semtelhas @ 12:30

Sex, 19/10/12

 

O pôr do sol é igual a todos os outros, a toda a largura do horizonte uma faixa que vai ardendo mais à medida que nele se esconde. Podia ser na mais bela praia ou montanha, atrás de guardas-sol de palha sobre gente, à volta da mesa a saborear bebidas exóticas de cores vivas; ou a alaranjar a floresta, lá ao longe, e o vasto relvado que chega até ao terraço, onde as pessoas se deixam invadir pela paz assistindo a um final feliz, com promessas de retorno. Mas não. Quando volta, não é para todos.

 

 

ÁSIA

Entre o nosso olhar e a imensa fogueira que se apaga, o inferno. A perder de vista, em todas as direções, um mar de lixo, e, pelo meio, centenas de pessoas, quase todas crianças, curvadas, à procura. A noite instala-se e toda aquela gente se transforma num exército de mineiros, cada um com a sua lâmpada presa na testa, incansáveis na sua tarefa, o tempo urge e a concorrência é feroz. Assiste-se a frequentes escaramuças. O abastecimento é contínuo com dezenas de camiões sempre a descarregar mercadoria. Por todo lado imparáveis buldozeres vão pondo alguma ordem naquele labirinto indecifrável. Á frente deles, dezenas de pequenas figuras vão, a um tempo, tentando evitar ser esmagados e aproveitar as preciosidades que o garfo assassino, no seu afã de ameaças, pode desvendar. Vão algures dos seis aos dezasseis, andam por ali há anos e, muitas vezes são o sustento da família. Contava uma que quando levam os sacos com o material  para ser pesado e pago, normalmente os adultos roubam no peso. Entregam três quilos mas a balança só indica um ou dois. Outra dizia, a chorar copiosamente, que estava doente pelo que ganhara menos dinheiro e que, por isso, estava com medo de enfrentar a mãe ao entregar-lho.

 

 

AMÉRICA DO SUL

A paisagem é lunar. Muitos hectares de terra cinzenta, empapada à superficíe e crescentemente rigída à medida que nela se afundam uns tridentes metálicos em linha, o objetivo é separar enormes torrões, que devem pesar largos quilos, de seguida são transportados para junto de uma máquina rudimentar, manobrada por duas pessoas e são transformados numa espécie de tijolos. Tudo isto se passa nas encostas de dois montes que formam o vale no fundo do qual está a fábrica onde operam dois adultos. Tudo o resto é feito por formiguinhas, que sobem e descem contínuamente, durante horas, trazendo às costas enormes pedaços de terra dura. Os mais novos devem andar pelos oito anos e os mais velhos não devem ir além dos catorze. Mal podem fogem dali. Viagem após viagem, cruzam-se sem trocar uma palavra, sem sequer se olharem. Não passam de um feixe de ossitos que os músculos mal cobrem, mas já sabem da inutilidade das palavras. Pode-se vê-lo nos seus olhos de velhos.

 

 

ÁFRICA

Quem se aproxima avançando na floresta tropical, ouvindo aqueles gritos de crianças ao longe, imagina, talvez uma escola? Um largo entre cubatas onde brincam? Uma qualquer espécie de jogo? Quando é possível ver do que realmente se trata descobre-se umas quantas dezenas de meninos vestidos de camuflados, alinhados em filas, tendo cada um uma metralhadora nas mãos. Quando durante os exercicíos as colocam ao seu lado, pode verificar-se que, em alguns casos, são mais pequenos que as armas. Durante algumas horas, debaixo de um sol e calor inclementes, fazem vários movimentos fisícos sempre com as armas, aprendem a desmontar e montá-las, peça a peça, treinam tiro, e ouvem uma interminável palestra do único adulto presente, cuja mensagem tem como teor principal: ou matas ou morres. Avassaladora a frieza do olhar destes meninos, quando, mais tarde já de noite, confessam que nem sempre conseguem dormir por causa das imagens que retêm na memória dos últimos momentos de quem mataram. Estão todos numa roda da qual fazem parte meninas da sua idade e com as quais vão fazendo rodar um charro. Elas estão a caminho do local onde se vão prostituir. Um enorme descampado, escassamente iluminado, e onde circulam a velocídades incríveis e por arruamentos invisíveis todo o tipo de viaturas, algumas modelos de topo, e por entre as quais as meninas se vão insinuando. Muitas devem ser pura e simplesmente esmagadas. Contava uma delas (dez? doze anos?), quando estava na roda, completamente alucinada, que, havia uns dias, um americano a tinha mandado entrar para uma carrinha, levado para o mato, f. ali mesmo, no chão, onde, entre insultos, a abandonou.

