semtelhas @ 12:11

Ter, 09/04/13

 

Como era conhecido o grupo que eu, mais uns quantos rapazes e raparigas, liderados por dois ou três velhotes à volta dos trinta, mais experientes e muito mais lidos, formávamos lá no canto do café, durante o período revolucionário pós 25 de abril de 1974.

 

Assistir à série, Depois do Adeus, tem-me trazido à memória muitos desses dias. Não faço ideia se a juventude atual está a seguir este magnífico documento, e, caso esteja, se o entende. Alguns o conseguirão certamente. Aos olhos dos putos que éramos aquilo foi sobretudo uma grande aventura. Muito mais que de esquerda e alegres fomos ingénuos e felizes. As situações sucediam-se a um ritmo alucinante e bem de acordo com a nossa idade, que pedia acima de tudo movimento e novidade. Os mais velhos bem nos avisavam da precariedade da coisa, mas para nós, tal como tão bem está retratado na série através dos personagens revolucionários mais novos, era uma questão de vida ou de morte, ou ía ou rachava.

 

 A década que se seguiu, por várias razões, mas sobretudo por evidentes atrasos relativamente à quase totalidade dos restantes países europeus, e a todos os níveis, desde as elites pensantes até ao mais simples trabalhador, mas também pela nossa situação geográfica, fomos cair no colo de uma Comunidade Europeia, toda ela, naquele tempo, virada para uma política federalista, algo que se sentia inevitável, mais tarde ou mais cedo, onde os amanhâs cantavam, e, em nome dos quais se desmobilizaram as economias que eram a côdea dos pequenos países em troca de prometidas compensações, as quais vieram a ser desbaratadas por uma classe de novos-ricos que se instalou no poder, com a benção das famílias reinantes há várias gerações, com os resultados conhecidos.

 

Quarenta anos depois, olhando o nosso país e o mundo, é incrível como se foram quase todas as certezas desses tempos substituídas por igual numero de dúvidas, acrescidas de muitas mais resultantes do conhecimento entretanto acumulado. Descobrir os três principais ícones do capitalismo moderno, EUA, Alemanha e Japão, a braços com as misérias dele nascidas: EUA como país desenvolvido com maior taxa de pobreza infantil; conflitos de interesses entre estados ricos que se recusam a sustentar outros mais pobres dentro da própria federação alemã; sinais de implosão por uma espécie de espírito samurai aplicado ao consumismo no Japão, por um lado, e, por outro, ver os seus potenciais substitutos, os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), a seguir alegremente o mesmo caminho para o abismo, deve deixar o mais pintado a fazer contas de cabeça, e perplexo com a sua própria falta de respostas.

 

Por cá ainda no domingo vimos um primeiro ministro cheio de medo a disparar ameaças para todos os lados, completamente à toa, a fazer lembrar aqueles dirigentes desportivos quando reafirmam toda a confiança no treinador que vão despedir no dia seguinte, sendo que neste caso com Passos a desempenhar os dois papeis. Já se tinha percebido que o homem não é o que parecia, sobretudo pela confiança dada a um inacreditável Relvas, o braço direito, inenarrável vulgar populista, se pensarmos que estamos a falar do governo de um país como é Portugal, com a sua história e responsabilidades. Poucas horas depois José Sócrates explicou magistralmente tudo o que Passos Coelho dissera num discurso arrepiante, pleno de ressabiamento, medos, ameaças, descontrolo, uma autêntica fuga para a frente que se adivinha com fim próximo, pois não parece crível que homens de natureza tão claramente negativa e revanchista como o primeiro-ministro ou Vitor Gaspar, para nossa grande desgraça, deêm o braço a torcer

 

Talvez a esquerda esteja menos alegre, porque mais vazia de soluções pacíficas, mas que estamos todos, por todo o lado, suspensos de uma solução qualquer como resposta a este evidente fim de ciclo, como se a história tenha enchido o saco, é inquestionável. A última gota que fará transbordar o copo que é o atual estado das coisas, estará por aí a ser derramada a qualquer momento, no seu caminho deixará um rasto da dor de que é feita a renovação. Valha-nos a sabedoria dos mais velhos, mas também o entusiasmo e a ingenuidade na procura de felicidade, dos mais jovens.


