cores da lua @ 19:40

Dom, 07/10/12

 

© Andy Ellison. Trabalha na Universidade de Boston,  faz pesquisa e control de qualidade de frutas e legumes e, para isso, recorre frequentemente a scanner e ressonância magnética. Fora as conclusões e resultados científicos, não mencionados porque dizem respeito a outras esferas, revela-nos uma outra interpretação, desses scanners,  interessantemente hipnótica.

milho

 

alho
bróculos
carambola
tomate

 


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semtelhas @ 12:54

Dom, 07/10/12

 

É o que uma atenta e correta interpretação da História nos pode dar.

 

Um belo dia, corria ao ano de 1928, três homens, um inglês, um holândes e um americano(EUA), reuniram-se na vasta propriedade de um deles para uma caçada. Um viria a ser o fundador da BP, o outro da Shell e o último da Exxon, o que, só por si, diz muito sobre as motivações destes homens, seguramente muito para além de matar umas quantas peças. Realmente o que ali se passou foi a constituição do 1º cartel do petróleo, nunca legalmente assumido, onde se traçou uma estratégia para literalmente dividir o mundo passível de ter petróleo, por estes três magnatas.

 

 

Começaram naturalmente pelo médio oriente, Iraque, Irão, Arábia Saudita, etc., o qual dividiram irmãmente, sempre bem atentos aos movimentos de cada um deles e oferecendo tostões à meia dúzia de homens que eram uma espécie de donos destes territórios, na maior parte dos casos pouco mais evoluídos que básicas tribos, encarregando-se estes de manter na indigência os respetivos povos. O nível de falta de respeito e de vergonha com que os países ricos do ocidente exploravam aquela gente naqueles tempos é de tal ordem, que faz parecer os seus atuais congéneres verdadeiras madres teresas de calcutá. No entanto devemos contextualizar os acontecimentos no seu tempo o que, ao contrário do que se possa pensar, não desculpa os antigos, antes mais responsabiliza os atuais, afinal já não são os pioneiros, perderam essa hipótese de inocência, sabe exatamente o que estão a fazer.

Não obstante terem procurado garantir a perenidade da sua posição nesses distantes e preciosos territórios, através de assinaturas de contratos que prolongavam sinedie as suas concessões dos campos de petróleo, e dado precisamente o evidente escândalo que aqueles representavam, absolutamente vantajosos para uma das partes, foram pura e simplesmente ignorados quando, após décadas de roubo e da criação de países absurdamente desiguais, plenos de pobreza e multimilionários, as independências foram declaradas.

Surgiu então uma tentativa vingança da parte dos países do golfo por via da constituição do 1º cartel legal do petróleo, a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), que após pôr os países ocidentais na ordem, caiu no erro da prepotência de impôr preços (crise do petróleo de 1971/2), obrigando o ocidente a mudar agulha e acabando por definir o seu futuro no qual teriam de dividir os lucros, ainda assim imensos, provenientes do ouro negro.

 

É aqui que Africa surge como alternativa e, com ela, as potências colonizadoras neste continente, nomeadamente no norte como era o caso da França (Total, Elf, etc..). Aqui o filme repete-se mas com alguns requintes de malvadez, aos quais sempre tem de se recorrer pelo facto dos incautos já o serem um pouco menos. Se já um pouco mais a norte, a fomentação de guerras entre e dentro dos países produtores de petróleo, tinha sido importante instrumento para que quem o explorava pudesse surgir como salvador, e assim continuar a sangrar, agora também vendendo armas(por vezes a ambos os lados beligerantes), nesta zona do mundo a tática refinou-se e, pasme-se, continua. No inicío a Líbia e a Argélia foram básicamente espoliadas e depois as libertações, protagonizadas por personagens como Kadhafi, obrigaram a procuras mais a sul. (Hoje, nestes mesmos locais, assiste-se como que a uma recolonização, ou tentativa de, após a recentissíma Primavera Árabe). Seguiram-se Gabão, Nigéria, etc., países dos quais todos vamos tendo noticías, e não falam da melhoria do nível de vida das populações. A história repete-se, e repete-se, e repete-se...