 

 

Também este é o nosso mundo. O tal que todos os dias encolhe. Quanto mais tentarmos esconder a cara, mais as vergonhas nos vão ficar à mostra.


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cores da lua @ 21:47

Qui, 18/10/12

 

© José Saramago

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semtelhas @ 11:18

Qui, 18/10/12

 

- Que um primeiro-ministro eleito por sufrágio direto e universal, sente necessidade de dizer que pertence a uma raça de homens que pagam o que devem?

 

- Que Vitor Gaspar pede para não voltarem a fazer-lhe determinada pergunta, caso contrário correm o risco que responda noutro tom de voz?

 

- Que Obama parece tremer perante  um branco com evidentes tiques de arrogância, paternalismo e superioridade?

 

- Que Mário Soares insiste em soluções tão diferentes das que adotou em situação semelhante?

 

- Que a comunicação social continua a fazer o jogo de Paulo Portas, como se ele estivésse minimamente preocupado com os mais desfavorecidos?

 

- Que Cavaco só diz alguma coisa de jeito pelo facebook e nunca olhos nos olhos?

 

- Que o Borges resolveu dar este presente envenenado ao Gaspar sabendo qual é a opinião pública sobre as afirmações que profere?

 

- Que um mexicano podre de rico  se sente no direito de dizer em que idade me devem permitir pedir a reforma?

 

- Que súbitamente a seleção de futebol não está interessada em correr? Será que a questão dos prémios ainda não está resolvida?

 

- Como é que a srª Merkel vai fazer após chumbar o orçamento de um outro país que não a Alemanha?

 

- Teria Israel chegado à mesma conclusão quanto ao número de calorias se estivésse a contar cabeças israelitas e vez de palestinianas?

 

- Que tipo resultados práticos espera quem atribuiu a nobel da paz à União Europeia para além da visibilidade da noticía em si mesma?


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cores da lua @ 22:18

Qua, 17/10/12

 

A felicidade é feita de muitas fatias: fatias de relações entre pessoas, de vivências e experiências, recordações, contemplação, sucessos e superados insucessos, aprendizagem, comunicação. Certo é, ser feliz dá trabalho.

 

E quando procuramos a nossa fatia de felicidade pela via do trabalho, estou convencida que só seremos bem sucedidos se percorrermos um de dois caminhos:

Um, o da especialidade, ou o outro, o da multidisciplinaridade.

Ou és muito bom, excelente, especialista numa matéria, ou conheces e dominas muito bem várias áreas. Neste último caso, a arte está na forma como sabes combinar e relacionar o conhecimento adquirido em cada uma das matérias.

 

Sobre isto, encontrei esta semana um belo exemplo: Maria Carossel, emprego estável, designer gráfica numa editora, decidiu mudar de vida (é preciso coragem e paixão).

Depois de nova formação na área doceira, trocou as linhas e pontos por massas e açúcares.

 

A melhor fatia não é para quem se talha, mas sim para quem a merece.