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semtelhas @ 14:18

Seg, 08/04/13

 

Tinha passado por ela ainda não haviam cinco minutos, fato de licra bem justo, preto, por cima um kispo cor de areia que lhe chegava aos tornozelos mas completamente desapertado, esvoaçante, o que permitiu ver o tal fato e adivinhar um corpo bem tratado. Seguia ligeira, bem direita, cabelo castanho escuro, preso num rabo de cavalo, óculos escuros que lhe escondiam o olhar e a protegiam mais dos grãos de areia que do sol práticamente ausente. Ainda antes, poucos metros atrás, seguia ele, também jovem, fato de treino de boa qualidade e um blusão claro, daqueles com um carapuço, que levava enfiado na cabeça. Ao lado, pela trela, um belo rottweiler adulto que, impaciente, o ía puxando, ainda que ligeiramente, provocando nele alguma irritação que lhe senti no rápido desvio do rosto na minha direção, e pressenti nos olhos por detrás dos óculos, quando com eles me cruzei.

 

Quando ouvi um lancinante grito misto de medo e pedido de socorro, olhei para trás e vi o cão, com a trela a arrastar pelo chão, e a puxar furiosamente a kispo dela que, aparentemente pelos seus movimentos largos o terá assustado e levado à agressão. Ele, petrificado, mantinha-se uns metros afastado, amarelo cadáver, a tentar balbuciar qualquer coisa por uma garganta que o terror obstruía. No momento em que os meus olhos encontraram os dela, onde páram os óculos?, senti-me como que empurrado na sua direção para fazer não sabia o quê. Durante um período de tempo indescrítivel, quer na duração quer no conteúdo do que me passava pela cabeça, descubro uma tábua aí com um metro, em quase tudo semelhante aquelas sobre as quais estava naquele preciso momento, mas rachada numa das extremidades, que alguém premonitóriamente ali deixara esquecida após uma manutenção do passadiço. Enquanto avançava o cão dispensou-me um relance, sem largar a mulher, perante o qual me descobri escolha entre hipóteses, como quando o sádico friamente reflete sobre que tortura inflingir a seguir. Ainda ele não formara o salto sobre mim, já eu tinha disparado o mais importante dos meus serviços, lançando a raqueta bem detrás das costas, pelo que quando estava a menos de um metro atingi-o na cabeça, lateralmente. O que caiu sobre mim e me atirou ao chão já não passava de um peso morto com mais de cinquente quilos. A violência do embate, com uma das arestas da tábua, provocada por ambos os movimentos, o meu e o dele, e a parte onde lhe acertara, mataram-no instantâneamente.

 

A cabeça do animal, práticamente sem sinais visíveis da pancada, exceto numa espécie de linha de pêlo e carne mais brilhantes que ía em diagonal desde uma das orelhas até ao nariz na ponta do focinho, estava pousada sobre o colo do dono, que soluçava num choro espasmódico, intervalado a espaços por expressões de espanto, ela, afastada, chorava convulsivamente, de kispo iremediávelmente acabado, agora despido e esquecido nas mãos, levemente inclinada e revelando o seu belissímo corpo, numa pose de deusa abandonada. Eu, ainda por terra e com a perna esquerda a arder-me horrívelmente, enquanto me passavam pela mente imagens dos meus queridos animais, imediatamente após a sua morte, que, durante as últimas três décadas, me tinham abandonado ao meu desespero, perguntei ao homem se queria que levasse o cão comigo. Disse-me que sim.

 

No meu jardim vai ocupar o lugar deixado vago pelo meu último cão grande, já lá vão cinco anos, ali onde o enterrei, debaixo da árvore maior, o lugar mais tranquilo e de onde ele me costumava fitar, já velhinho, quando me pedia para o ir buscar ao colo porque incapaz de andar, quanto mais de correr, como fizera durante anos tomando lanço para se atirar para cima de mim. No meu coração ficará lado a lado com os meus cães, a abanarem o rabo, cabeças de lado a tentarem perceber o que lhes quero dizer, e com os meus gatos a espremerem os olhos, interesseiros e insubstítuiveis.  


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semtelhas @ 12:21

Sab, 06/04/13

 

Apesar de não terem feito mais que a sua obrigação, não deixa de ficar no ar um certo sentido de admiração pelas decisões tomadas pela maioria dos juízes do Tribunal Constitucional.

 

Num país que, tantas vezes injustamente, normalmente pela endémica falta de informação e tradicional arrebanhar, se autointitula de terceiro mundista, atrasado ou como sendo dirigido por uma corja de corruptos, acontecer este facto de um punhado de homens e mulheres afrontarem o poder instítuido em circunstâncias tão delicadas como são as que atualmente os portugueses atravessam, há-de querer dizer alguma coisa.