 

É por tudo isto que faz confusão a muita gente ver Portugal alienar, por vezes de mão beijada, algumas das suas riquezas (agora fala-se da RTP), quase todas fruto de décadas de investimentos financeiros e sociais, a Angola. A História não deixa que ninguém se diga inocente, já todos sabemos como as coisas funcionam. Quem colaborar nesta vergonha está a sujar as mãos. É tão responsável o que vai como o que fica a guardar-lhe as costas.


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semtelhas @ 12:14

Sab, 06/10/12

 

Refletindo no que se está a passar com o Sporting desde há alguns anos a esta parte.

 

À medida que o país foi emparelhando com os seus congéneres europeus, sócio-económico e financeiramente, foi ficando claro que dada a nossa dimensão nesses e noutros aspetos, nomeadamente territorial, não haveria lugar para mais que dois grandes clubes de futebol. Até porque o próprio universo deste desporto se foi, também ele, refinando, não dando hipóteses a amadorismos, bem pelo contrário, hoje só é possível sonhar atingir o topo assente num profissionalismo/poder de alto nível. E o futuro próximo tende a continuar este caminho, o que podendo levar a uma maior credibilização do jogo, pode também matar a sua alma, a paixão. O futuro o dirá. Certo é que hoje e seguramente amanhã, o futebol de topo é e será um grande negócio, logo só nele sobriverá quem conseguir algum tipo de poder digno desse nome.

 

Em Portugal esse poder está dividido por dois clubes, FCP e SLB, e tem origens completamente diferentes.

 

O FCP, desde há três décadas, tem vindo a dominar na área desportiva fruto de uma gestão de excelência internacionalmente reconhecida e que transformou um clube regional em mundial, o SLB, seguindo uma opção de manutenção e reforço da sua imagem enquanto marca, continua a controlar as mais importantes forças financeiras e mediáticas do país.

 

Apesar desta ser uma situação que se mantém durante anos, e muitas vezes considerada errática, em ambos os casos, por faltar aos protagonistas dar um último passo, hipotéticamente decisivo a caminho de uma liderança em toda a linha, a verdade é que ambos os emblemas vão tendo sucesso seguindo estas politicas: o Porto já tem mais títulos que o Benfica, e este já é o clube do mundo com mais associados.

 

O FCP é acusado de a sua opção por uma constante guerrilha interna, não lhe permitir crescer dentro de fronteiras, ao que responde: se parármos somos automáticamente abafados pelo sistema dominado pelo SLB, e nunca mais nos levantámos. O SLB ao ser acusado de uma contínua fuga para a frente no encalço dos dragões, uma gestão cega que os está a conduzir ao desastre, contratacam afirmando que no dia em que, como muitos sugerem, deêm um passo atrás e arrumem a casa, para depois dar dois à frente e se tornarem imparáveis, serão irremediávelmente ultrapassados em todas as frentes. A realidade parece dar a razão a ambos, ou pelo menos alimenta a dúvida.

 

Onde as coisas parece serem mais evidentes é que face ao atual estado das coisas, e à nossa realidade, não há espaço para mais intervenientes nesta luta. O Sporting deverá ser a próxima vítima. E quanto mais depressa cair na real melhor, outros insistiram no assobiar para o lado e foi o que se viu. Que o digam os boavisteiros, os salgueiristas, os amadorenses(?), os farenses,...


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semtelhas @ 12:35

Sex, 05/10/12

 

Quarta feira fui a pé para o Dragão, desde a ponte D. Luís, regressei de metro, e não gostei do que vi.