 


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semtelhas @ 12:08

Qua, 17/10/12

 

Vamos lá. Vou ficar até aos ossos. Espetáculo! Maré vaza. As ondas estão bravas mas ficam lá em baixo. Ainda mais furiosas por não me poderem chegar. Não perdes pela demora. E não. Na última preia-mar já andaram por aqui, quase no passadiço. Tudo lavadinho! Não apareceu ninguém. Não. Está ali um pescador. Como é que o gaijo consegue andar tão depressa sobre as pedras cheias de plantas? O areal está lisinho.  O mar começa a atirar a lixeirada toda para a praia. Que perfume incrível o vento e a chuva estão a tirar das plantas. Já me está a escorrer água para os calções, bate no impermeável e vai em bica por ali abaixo. Vem de sul. O tipo do café está à porta. Este ano deve ter sido uma merda. Sempre a meio gaz. Nem as bandeiras a chamar o pessoal durante o europeu o devem ter safado. Estão a desfazer-se com o vento. É como os países. Porque será que o gaijo pendurou uma alemã? Será boche? Realmente o bigode..., e o ar. Está a abrandar, a ficar mais claro. Fixe. Ainda sobram umas bestas para atirar lixo para o chão. Olha! Outro pescador. E vem ali outro maluco. É uma maluca. Marimbou-se no meu olhar solidário. Imparável. Também já vai a levar com a chuva e o vento na tromba. Exige mais mobilização. Nem sei se tire o capote para fazer os exercicíos. É melhor não. Está frescote. Fosga-se! O que o ribeiro cresceu! Que violência! E foram só umas horitas de chuva a sério. Assim custa mais. Ainda vou rasgar isto. Na volta tenho que apertar o último colchete. Al Cochete. Al Coitão. Al Modovar. Mouros. Por onde andará o super urgente aeroporto? E o Jamais? Cabrões. Como eles dizem. AlCabrão. Fosga-se! Está a engrossar. Lá vem a gorda toda tranquila. Agora sou eu a levar na tromba.O que é aquilo? Que grande torre! A cruz à noite vai acender. Aquela merda não estava ali. Tem andaimes. Estão a construir. Está na hora dos salvadores. Da banha da cobra. Será que a puta da ignorância não acaba? As pessoas têm que acreditar em alguma coisa. Se fossem todos como tu havia de ser bonito! Hei-de descobrir como se chama o raio do pássaro. Que lindo! Outros dois ali. Espetáculo! Só aparecem quando não anda ninguém. Para eles este tempo é o ideal. Afasta o pessoal. Para eles a besta sou eu. Paciência meninos. Também sou bicho. Os outros aflitos a pedir para o pessoal gritar, e estes a quererem metê-los no quentinho, quietinhos a rezar. Quem dá mais? Esta merda parece uma feira. E o pessoal cá anda por ver andar os elétricos, a ficar todo f., com a cabeça entre as orelhas, tipo vira-vento. Se fossem todos como tu havia de ser lindo. Por este andar hoje ainda vem aí um sol do c.. Grande S.Pedro. Se calhar foi o Sr. da Pedra, está mesmo ali. Quando chegar ao carro é só pendurar o capote direitinho no banco ao lado, a secar. Está linda a carrinhota. Toda lavadinha!


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semtelhas @ 11:16

Ter, 16/10/12

 

Quando abri os olhos não reconheci o que me rodeava.

 

Eram cinco e meia da manhã quando fui brutalmente acordado pelo despertador. Com a cabeça a andar à roda distingui na penumbra, ao lado, separadas por uma mesita com um maço de tabaco, fósforos e um cinzeiro em cima, outra pequena cama onde alguém se mexia, em frente uma espécie de cómoda sobre a qual estavam pousadas, em completa desordem, roupas, livros, um saco e garrafas. Também uma cadeira com casacos pendurados e, logo a seguir, no lado oposto, a porta. Dez, doze metros quadrados? Sentei-me e reparei estar encostado a uma parede onde, por uma janela, podia ver a luz do dia a despontar.

 

Quando percebi onde estava apeteceu-me morrer. A enorme ressaca ajudou, mas lembrar-me que tinha meia-hora para estar à porta deste edificío de quartos, para entrar na carrinha que nos transportaria até à obra a cerca de cinquenta quilómetros de Lausanne, que faziam parte, quarto e transporte, do contrato de meio ano de trabalho, é que me arrasou. Comecei por desistir de qualquer tentativa de me lavar ou alimentar, e fumei o primeiro cigarro do dia.

 

Só acordava completamente quando o martelo pneumático com que ía eliminando as sobras de betão nas paredes anti-atómicas (escapavam pelas frinchas das caixas metálicas onde era injetado), arrancava e me sacudia com aquele barulho infernal. 