 

Não será difícil adivinhar quão espinhoso terá sido chegar a estas conclusões noventa dias(!) e uma hora depois. É sabido que na constítuição deste orgão superior de justiça há o cuidado de fazer representar, de forma tanto quanto possível equitativa, as duas grandes correntes político partidárias, uma mais liberal representada pelo PSD e outra mais social pelo PS, inclusivamente já chegaram à comunicação social ecos das lutas travadas nos bastidores dessa escolha. Talvez este facto ajude a perceber melhor como é possível uma decisão de tal importância para o futuro próximo dos portugueses, demorar uma eternidade a ser tomada com os inconvenientes já antes previsíveis e agora incontornáveis.

 

Do anunciado, para além da saudável demonstração de independência da justiça relativamente ao poder político, e da não menos importante constatação da tal tendência político/partidária dos juízos ter sido superada por um aparente sentido de equidade, sobressai a decisão de considerar como constitucíonal  o imposto de solidariedade  que incide de forma crescente sobre quem mais ganha. É que, neste caso, a interpretação da lei remete para um conceito de equidade de um ponto de vista mais largo, como se os juízes se tivessem profiláticamente afastado para melhor verem na sua totalidade, a pirâmide social que constítuimos, analisando essa igualdade numa perspetiva global e não estreita, como seria se respeitando cada extrato por si, o que óvbiamente tornaria as suas opções amputadas de um sentimento, o mais generalizadamente possível, considerado justo. Acresce que foi precisamente essa proposta que mais indignou Cavaco Silva que se apressou a adjetivá-la de câo para baixo...

 

Resta a esperança que esta atitude vença e faça escola, que seja aproveitada esta magnífica lição, que nos foi dada a todos por homens e mulheres que se recusaram a ver a árvore em vez da floresta.


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semtelhas @ 12:43

Sex, 05/04/13

 

Profundo Mar Azul, os abismos do amor, ora belos e  encantatórios, ora terríveis e traiçoeiros, um filme que navega as profundezas da intimidade .

 

 

 

Ela sempre viveu na ilusão da ficção que uma pessoa de posses pode comprar via arte. Construi-se sensível e culta. Entre ela própria e a realidade existia como que um filtro, que tornava a vida uma espécie de sonho anestesiante no qual flutuava ao ritmo dos longínquos acontecimentos. O casamento com um abastado e mais ou menos inócuo homem mais velho, prisioneiro de uma castradora educação materna, alimentou convenientemente o pacífico estado das coisas. Um dia ela conhece um homem jovem que lhe mostra que a existência pode ser algo diferente do que ela conhecia destruindo um dique de emoções adormecidas. Soldado, jogador, enérgico e extrovertido, ele só conhece o mundo pelo que os orgãos dos sentidos lhe proporcionam. Avesso a qualquer tipo de abstrações, repudia a arte e dá-se a conhecer pelas suas extraordinárias capacidades sensoriais.

 

Objeto de luxo nas mãos dela, mas também âncora para o mundo real, que Estér adora e repudia, numa constante e condenada ao fracasso tentativa de dotar esse magnífico objeto-âncora de uma utópica totalidade de caráter perfeito. Um jogo que podia ser jogado até ao fim caso todos os protagonistas o desejassem. E desejavam-no tanto que continuá-lo tornou-se suportável só para ela porque era a única que estava a ser fiel a si mesma, ambos os companheiros estavam demasiado hipnotizados pelo seu poder de fada para poderem viver aquém de uma relação de entrega absoluta. Poderosa demonstração da complexidade do relacionamento entre pessoas radicalmente diferentes em tudo, com o que isso tem de convocatório de sentimentos tão extremos que se atraem porque, no limite, completam aquilo que seria o inatíngivel ideal. Pena Rachel Weisz ser competente e não arrebatadora como o argumento merecia.

 

É certo que, no fim, amor é limpar o que o/a companheiro escolhido para a vida sujou, e deixou de ter capacidade de limpar, mas também não convém chegar a essa conclusão demasiado cedo, porque a ilusão e o sonho têm papel imprescíndivel para que a realidade sobreviva. 


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semtelhas @ 13:11

Qua, 03/04/13

 

Segundo estudo do Bundesbank, italianos e espanhois são mais ricos que alemães - Isto mais a inveja dos países do sul invocada por Schauble, a remoção do muro de Berlim e as bombas que por ali continuam a ser desenterradas, explicam passado, presente, mas também o futuro.

