quando aconteceu estava longe de imaginar que essa circunstância pode repetir-se um destes dias. Desde que saiu de cá, o jogador viajou por Itália, Espanha, Inglaterra, Turquia, e sei lá por mais onde, quase sempre em representação de grandes clubes, ganhando muito dinheiro, mas sem nunca ter conseguido voltar a impôr-se como o tinha feito no Porto. À semelhança de muitos dos seus companheiros de etnia, trata-se de uma pessoa que, entre outros traços neles distintivos, tem uma maneira de estar, digamos, um pouco abrasiva, no sentido de ter os sentimentos à flor da pele, o que na profissão que escolheu não ajuda grande coisa, bem pelo contrário. Acredito só ter chegado onde chegou graças ao facto de uma parte desse génio o expandir quando joga futebol, circunstância em que se torna autênticamente feliz. Não tenho muitas dúvidas que não fora esse seu caráter de natureza rebelde, teria ido muito mais além porque as suas capacidades intrínsecas, intuítivas, são de verdadeiro artista. A prová-lo está o facto de, enquanto esteve no FCP, clube cada vez mais desejado como formador pela forma muito especial como interage com os jogadores que lá passam, como repetidamente tantos o dizem e até lá regressando como é o seu próprio caso, ou o de Lucho recentemente, Quaresma ter em vários anos conquistado o título de melhor jogador a jogar em Portugal, e o reconhecimento no estrangeiro que lhe proporcionaram contratos milionários. É, por tudo isto, perfeitamente legítimo esperar que este retorno possa resultar num excelente negócio para ambas as partes. Para o clube pela mais valia que pode representar um atleta de eleição, cujo conhecimento da filosofia da casa é profundo, portanto com o mais dificíl da integração facilitado, ainda por cima para um lugar no relvado do qual a equipa está carente, além de com enorme capacidade criativa e de explosão, características que são claramente escassas num esquema de jogo muito certinho e dominador, mas sem alguém, ou quase, que provoque desiquilibrios e que não tenha medo de os assumir. Os créditos de Quaresma podem fazer dele esse trunfo em falta bem como, naturalmente, impulsionar-lhe a carreira para uma espécie de segundo fôlego, até, quem sabe?, para novas e proveitosas aventuras por esse mundo fora!

 


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semtelhas @ 14:01

Dom, 05/01/14

 


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semtelhas @ 12:50

Sab, 04/01/14

 

Depois de confirmar o pior, pousou o telemóvel em cima da mesa, deixou-se cair na cadeira onde eu estivera sentado, já com completo domínio sobre o seu corpo, isento de tremuras, mas que parecia ter sido sujeito a um choque elétrico que o quebrara. Observáva-me como a um desconhecido, súbitamente recuara aos últimos momentos com os pais, pura e simplesmente apagando tudo o que acontecera desde então. Surpreendido por aquele olhar que não me via e pela brutalidade da noticía que adivinhava, fiquei petrificado, não conseguindo sequer articular uma palavra, pelo menos que me apercebesse. Foi ela, numa voz na qual pela primeira vez detetei um fio de insegurança, que quebrou o silêncio que me atemorizava, iria levantar-se e sair sem palavra? Cairía num pranto indomável, ou pior? Ainda bem que estás aqui Ivo, foram as palavras que pronunciou na primeira vez que me chamou pelo meu nome. As horas seguintes foram surreais. Seguindo as suas instruções dirigimo-nos a casa dos avós paternos em Penafiel, origem das chamadas telefónicas, onde disse querer permanecer até decidir o que viria a fazer. Que outros familiares já estavam a tratar de tudo. Para além das suas indicações toda a viagem foi feita quase em absoluto silêncio, limitando-me a espreitá-la, ora em relances rápidos, ora demorando-me um pouco, demonstrando disponibilidade para participar no processo de interiorização no qual a via mergulhada e a esbracejar para não se afogar, pouco mais de meio dia completamente arrasadores, e que eu pressentia igualmente decisivos para o meu próprio futuro. Quando chegámos apresentou-me como se apresenta um amigo de longa data, a um conjunto de pessoas dentro as quais sobressaíam quatro velhinhos notóriamente devastados pela morte de um filho. Laura ainda tinha os quatro avós e agora perdia os pais! Teria sido sempre assim? Um acomodar da realidade aos factos? Ao contrário do alvoroço que pensava vir a ter que enfrentar face à forma trágica, brutal e inesperada como entes queridos tão chegados tinham acabado de desaparecer, o que encontrei foi muita tristeza mas também uma espécie de resignação, habitual em quem sofreu muitas tragédias e contrariedades, mais até, pensei, como se, ainda que como mera e remota hipótese, fosse previsível. Que tipo de relação teriam aqueles dois infelizes? Quem, e como era realmente esta mulher que seguia à minha frente a caminho do quarto que normalmente ocupava naquela casa enorme, e para o qual também eu muito naturalmente me dirigia, após ela mo ter solicitado perante a reação que percebi de contida surpresa, não só dos avós mas também de mais algumas das pessoas presentes? Fiquei com ela até a sentir razoávelmente adormecida com a ajuda de uns comprimidos que lhe deram, os quais, apesar de não estar habituada como me disse, demoraram a fazer efeito dado o seu estado de agitação. Antes prometera-lhe voltar no dia seguinte para o que fosse preciso. Verifiquei as horas no telemóvel, duas horas da manhã!, e só então tomei consciência que perdera completamente a noção do tempo. A questão era desde quando. Aquilo estava mesmo a acontecer-me?  


