semtelhas @ 14:15

Sex, 20/07/12

Cruzei-me com eles na rua onde moram, no mesmo prédio que a minha mãe, tal como eles há mais de cinquenta e quatro anos, e onde vivi os meus primeiros vinte. Eu de carro, eles arrastando-se rua acima.

 

Ele, como sempre o conheci, de cabeça levantada e os olhos menos vivos mas ainda perscutadores. A diferença está na lentidão com que se move agarrado a uma muleta e numa velhice que ataca por todo o lado. Mas foi ela quem mais me impressionou. Completamente esquelética, cruzeta onde bamboleiam uns trapos, as partes de pele visíveis todas encarquilhadas sobressaindo os autênticos sulcos que lhe marcam o rosto, seguia ligeiramente dobrada para a frente, passitos de cêntimetros, olhos semicerrados e um dos braços dado com o dele livre da muleta. Soube posteriormente pela minha mãe, que todos os dias cumprem esta via sacra para fazerem as refeições numa lojita ali, cinquenta metros abaixo da porta.

 

Segundo ela me contou inúmeras vezes, quando os meus pais para ali se mudaram tinha eu três meses, e ele voltava de madrugada do Porto, da "Candeia", conhecida bôite onde cantava, se eu estava a chorar e para que o artista pudésse descansar, descia as escadas para me buscar e  deitar entre eles onde tranquilamente adormecia. Fê-lo vezes sem conta. Em muitas ocasiões saíram os quatro para teatro ou ao cinema, e ainda há pouco tempo se falava das festas que davam, ora no rés do chão ora no 1º andar, onde se jogava cartas, cantava, comia e bebia até às tantas, entre convivas  dos quais quase sempre faziam parte colegas que com ele atuavam.

 

Ao longo das duas décadas que com eles convivi, dele retive na memória o enorme coração que tinha, quase tão grande quanto a vaidade que era a sua imagem de marca, de vê-lo a descer as escadas, brilhante nas suas fatiotas de vedeta, a afiambrar as últimas afinações das muitas que já vinha fazendo ao longo da última hora enquanto se arranjava. Normalmente brindáva-nos, aos vizinhos, que para além de nós eram mais duas familias, com uma das árias da ópera " Os Palhaços" de Léoncavallo, acompanhando o mesmo vinil, onde no meio se podia ver um cão a cantar(?) para uma espécie de funil enorme, que tantas vezes vi rodar naquele magnifíco e estranho aparelho. E o que eu gostava daquela parte em que após uma sonora gargalhada, se ouve uma ensanguentada faca a cair ao no chão.... Dizia-se, não sei se era verdade, que quando era novo tinha recebido um convite de alguém que o ouvira para ir cantar numa companhia italiana de ópera, e que a mãe, para não o ver partir só lhe deu conhecimento de tal missíva anos depois. Será mito mas que ele tinha uma grande voz nunca ninguém duvidou.

 

É dela que tenho mais, muito mais recordações. Do quanto sofria durante as longas ausências dele, por exemplo na Rodésia (atual Zimbabué), onde esteve uma larga temporada, do orgulho com que mostrava às vizinhas, em fotografias, toda a beleza das partenaires dele, como que a desculpá-lo pelas constantes facadas que com elas dava no casamento e também assim autojustificando a sua permissividade, do entusiasmo com que sempre o recebia e como tudo estava sempre "um brinquinho", era maníaca pelas limpezas, a desgraça que era alguém sujar o caminho que tão sagrada criatura haveria de percorrer em breve. Mas também me lembro das infernais gritarias entre ambos, das repetidas ameaças de abandono mútuas e nunca cumpridas, das intermináveis sessões de choro e lamentações na cozinha da nossa casa e de como, finalmente, se voltava ao mesmo, tudo sempre impecávelmente preparado, incluindo ela própria, para quando ele chegasse a casa, fosse a ausência de horas ou de meses, porque que vinha de outras camas e transportando outros cheiros isso era certo, e como ela desesperadamente o gritava!

 

Não há muito tempo fui aos Fenianos do Porto assistir a uma homenagem que os amigos lhe prepararam. Foi num dia à noite e a Avenida dos Aliados estava luminosa. Lá dentro uma sala cheia, sobretudo de velhotes, e no ar a pairar uma sensação de tristeza, aquela tristeza que advém não do sentimento de fim, mas sim do incumprimento de algo que nunca chegou a começar. Quando me viu ao longe, acenou-me magnânimo, emprestando-me por breves instantes a luz de holofotes que era o olhar dos espetadores, naquele gesto de diva que encerra em si mesmo e simultâneamente, elegância, melancolia, agradecimento e alguma, mas pouca e sempre disfarçada fadiga, afinal, the show must go on!

 


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semtelhas @ 10:37

Qui, 19/07/12

Foi sobre o conceito e limites desta, do ponto de vista cientifíco, que se falou num dos encontros à volta do tema "cérebro", realizado recentemente no Porto e dos quais um dos responsáveis foi Daniel Serrão.

 

É sabido o muito que se tem discutido, os rios de tinta que têm corrido, o infindável número de debates que têm havido sobre esta matéria, desta feita porém juntaram-se na mesma reunião para tentativa de esclarecimento, aquelas que são as duas questões fulcrais, aborto e eutanásia.

 

São tão díspares e ao mesmo tempo tão aparentemente plausíveis as posições relativas a estes assuntos, que talvez se possa considerar constítuirem um dos paradigmas da máxima, os extremos tocam-se.