 

Quando eu e o meu colega de quarto voltávamos ao fim da jornada, é que a vida começava de facto. Era um rodopio daqui para ali, comer qualquer coisa, beber muito e fumar tudo. Entrávamos no quarto sempre de gatas, e só não o fazíamos muito mais tarde porque na Suíça a policía, a partir das dez da noite, persegue quem anda pelas ruas (os cafés e restaurantes, de domingo a quinta fecham a essa hora), crivando de perguntas e ameaças quem se atreve. Se, por infelicidade, não me esquecia de mim logo ali, quando me estendia na cama, era o desespero. À medida que puxava o fio da memória, e ía gastando recordações, mais vazio ficava, como se os contornos das pessoas e das coisas amadas estivéssem a apagar-se com o tempo. Na madrugada seguinte, tudo de novo.

 

Éramos soltos, nós e todos os outros, incluíndo os indígenas, aos fins de semana que tinham o seu ponto mais alto sexta a partir do fim da tarde, quando a rotina e a paciência tinham atingido o limite, a saturação. Então era vê-los todos exóticos e radicais, a libertarem-se com a mesma espontaneidade com que se veste um fato de cerimónia, para, passadas quarenta e oito horas, entrarem no seu papel de trabalhadores incansáveis e exemplares, como se nada tivesse acontecido. Espantoso!

 

Não aguentei sequer até ao fim do contrato. Ainda não tinha passado meio ano e já estava de volta com o rabo entre as pernas. Por imaturidade, por ainda não ter grandes responsabilidades, mas também por aquilo ser demasiado perfeito. Irrespirável. Para o conseguir tem que se precisar muito, uma força imensa, e alma até Almeida. É, sobretudo por isso, que tenho enorme admiração e respeito por quem o consegue.


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semtelhas @ 12:44

Seg, 15/10/12

Mais um grande programa na RTP2, o canal de televisão que nos querem roubar.

 

No Câmara Clara falou-se sobre Utopia. Notável o entusiasmo e a preparação da jovem mulher especialista na matéria (Universidade do Porto), sempre sábiamente conduzida pela excelente Paula Moura Pinheiro.

 

Thomas More, o inventor, desta palavra que tanto tem dado que falar desde há séculos, foi sempre, ou quase, mal compreendido. Ao contrário do que geralmente se pensou e, pior, levou a uma determinada prática, a Utopia não é um estado acabado, mas sim um processo em andamento que tem como característica imutável nunca ser terminado. É no percorrer esse processo que está o âmago da questão porque significa uma procura constante de novas soluções, não deixa lugar ao ceticismo (ou à preguiça, como este é encarado, sob disfarce).

 

As grandes tragédias do séc.XX ficaram a dever-se precisamente  ao tentar cumprir essa utopia que foi fixar no terreno, aquilo que inicialmente foram Utopias pensadas como boas soluções para a sociedade, o comunismo e o nacional socialismo. Uma Utopia, por definição nunca se cumpre, é uma impossibilidade. A partir do momento que se força a sua implementação deixa de o ser e passa a ditadura, com os resultados que conhecemos.

 

Foram também abordados alguns casos de experiências utópicas, nomeadamente na forma como a sociedade pode funcionar harmoniosamente como naquele caso de um inglês (Robert Owen) que isolou uma pequena vila no seu país, no inicío do sécXIX, e organizando as pessoas de uma forma completamente inovadora, em que a violência era reprimida, a limpeza exigida, a saúde vigiada, os sacrificíos e os beneficíos equitativamente distribuídos, conseguiu dar passos importantes no sentido em que demontrou na prática, que uma sociedade melhor era possível. Ou o caso da Vista Alegre, em Portugal, nessa mesma época. Este são bons exemplos exemplo do processo utópico

 

Vários autores tentaram alertar para os perigos de forçar a implantação de utopias criando distopias, ou obras distópicas. Conheço duas, uma objetivamente anti-estalinista, 1984, de George Orwell, que rejeitava o sistema comunista, e O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, que indo um pouco mais longe que o primeiro, acaba por avisar, diga-se que sem grande sucesso, para os perigos de sociedade exageradamente estratificada, de algum modo plasmada na que resulta das atuais democracias do consumismo.