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semtelhas @ 13:32

Sex, 03/01/14

 

Há gente incrível, autênticos hérois desconhecidos do nosso tempo, tantas vezes eles próprios vítimas de todo o tipo de abusos, ainda conseguem, fruto de uma capacidade invulgar, ultrapassar marcas profundíssímas do passado, transformá-las numa série de qualidades dificeis de encontrar em pessoas comuns, alguém que aprendeu à sua custa a única linguagem verdadeiramente vencedora, a dos afetos.Talvez precisamente por saberem o que se está a passar com as crianças problemáticas que escolheram proteger, tentam recuperá-las para uma vida sã, seguindo porventura a única profissão pela qual conseguiram salvar-se a elas próprias. O filme Temporário 12, conta a estória de alguma dessa gente, de uma forma livre de qualquer complacência, antes bem arejada, servida de todos os condimentos necessários, para passar muito assertivamente uma mensagem que não é nada fácil de transmitir dada sua natureza, de mexer com sentimentos profundos, vividos entre as pessoas mais improváveis, sem recorrer a truques baixos para conquistar bilheteiras, que são presentes envenenados. Intenso, esclarecedor, enternecedor e positivo.

 

 


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semtelhas @ 12:07

Qui, 02/01/14

 

Até ali, meio percurso feito, altura de parar e fazer doze exercicíos para alongamentos, tinha conseguido escapar à chuva mais pesada, mas agora começava a cair com mais força, pelo que não seria suficiente encostar-me ao muro que me protegia do vento forte de sul para me abrigar. Pela primeira vez, apesar das inumeras vezes que junto deles passei, reparei nuns wc's cujo corredor de acesso, de um lado homens e do outro mulheres, curiosamente separados por uma parede no meio, me salvaria de uma molha. O cão rafeiro ao qual lançava algumas palavras amistosas, que desde havia algum tempo me perseguia provocando-me algum desconforto não só pelo tamanho considerável, mas também pela corte bem visível que exibia no meio de uma das coxas traseiras, que lhe dava um ar perigosamente desvairado fruto do sofrimento, continuou o seu caminho. Comecei a exercitar-me quando me entra pelo nariz acima um cheiro nauseabundo, fecharam isto sem limparem as sanitas, pensei chegando-me mesmo para o limite do telhado, virado para o mar, tentando assim fugir o mais possível ao fedor intenso. No terceiro ou quarto movimento, virando a cabeça, reparo numa espécie de janela de luz, ao lado da porta de entrada das mulheres, junto ao teto e sem qualquer hipótese de abertura. Ponho-me em bicos de pés e espreito lá para dentro. Só então liguei o ruído que ouvia, e julgava provocado pelo vento, a um vulto que no interior se mexia. Era uma rapariga, ou uma mulher jovem, vestida com um fato de treino muito gasto e sujo, com um daqueles gorros que vão da cabeça ao pescoço só permitindo verem-se parte do nariz e os olhos. Tinha-os muito arregalados e pareceram-me pedir ajuda. Ainda mal avaliara a situação, surge detrás da parede, do outro lado do corredor, um indivíduo que parecia ter saído de um filme de terror. Completamente andrajoso, exalando um odor adocicado profundamente enjoativo, trazia numa das mãos, das quais só se viam os dedos imundos a sair de uma espécie de luvas cortadas, uma catana bastante enferrujada, ameaçando, dá-me tudo o que tiveres de valor, ordenou uma voz com uma juventude que os enormes cabelos e barba escondiam. Enquanto eu, ainda com os cabelos em pé, simplesmente abria os braços e as pernas para que pudesse tirar-me o que levava, a rapariga abre a porta e sai, tu está quieta puta, vociferou de imediato o rapaz. De repente vejo-os a olhar para trás de mim, viro a cabeça e lá estava o rafeiro de volta, olhar furioso na direção dele que apesar da arma na mão pareceu muito assustado. Instintivamente grito com quantas forças tinha, ataca, apontando para o bandido com todo o meu corpo e vontade. Talvez sentindo o cheiro do medo, talvez porque conhecia a ordem, ou por ser inteligente e de natureza protetora, o bicho forma o salto e, ato contínuo, ele arranca numa corrida louca. Quando já bastante afastado olha para nós, eu e a rapariga distanciáramo-nos o suficiente para nos misturár-mos com outras pessoas que milagrosamente apareceram, apesar de ser o primeiro dia do ano e ainda antes das nove da manhã. Aos poucos foi diminuindo o ritmo da corrida, deixou que me aproxima-se e, perante o meu semblante de estupefação esclareceu, ontem à noite, quando arrombá-mos as portas para nos enconder-mos e passar a noite, o barulho alertou o cãozito que se aproximou de nós a pedir festas, ele, com medo, magoou-o na perna. Calou-se e, surpreendentemente, começou a andar mais devagar. Passaram alguns minutos durante os quais ambos, várias vezes, procurámos o seu companheiro(?) com os olhos em todas as direções. Numa dessas ocasiões, mais tranquilos, fitámo-nos intencionalmente durante alguns segundos e percebi frieza e calculismo nela. Não sei se porque se sentiu descoberta naquilo que porventura seriam as suas intenções, sempre em andamento, abriu o fecho de uma bolsa da qual era impossível perceber a cor, que trazia presa num cinto tapado pela camisola, e tirou parcialmente lá de dentro uma seringa para que eu visse. Está a ameaçar-me, pensei. Mas quando levantei os olhos na direção dos dela pareceu-me vê-los arredondarem-se um pouco, naquilo que talvez já tivesse sido um belo sorriso. Saiu do passadiço e continuou pelas dunas.

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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