 

Há bastante tempo que não fazia este percurso pelo meio da cidade, a pé, num dia útil. As diferenças que encontrei foram grandes. Aparentemente nada mudou, salvo a profusão de cartazes a convidar as pessoas para a revolta. Aliás, logo aí, as diferenças são grandes, ausência de cor, e mensagens diretas: sentes-te indignado, então mexe-te, comparece à manifestação no dia..., ou: a luta tem um nome PCP (pequeno cartaz a preto e branco, em tudo diverso do colorido/festivo habitual, ele próprio exemplo de escassez, de tempos negros). As lojas que subsistem, provávelmente ainda mais desertas, com a exceção das que albergam seitas religiosas, nas quais se veêm anúncios de recolha de fundos e é audível o borburinho do afã que por ali germina. Também uma sensação que essa desertificação tende a alastrar, qual epidemia, por todo o lado. 

Onde o vazio é mais sensível é nas pessoas, no seu olhar, na sua linguagem corporal, mesmo no seu aspeto. Pressente-se uma certa degradação, a garra da pobreza que começa a fazer sentir os seus efeitos, num primeiro momento a indiferença, depois a revolta. Se por um lado é agora mais fácil encontrar o olhar das pessoas, o que nele se vê não é agradável, maioritáriamente interrogativo, também acusador, revoltado, mas sobretudo magoado. 

Tinhamos acabado de ouvir o discurso do ministro das finanças, misto de revanchismo e apelo desesperado de quem tem que transmitir convição e crença no que defende, e a indisfarçável dúvida de que as mesmas venham a ser bem sucedidas. Como cortar as gorduras(?) de cima de um frágil esqueleto que é estruturalmente Portugal? Que cresceu  artificial e desmesuradamente para o que pode suportar. Que dieta adotar e a que regime sem que o doente morra anémico da cura?

 

Para baixo vim de metro. Espécie de cápsula de mundo virtual. O inverso do que tinha vivido horas atrás. A carruagem tinha os lugares sentados práticamente todos ocupados pela juventude que voltava do pólo universitário. Ali não se encontra o olhar de ninguém. Tudo gente plena de autoconfiança, cheia de si mesma para além de ocupada, de olhos bem fechados a ouvir a música que brota dos headphones, fixa no pequeno ecrã iqualquercoisa de última geração, ou convictamente falando pelo telemóvel xpto completamente alheios a tudo que os rodeia. Quase todos refletindo nos seus fatinhos de marujo, toda a inteligência e certezas que é a sua imagem de marca, lá vão confortávelmente esparramados nos bancos como se no mundo, que é deles, não existissem dúvidas. Estava no Porto, mas aquilo podia estar a acontecer em Nova Iorque, Paris ou Londres.

Acontece que é mentira. Na realidade nem eles acreditam que seja verdade. Sabem que agora são os pais (os mesmos que vi a arrastarem-se, feridos e desalentados) que lhes sustentam o estilo, e desconfiam que vão pagar bem caro aquele luxo(?) consubstânciado nas instalações onde estudam, o conforto com que se deslocam e nos sonhos que os alimenta, e pior, muito pior, lhes alimentam. Simplesmente aquela não é a idade para se dar o braço a torcer, mau seria. Todos já por lá passámos e sabemos como é. Que seria do mundo se a desistência acontecesse aos vinte, vinte e cinco ou trinta anos? Por mais vítimas que sejam, e são, é a eles que compete dar a volta a isto, é do futuro deles e dos filhos deles que se trata.

 

Somos um dos parentes pobres de uma família que foi rica. Históricamente pouco habituados a grandes empenhamentos ou esforços, ou vivemos décadas seguidas de triste resignação e crescente atraso, ou beneficiámos da complacência dos tios e tias ricos, que admiram e acham graça a esta parente de bom aspeto, simpático e com um certo jeito para artista. Acontece que também aqueles se deixaram adormecer e influenciar pelas facilidades e ver o seu poder e fortuna passar para as mãos de outras, agora, mais poderosas familías. Que será de nós se nos tiram a côdea? Provávelmente cair do céu aos trambolhões e hibernar mais uns tempos no quentinho da mediocridade e do anonimato.

 

A palavra aos jovens! A energia e o futuro é deles. Mas para isso têm que largar o bem bom da inércia e do faz de conta, e agarrá-lo pelos cornos.