 

Resta-nos a Utopia, na sua pureza, ou como diz o mestre Gabriel Garcia Marquez, perceber que o prazer está muito mais no caminho que se percorre para atingir o cume da montanha, que atingi-lo.


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semtelhas @ 13:57

Dom, 14/10/12

 

O realizador italiano de, entre outros, O Último Tango em Paris, 1900, Um Chá no Deserto e Os Sonhadores.

 

Talvez se possa afirmar que neste realizador se pode encontrar o melhor dos cinemas italiano e do norte-americano(EUA), o realismo e o sonho.

 

O Último Tango em Paris, será porventura uma deriva no seu caminho, dado tratar-se e tratar de uma questão muito mais pessoal que universal,  o habitual neste realizador. Ainda assim o talento e a capacidade de ultrapassar limites, de ser inovador e arriscado, estão bem presentes neste filme que abalou imenso a estrutura moral vigente por aqueles dias. Fui vê-lo imediatamente após a revolução de 1974, tal como a esmagadora maioria das pessoas, pelas piores razões, voyerismo. Mesmo assim o misto prazer/sofrimento que passa realmente do ecrã para a plateia protagonizados por Marlon Brando e Maria Schneider, foi experiência jamais esquecida.

Com 1900 está no seu elemento. Fenomenal épico sobre o aparecimento do fascismo em Itália para tentar parar os socialistas, que despertavam por todo o lado no inicío do secXX. Chegou a Portugal salvo erro em 1977, e dividia-se em duas partes, cada uma com quase três horas. Passou no Coliseu do Porto, e foi uma experiência arrebatadora e riquissíma do ponto de vista do conhecimento da história politíca da europa. Começavam a aparecer atores como Robert de Niro, Gérard Depardieu, Donald Suderland, entre outros, que deram corpo a um filme para a eternidade.

Um Chá no Deserto,  é baseado no livro O Céu que Nos Protege, de Paul Bowles, e faz-lhe justiça. Para mim foi a primeira viagem (primeiro o filme e só depois o livro) a ambiências do deserto, neste caso do Saara, e pode dizer-se que me influenciou para a vida. O mistério, os cheiros, as cores, os alucinogéneos, a sensualidade, a forma como o tempo é sentido a passar, o calor morte/redenção, a paixão, enfim um universo sempre à beira do abismo mas olhado nos olhos, quase o desejando. Vamos pela mão do então inexperiente mas já insinuante John Malkovic, e da lindissíma Debra Winger.

 

Foi assistir a Os Sonhadores,  ontem na RTP2, que a memória trouxe à superficíe este mestre do cinema italiano. Acompanhámos três jovens amantes de cinema a assistir ao rebentar do Maio de 68 em Paris. O filme é, mais uma vez, um documento histórico, e vive dos cruzamentos entre a problemática dos vários tipos de libertação a que se assistia por aqueles dias, primeiro pessoais e, consequentemente, da sociedade. De uma beleza estética ímpar, particularmente Eva Green que devia ter para aí dezoito anos, o mais impressionante é a atualidade do dilema final: qual o papel da violência na luta por aqueles que julgámos ser os nossos direitos? Lutámos para quê, e com que possibilidades de sucesso? Chegará saber que lutámos por algo que poderá jamais passar de um sonho?


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semtelhas @ 17:17

Sab, 13/10/12

 

A BBC realizou em Tóquio um programa onde, perante uma grande plateia, foram interrogadas por um jornalista quatro personalidades: a principal responsável pelo FMI, o ministro das finanças da  Alemanha, um conselheiro económico indiano para o governo daquele país, e um alto representante do City Group.

 

A conversa andou à volta do tema do dia, mais ou menos austeridade, e como esta pode definir o futuro dos países na qual está a ser aplicada.