 

Papa lava pés a muçulmanas e reza deitado - Comovedor e espetacular. Agora o mundo está ainda mais suspenso de ações objetivamente solidárias para com os mais desfavorecidos.

 

Diogo Morgado protagonista do maior blockbuster atual nos EUA - Aspeto entre o eslavo e o germânico, humilde, confiante, simpático, trabalhador, ambicioso e...português. Afinal o milagre das misturas não resulta só nas misses centro americanas!

 

Juíz que libertou Isaltino condenado a 20 dias do salário de multa - Deve ser o mesmo que condenou o Pingo Doce a pagar quinze mil euros pelo dumping e por insultar o povo. Lá me estão outra vez a crescer as orelhas.

 

Fraude com a saúde ultrapassa os cem milhões de euros - Quase todos afogados em comprimidos por facilitismo, pouca vergonha e vigarice, e alguns de olhos abertos até às orelhas. Brandos costumes? Sim. Mas não de todos.

 

Sondagens pós entrevista dão benefício da dúvida a Sócrates - Não pode ser! Então e esses inteligentes todos para aí a vociferar que o homem é o culpado de tudo? Este povo é mesmo estúpido.

 

Carlos Cruz entrega-se antes de ser preso - E o estabelecimento prisional aceitou-o mesmo antes da ordem de prisão!? Há aqui qualquer coisa mal que não está bem!

 

Donos da Livraria Lello vão cobrar entrada para despesas de conservação - Compreende-se, mas a partir desse momento as preocupações com o desgaste seguramente que vão diminuir. Não haverá outra maneira?

 

Mourinho recusa manifestação de apoio, cala jornalistas e encosta Casillas - Uns pensam, outros falam, El Especial faz.

 

Circula na internet fotografia de Merkel com vinte anos, nua, num campo de nudismo - Pensava-se que esta senhora que agora conhecemos tinha vindo dos confins de uma sombria vila da RDA onde, recolhidamente, refletia sobre a triste condição humana. Nem tudo é o que nos querem fazer crer ser.

 

Miguel Relvas contrata fenómeno de comunicação das redes sociais - Se alguém duvidava das tendências e admiração do ministro pela arte de vender a banha da cobra desengane-se, aí está a prova.

 

Alguns agricultores ribatejanos ficaram satisfeitos com as cheias - Quem não ficou satisfeito com os agricultores foram os repórteres de televisão, todos com cara de, então foi para isso que viemos aqui?

 

Portugal é um país excedentário em vinhas e deficitário em cereais - Tudo indica que por questões de natureza dos terrenos e pelo clima, mas que dá um certo jeito dá!

 

São cada vez mais os que se interrogam do porquê de tanta demora na decisão do Tribunal Constitucional - Até parece que estavam à espera que, sendo juízes, supostamente incorruptíveis, aqueles senhores íam decidir baseados nos factos e não no habitual taticismo político. Era bom era! 

 


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semtelhas @ 15:18

Seg, 01/04/13

 

Será profunda ignorância,

Principio e fim estabelecer?

Temor disfarçado, jactância,

Encurralar vida até morrer? 

 

Como possível saber o nada?

Ignorando também o tudo?

Como dizer conhecer o vazio?

Onde a origem? E o destino?

 

Simples jogos de palavras,

Falta de melhor explicação.

Estão ainda por inventar,

As que dão melhor solução.

 

Da incontornável questão,

Nasceram crenças, religião.

Infernos, limbos e paraísos,

Finitudes de frágil aceitação.

 

Ingénuos apelos, esperança,

Sustentos de efémeras vidas.

Inquieta urgência, respostas,

Compensar ilusões perdidas.

  

Criaram-se leis e bastiões,

Ajudam, escondem solidões.

Permitem vislumbres, visões.

Perdoam, justificam tentações.

 

Desmistificam  fraquezas,

Amenizam mar de incertezas.

Mostram original igualdade,

Fazem convergir fraternidade.

 

Sua condição essencial,

Virtude não demonstrável.

Demasiado tangível, mortal,

Se finita ou presenciável.

 

Tortuoso o caminho do crer,

Toda existência a procurar.

Esperança seu maior poder,

Existe pelo não encontrar.

 

Tranquilidade, paz, redenção,

Descobertas na incerteza.

Crescem com interrogação,

Sua insustentável leveza.

 

Ser em irredutível afirmação,

Medo, iludir personalidade.

Antes que certezas, convicção,

Ter dúvidas com humildade.

 

Porquê ter para ser?

Para quê antes, onde ir?

Utopia infinito querer ver,

Fé na incógnita do devir.

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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