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semtelhas @ 11:04

Qui, 04/10/12

 

Neste meio campo do FCP a inteligência brilha com intensidade.

 

Moutinho e Lucho formam um par que podia jogar no clube mais pintado. Se lhes juntár-mos a genialidade da classe pura de James (rrames), então percebemos que nunca a equipa teve um miolo, em ambos os sentidos, meio e cérebro, desta categoria. Já por ali passaram jogadores excecionais, mas era sempre um, ou dois, enquanto agora a estes três ainda podemos juntar um todo-o-terreno com altos níveis de técnica/força e discernimento que é Fernando. Acresce que no banco ainda fica Defour, que me parece um potencial grande jogador.

 

Outra característica desta equipa é a juventude de altissíma qualidade: Danilo, Alex Sandro, Atsu, Iturbe, Kelvin, Mangala, Fabiano, tudo gente de primeira água,  a rondar os vinte anos de idade e que prometem um futuro seguro, desportiva e financeiramente.

 

O FC Porto é a equipa da história de Champions que mais jogadores utilizou, 173, o que diz muito sobre a politíca de contratações, de rotatividade e das qualidades indispensáveis para poder sonhar representar o clube que, desde há já alguns anos, é o eleito como entrada na alta roda do futebol mundial, para posteriores saltos a caminho dos colossos onde se ganham milhões. Este fenómeno deve-se ao facto do clube se ter tornado uma verdadeira escola de virtudes futebolísticas assente numa filosofia que tem por base princípios como, profissionalismo, qualidade e paixão pelo jogo. Não há soluções a 100%, e o exemplo do FCP aí está a prová-lo, as exceções que confirmam a regra. Kléber pode ser uma delas. Quanto a Jackson só lembraria o tempo que foi necessário a Jardel, Lisandro ou Falcão para se imporem.

 

Mas hoje é realmente aquele meio campo que fala mais alto. É o farol que ilumina um caminho do qual ninguém de boa fé pode vislumbrar até onde pode chegar. 


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semtelhas @ 11:40

Qua, 03/10/12

Ou o livro, As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino.

 

Quase um ensaio sobre esse exercicío de convocar imagens esta obra, uma daquelas que dificílmente arrumámos esquecida na prateleira. Se tentámos fazê-lo, logo somos assaltados por uma espécie de culpa que nos sussurra ao ouvido: ainda não aproveitaste nem metade e já o vais guardar? Fenómeno que se repete uma e outra vez.

 

Ancorado nos relatos que Marco Pólo faz a um imperador oriental sobre as cidades do ocidente, o autor, recorrendo a um semfim de imagens metafóricas, constroi um mundo, o nosso mundo, em toda a sua dimensão, fisíca e humana.

 

Cada cidade, com a sua personalidade própria, um ser vivo, que o explorador visita é catalogada e inserida num determinado género, do qual várias fazem parte e são igualmente adjetivadas. Por este processo somos transportados às Mil e Uma Noites ocidentais, ou seja, numa linguagem sonhadora, poética e sábiamente oriental, para que o imperador a consiga interpretar, mas também por uma sucessão de imagens fantásticas, Italo Calvino caracteriza magistralmente, como éramos, somos e provávelmente seremos, onde e como vivemos, o que temos de bom e de mau, etc.. E sobretudo fá-lo ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, muito bela e minuciosamente.

 

Quadro único da alma e da vivência humana, da inevitabilidade de um destino comum de procura incessante, seja a ocidente ou a oriente, ao qual sabe sempre bem voltar dada esta natureza de continuidade, de infinitude, em que o conteúdo do livro e a própria vida, a de todos nós, se confundem. Uma demanda interminável que esta obra genial, como se de um dicionário se tratasse, vai ajudando a descodificar.

 

Ele ali está, provocatóriamente sempre à mão!


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semtelhas @ 10:42

Ter, 02/10/12

 

O Monteiro disse: se quiséres arranjo-te uma zona para entrega de livros à cobrança. Eu quis.