 

As respostas e a sua origem também não constituíram novidade: o banqueiro a pedir investimento, o economista a dizer uma coisa e o seu contrário, o alemão a mandar-nos trabalhar, e o FMI a não se querer comprometer muito. Ainda assim duas ou três ideias a reter pelo facto de não serem assim tão abordadas: que o problema essencial das pessoas é o de ter acabado o emprego para a vida, e o que isso representa sob a forma de instabilidade; uma certa desmistificação daquela ideia de que os politicos querem é ganhar eleições, através do assumir disso mesmo, justificando-o de que é com maiorias que mais fácilmente se põe em prática as soluções encontradas; o reforço da noção de que muitos dos empregos que faltam se podem encontrar tendo em vista a proteção da nossa casa comum, o planeta; o quanto é indispensável a atitude da sociedade no processo de crescimento da economia independentemente da participação do estado; ou, no caso mais concreto da ajuda aos países com maiores problemas, o quanto é importante a vontade por estes demonstrada nas reformas para que lhes possa ser concedido mais tempo para recuperarem.

 

Onde esteve a assustadora novidade foi na evidente crispação entre esta gente que tem o futuro de todos nós nas mãos. Por um lado a francesa do FMI a dizer que o seu país está a cumprir o seu papel, em resposta ao alemão que perguntava o que está o Reino Unido a pensar como solução para europa, porque para já é só conversa. Por outro o americano convencido que o seu país está no bom caminho, a deixar a ideia que o que precisa mesmo é que não o incomodem, enquanto o indiano, ali em representação das potências emergentes, dava um no cravo outro na ferradura, claramente mais preocupado com a Índia do que com qualquer outra questão.

 

Curiosamente, depois daquela espécie de guerra surda, feita de risinhos e indiretas, à última questão: para quando a saída da crise? Todos se mostraram bastante otimistas, um, dois anos. Após aquela amável conversa isto diz tudo sobre a credibilidade ou vontade desta gente em resolver qualquer problema que não seja o deles próprios. Realmente assustador para quem deles estiver dependente.


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semtelhas @ 13:21

Sex, 12/10/12

 

Nos dois sentidos, porque é espantoso e porque se treme, literalmente, as cadeiras, nós próprios, também com elas, vendo o filme Looper.

 

De dificíl qualificação porque abarca vários estilos: ficção cientifíca, drama, policial, thriller, e ação, trata-se de um filme com um excelente argumento, um bom conjunto de atores que lhe dão espessura, e servido de meios técnicos do melhor, nomeadamente o som, que resulta numa viagem de mais de duas horas para bem longe da realidade.

 

Mais uma visão mais ou menos comum a tantas outras do futuro (2074), onde o mais trivial dos objetos, normalmente muito gasto o que lhe dá um certo encanto nostálgico e nos remete para a nossa realidade, se mistura com superavançados instrumentos capazes de fazer quase tudo, mas, neste caso, usando a mais desejada das novidades, viajar no tempo, como forma de atingir um estado de quase plena segurança. Num ambiente mais ou menos generalizado de frieza e absoluto dominío dos automatismos, um mundo em que as pessoas são autómatos, e através de um complexo conjunto de regras (importante concentração total durante a exibição da fita), o futuro parece conduzir para um final autodestrutivo nascido da desesperança.

 

Eis senão quando surge alguém que inverte a lógica do jogo, coloca o grão de areia que vai emperrar a engrenagem, e tudo é posto em causa. Onde está a novidade? É que não o faz em nome do poder ou da sobrevivência. A partir daí o filme arranca imparável para uma sucessão de imagens e sons verdadeiramente fantásticos, e em função de um argumento também ele alucinante no seu ziguezaguear que não nos dá descanso. Formidável!

 

A acreditar em quem criou a estória e a pôs em filme, ainda há esperança. Mesmo daqui a muitos anos, e num cenário muito provávelmente de acordo com o pior dos nossos pesadelos, seremos salvos pelo herói de sempre: o amor. 


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cores da lua @ 19:19

Qui, 11/10/12

 

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria, in "Animália Odes aos Bichos"

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semtelhas @ 16:06

Qua, 10/10/12

 

 

Que a forma como sentimos a passagem do tempo obedece a mistérios por desvendar, já Einstein o tinha descoberto. Como cada um de nós o faz constitui uma teoria demonstrável enquanto experiência.

 

Há pessoas que têm por hábito traçar para si próprias objetivos a médio longo prazo, fixando o seu olhar lá ao longe, de tal maneira que o espaço que intermeia entre a decisão e o cumprimento é feito num estado semihipnótico quase não, ou pouco sentindo, tudo que nesse período aconteceu. Dá-se uma espécie de aceleração do tempo resultando que não raras vezes, nas poucas em que olhando para o que passou, refletindo, têm a sensação que tudo aconteceu muito depressa, que quando se apercebem ficou mais para trás do que há para a frente. Mesmo quando bem sucedidas, o que conseguem sobretudo do ponto de vista material, há uma insatisfação que as empurra para a frente, para um viciante jogo de conquista permanente. A sofreguidão de uma vivência engolida às golfadas.

 

Outras há que vivem um dia de cada vez, quase desinteressadamente esperando o que a vida lhes reserva. Num mundo tão competitivo como aquele em que lutámos, o mais normal é acabarem empurradas para as margens do sucesso, no sentido mais usual do termo. É comum que, com o tempo, nelas cresça alguma amargura nascida na incapacidade de ombrear naquilo que apelidam de frívolidades da vida, não obstante em nada se sentirem inferiores, até superiores, a muitos dos seus semelhantes, os quais exibem digamos que, outro ritmo, de vida. Para estas pessoas acontece muitas vezes a existência tornar-se algo penosa, onde é comum a urgência estar não em agarrar o tempo mas desesperadamente esperar que ele passe. Uns anos atrás dos outros sempre a ver navios zarpar do porto no qual se está para sempre ancorado.

 

Conheci de perto duas pessoas que, cada uma à sua maneira, tirava um especial prazer nos começos, inicíos ou arranques. Um, empresário, fundou várias empresas e era vê-lo na fase do arranque, ninguém segurava o homem! Explodia de entusiasmo e energia, e refletia-o no sucesso dos seus empreendimentos tal era a força que transmitia e exigia a tudo e a todos que o rodeavam. Uma vez aquilo a andar passava a pasta e partia para outra.

No outro caso o gosto pelos começos era bem mais prosaico, ao contrário do comum dos mortais, demorava seguramente pelo menos meia hora a beber uma cerveja. Perante a nossa irritação alegava que, para ele, o gozo estava naquele jogo de estar sempre a começar a dita. Multiplicava-lhe n vezes o prazer.

 

Penso que estes meus dois amigos, mesmo sem o saberem (?), adotavam a melhor solução para dominar esse desconhecido, o tempo. Hoje acredito que a melhor forma de o fazer fica ali pelo meio daquelas duas hipóteses iniciais: traçar objetivos diários, o cumprimento de tarefas das quais real e sinceramente se gosta. Diáriamente um novo começo, esse estado ainda ingénuo, impoluto do desgaste que traz o crescimento das coisas e o atrito que significa a realidade. O que se obtém é um repetido entusiasmo em começar cada dia, sem grandes expectativas, mas com a vontade suficiente para não o sentir demorado. Uma vida saboreada aos golinhos.


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semtelhas @ 10:39

Ter, 09/10/12

 

No que se transformou a audição de bandas que no final dos anos 70, remetia uma certa juventude daquele tempo quase sempre para profundas, ou no minímo intensas e demoradas, discussões existencialistas.

 

Técnicamente apelidadas do rock progressivo ou sinfónico, tinha uma abordagem digamos que mais tranquila na forma, que não no conteúdo, muitas vezes bastante subversivo.

 

Entrei neste mundo através de duas bandas que para mim funcionaram como ponte entre o rock mais pesado e o, vou chamar-lhe, interrogativo, no sentido de que mais do que nos pôr a mexer, pôs-nos a pensar, refiro-me aos Deep Purple e aos Génesis. Ambos com uma vasta obra já naqueles anos, e que eu conhecia bem. Dos Génesis, liderados pelo ainda hoje grande Peter Gabriel, recordo sobretudo o album, The Lamb Lies Down on Brodway. Dos Deep Purple, compostos por cinco magos de cada um dos instrumentos que tocavam (tocam?), Ian Pace na bateria, Jon Lord nas teclas, Ritchie Blackmore na guitarra, Roger Glover no baixo, e Ian Gillan na voz, jamais esquecerei as intermináveis horas de vibração com Made in Japan.