 

Acabado o curso complementar, o chamado 7º ano, e apanhado no meio da turbulência reformista de Sottomayor Cardia, ministro da educação nesses tempos pósrevolucionários (1976), que me impediu seguir o curso superior de Históricas e Filosóficas, para o qual tinha árduamente completado dois anos a dezasseis disciplinas cada um, acabei por não fazer o chamado serviço cívico que me propunham antes de iniciar a faculdade num curso que não queria, e fui trabalhar.

 

Lembro-me perfeitamente do primeiro dia, uma segunda feira cinzenta de Outubro. Bem cedo, na cave de um estabelecimento/loja onde se vendiam os livros, fui apresentado aos restantes colaboradores e foi-me atribuída uma zona, a rua da Constituição limitada a norte por uma linha traçada tendo como referência a praça 9 de Abril e, a sul pelo mesmo método, a praça da República. Tratava-se de uma área enorme mas o Monteiro logo me descansou dizendo-me que podia arranjar pessoas para ajudar. Também disse que, a bem de todos, para já não descontaria para a segurança social. No chão estavam vários volumes, cada um umas quantas dezenas de livros chegádos da sede, que era preciso separar pelas cinco ou seis zonas de trabalho, às quais correspondia um espaço de chão. Deram-me um enorme saco em sarja verde tropa onde cabiam trinta a quarenta livros (quinze a vinte quilos), e disseram-me que receberia onze escudos por cada um, quando entregue e cobrado. Todas as segundas feiras ali deveria voltar para contas, e sempre que fosse preciso para novos carregamentos.

 

De inicío aquilo foi um inferno: o peso, a complicação nos transportes públicos por causa do volume, a chuva, que parecia nunca ter sido tanta, mas sobretudo porque o raio dos clientes nunca estavam ou chegavam tarde e, quando os apanhava, queriam tudo menos desembolsar dinheiro por algo que já tinham dito que não desejavam, que só cederam porque tiveram pena da chata da vendedora, etc., etc.. Naqueles primeiros dias não foram raras as vezes em que cheguei a casa com o saco quase tão cheio como quando tinha saído.

 

Depressa concluí que tinha que dividir a zona com alguém, o que fiz com um antigo colega de escola. O primeiro mês foi para conhecer o terreno e perceber as especificidades desta e daquela rua, a que tinha que ser percorrida de dia ou só ao fim da tarde, aquelas onde era mais fácil ou mais complicado receber e, igualmente importante, definir roteiros que permitissem poupar tempo e/ou esforço, bem como gerir o dia de forma racional. Rápidamente comecei a ter os cafés certos onde, enquanto me alimentava, fazia as pausas necessárias por esta ou aquela razão, e até reorganizava os livros dentro do saco. Aprendi a andar nos intervalos da chuva, a escolher os espaços mais adequados nos tróleis e nos autocarros, e sobretudo a interagir com os clientes de forma a conseguir entregar a mercadoria e receber o dinheiro. Quando chegava a casa, muitas vezes depois das dez da noite, normalmente por ter de insistir e esperar por pagamentos, o saco quase sempre vinha vazio e os bolsos cheios de notas de vinte, cinquenta, cem e mesmo quinhentos e mil escudos.

 

Aprendi muito com esta minha experiência de trabalho. Era sempre mais fácil receber o dinheiro e a simpatia de quem tinha pouco, como por exemplo na zona pobre da Lapa. A maior parte das pessoas comprava os livros para decoração. Recordo mesmo uma senhora que me convidou a entrar na sua sala para ver o móvel onde os ía colocar. Só queria livros daqui até ali. Já na altura a solidão era muito sensível, imensa gente aproveitava a minha presença para esvaziar o saco, ricos e pobres, novos e velhos. Também outro tipo de solidões, não me esquecerei nunca daquela beldade que uma solharenga manhã, na rua das Musas (premonitório?), me atendeu tendo a cobrir o corpinho sómente uma transparente camisa de noite. Fui enganado inúmeras vezes, quase sempre por gente bem falante e melhor vestida, e ameaçado outras tantas e de diversas maneiras, largando o cão, oferecendo porrada, levando com a porta no nariz e até, uma vez por um bêbado, a tiro. Mas as memórias mais fundas são boas: a leveza no coração e do saco ao fim do dia, certeza do dever cumprido; a alegria de ver o sol a surgir entre as núvens, possibilidade de voltar à rua; o sabor irrepetível da tosta mista e da cerveja enquanto organizava o trabalho para o resto da jornada; a incomparável simpatia e carinho de muitas pessoas para com aquele puto, vibrante e entusiasta no momento do cumprimento da sua missão ( agora percebo bem aqueles olhares condescendentes...); a tranquilidade e esperança com que, quase sempre completamente estourado, adormecia naquelas noites já a preparar mentalmente as rotas do dia seguinte.