 

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Mas foi inspirados no som e nas ideias de outros grupos que discutimos os destinos do mundo durante muitas e muitas horas, fosse nos fundos do Majestic, num areal qualquer junto ao mar iluminados por uma lua cheia, ou, muitas vezes, na casa de um colega mais velho naquelas andanças, espécie de guia espiritual, nessa e noutras matérias. Dos Yes, de Jon Anderson, possuídor de uma voz inacreditável, cujo triplo Yessongs ainda hoje é profundamente admirado. Ou dos Van der Graaf Generator, dos quais literalmente consumi até à exaustão o albúm Godbluff. Os Pink Floyd, com Dark Side of the Moon, Wish You Where Here e mais tarde, num registo diferente, com The Wall, dominaram essa época. Músicas icónicas, realmente eternas (como definir, Shine On You Crazy Diamond?), representaram muito para aquela geração de pessoas, sobretudo porque as obrigou olhar para dentro, num esforço de reflexão que veio a fazer escola durante muitas das seguintes.

 

 

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Hoje, ao ouvir estes sons, para além da tristeza pela irreversibilidade do tempo, fica um certo sabor amargo pela utopia e o sonho terem sido traídos pela realidade.

 


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cores da lua @ 21:23

Seg, 08/10/12

 

Muito bonito, elegante stop motion.

Her Morning Elegance © Oren Lavie

 


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semtelhas @ 17:04

Seg, 08/10/12

Joyce Carol Oates é uma escritora americana(EUA) da qual li sómente um livro, A Filha do Coveiro, mas que me pareceu ter a força e o talento de qualquer um dos grandes do seu país ou do mundo. São aliás bem percetíveis os ensinamentos e mesmo aperfeiçoamentos, de onde os foi buscar e sobre quem os exerceu (Mailer, Faulkner, Mann, Dostoievski, Lawrence, sentem-se naquelas páginas).

 

É um livro sobre judeus/alemães em fuga de Hitler ainda antes do começo da guerra, 1936, para os EUA. Acredito que muitas pessoas desconheçam a brutal perseguição a que esta gente esteve sujeita no novo mundo, os que conseguiram desembarcar, porque houve vários navios carregados de muitos outros que foram chegando ao longo da guerra, aos quais foi dada a ordem de retorno. Muitos deles, porque ninguém os aceitava, tiveram mesmo que voltar à Alemanha seguindo as pessoas diretamente para os campos de concentração.

 

Sem dó nem piedade foram perseguidos por uma população, entre a qual o conceito de judeu não era muito diferente daquele que na europa os levava aos fornos crematórios. As primeiras gerações pouco tempo duraram e as segundas, das quais alguns já nasceram em solo americano, continuaram a sofrer esse estigma até à morte. Um povo para sempre(?) condenado.

 

Auto-biográfica, esta obra relata-nos a estória da avó da autora com um sentimento raro. Provávelmente só possível quando se fala dos nossos. Também um retrato relativamente pouco conhecido dos EUA daqueles tempos, práticamente até ao final do secXX, que destroi uma boa parte do glamour que costuma acompanhar tudo o que a arte nos dá sobre aquele grandioso país.

 

Fotografia a preto e branco das pessoas que tendo passado por tudo, escolheram, ou foram mesmo obrigadas, a viver.  As formas tão radicalmente diferentes de como é possível desempenhar esse ato de sobrevivência disfarçado de vida, eis o conteúdo deste testemunho.

 

Julgo saber tratar-se de uma escritora sempre na calha para o nobel. Depois de ler esta obra tenho a certeza que a importância que aquele pode ter para ela é indiretamente proporcional ao quanto merece obtê-lo. Seria justo e útil, sobretudo porque ía trazê-la ao conhecimento universal, e fazer dos milhões que a leriam melhores pessoas.


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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