 

Foi um ano maravilhoso, sei-o hoje. Na perspetiva de emprego mais firme abandonei o finório Monteiro. Tinha ganho umas massas valentes, que viriam a servir para um inter-rail que fez a ponte entre os dois empregos, e completou na perfeição essa importante fase do meu crescimento para a vida.

 


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semtelhas @ 16:10

Seg, 01/10/12

 

Nem sempre pelas melhores razões, Portugal já conseguiu várias vezes atingir o seus objetivos encurtando caminhos.

 

Observando as dificuldades que outros, já mais à frente, vão enfrentando, permite aos mais atrasados evitar os mesmos erros e atingir a meta ao mesmo tempo ou, pelo menos, demorando menos tempo. Ninguém o faz propositadamente, as razões do atraso estão lá e aí permanecem, mas não deixa de ser uma vantagem deixar os outros ir à frente e ver o que acontece. Os riscos são muitos. Conhecêmo-los. Perdermo-nos, atrasarmo-nos, enganarmo-nos, sermos assaltados, etc., enfim todos os perigos inerentes à escolha de esconsos caminhos.

 

A minha primeira sensação ao ver na televisão imagens da manifestação do último sábado, convocada pela CGTP, que teve adesão do PCP (uma inevitabilidade dado que, em muitos casos, se tratar das mesmas pessoas), do Bloco, etc., e ouvindo os discursos, as músicas, as palavras de ordem, vendo os cartazes, e não obstante a dimensão da mesma (aspeto claramente beneficiado pelo local cirurgicamente escolhido), foi: mais do mesmo. Pior ainda, acontecendo após a de 15 de Setembro, sem cores partidárias, acabou por, de alguma maneira, influenciar negativamente a imagem que aquela grande manifestação tinha deixado: não há aqui taticismos politicopartidários, jogos de poder ou qualquer outro tipo de hipocrisias, só o desespero e a força da razão. Uma espécie de colagem que a forma e o conteúdo dos discursos oficiais, violentos e plenos de autoconfiança pareceram confirmar, e com um cenário de fundo que fazia recordar os gloriosos tempos pós 25 de Abril de 1974.

 

Apesar de se terem passado quase quarenta anos, duas gerações, a perplexidade está no facto de, incrível e estranhamente, algumas daquelas coisas parecer fazerem sentido. Portugal é o único país da europa ocidental que mantém um partido comunista ideológicamente próximo da sua génese, ou, talvez melhor dizendo, que teve o cuidado de não renegar as suas raízes. As esquerdas modernas, foram nascendo e morrendo, (veja-se o caso do Bloco que quando teve no horizonte a possibilidade de ser poder, não soube o que fazer com a criança), mas o PCP, umas vezes mais titubeantes que outras, lá se foi mantendo firme nas suas convicções, e não é que se começa a sentir no ar a ideia de que eles é que tinham razão, que não há evolução possível ou, utilizando a sua linguagem, o mal está no patronato, nas multinacionais, na exploração, etc., etc., etc.? Até já o Xico Louçã está a encostar para aqueles lados...como quem diz, isto não vai lá com esquerdas caviar, só com o puro e duro do olho por olho, dente por dente.

 

Será que estamos a assistir, mais uma vez, a um, apanhar o atalho, protagonizado pelo portuguesíssimo PCP.


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