 

O esforço dos cientistas centra-se na procura do começo de algo tão importante no funcionamento daquilo que irá ser uma pessoa humana, que justifique que possa ser considerada como tal a partir desse momento. Segundo os especialistas que ouvi, tudo se encaminha para que esse momento venha a ser considerado o que corresponde ao inicío do funcionamento do cérebro. Ainda não está claro quando isso sucede, disseram, mas o essencial, só se é pessoa humana quando se adquire a capacidade de raciocinar, ainda que da forma mais básica que o possámos imaginar, estará definido. Todo o restante funcionamento do corpo é em tudo semelhante a um outro qualquer ser com vida vegetativa.

 

A grande novidade do debate veio depois, quando se faz a pergunta: então quando fôr consensualmente (maioritáriamente?) considerado que a vida começa naquele momento, é legítimo concluir que a mesma se possa julgar terminada quando essa condição inicial deixa de se cumprir? O fechar do círculo? Sabemos que a discussão sobre a eutanásia vai muito para além desta tentativa de balizar a questão, como quanto ao aborto aliás, mas conseguir responder a estas dúvidas, parece poder vir a significar um avanço enorme no sentido de dar resposta a problemas  tão nucleares na existência humana como são estes.

 

Curiosamente, ou não, parece haver uma grande incongruência, quase insanável, quando observámos o facto de, quase sempre, as pessoas que estão do lado proibicionista, quer do aborto quer da eutanásia, serem religiosas, acreditam na existência de algo para além da vida terrena, para as quais seria talvez mais fácil aceitarem meras definições cientifícas para princípio e fim que, no seu intímo, não deveriam passar de quase impercetíveis "linhas de água" num percurso ilimitável. Já a outra posição poderá ser considerada mais coerente com uma espécie de maneira prática de ver a vida, na qual tudo teria um princípio e um fim, até eventualmente aceitável estritamente nestas matérias, mas absolutamente refutável, porque nunca provada, quanto ao infinito que vai para além delas. Uma resposta? Mitigar todo o sofrimento.


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semtelhas @ 13:01

Qua, 18/07/12

Um destes dias ouvi uma versão que explica o futuro dominío do mundo pelos asiáticos, nomeadamente os chineses, diferente de todas as que conhecia.

 

Da opinião de um americano a viver na China há duas décadas podemos esperar uma de duas coisas, ou amargura por não ter conseguido no seu país a notabilidade que veio a atingir noutro, ou o profundo conhecimento adquirido ao longo de duas décadas sobre o que o recebeu. No caso penso poder observar-se os dois efeitos.

 

O pensamento fulcral desta personalidade cujo nome não retive, é que o mundo ocidental vai ter uma enorme dificuldade em se adaptar a uma nova ordem mundial da qual apenas podemos sentir o inicío. Inconscientemente damos por adquiridas, normais e imutáveis toda uma série questões que moldam decisivamente o nosso dia a dia, não nos passa sequer pela cabeça, segundo a sua opinião, como tudo pode mudar em função de uma maneira de estar muito diferente da nossa. De novo e sempre as questões culturais na base da mais, ou menos tranquila aceitação de novas formas de vida impostas pelo domínio de novos impérios económicos.

 

De facto se no passado era o poder militar que definia cada nova "ordem mundial", hoje, como bem sabemos, é a economia que lidera essa mudança. Atualmente o globo é dominado por 15% do total da sua população, acontece que só a China e a Índia representam 38% da mesma. Se quisermos incluir o que resta dos BRIC rápidamente percebemos a dimensão e quão rápido as coisas vão mudar. Este estudioso no entanto pensa que há uma diferença fundamental entre os restantes países presentes nesta sigla e a China, é que esta nunca foi colonizada.

 

Esta será a razão principal que levará a que os Estados Unidos tenham que passar o ceptro aquele gigante asiático. O caso é que a cultura chinesa é muito anterior aquelas que vieram  a ser a base daquele que é o pensamento ocidental, e que norteia toda uma maneira de estar, de ver o que nos rodeia e de agir em conformidade, falo óbviamente da Grécia antiga e do império romano. Acresce que nunca houve potência alguma com a capacidade de interromper a filosofia de vida chinesa que continua a fazer o seu caminho ( provávelmente a maior ameaça, digo eu, até terá vindo de dentro, com Mao). Desde logo a forma como sente a passagem do tempo e com ele lidam é completamente diferente do ocidental, tudo é feito pausada e seguramente, com paciência de chinês. Talvez por isso, paira no ar e é intrínseca mesmo ao mais simples uma enorme autoconfiança, como quem sabe que é só uma questão de tempo para que assumam a liderança. E convenhámos que independentemente de o conseguirem ou não, acreditar que sim já é meio caminho andado para o conseguir, e não foi Confúcio que o disse, esse estava mais vocacionado para a moralidade e a defesa da verdade, foram os mais importantes gurus do pensamento ocidental. Restará como única hipótese na defesa do nosso frenético, cada vez mais virtual e impaciente estilo de vida, envenená-los com as nossas já gastas "cantigas do bandido". Haverá tempo? Por vezes dá a impressão que sim, que começam a percorrer o mesmo caminho que levou o dito mundo desenvolvido a este beco sem saída. Mas é isso que queremos? Que nos interessa?

 

O lado bom de tudo isto é que como são pacientes, os chineses irão concerteza aturar todas as tropelias e mesmo malfeitorias do ocidente até que este caia de maduro, sem necessidade de terem que recorrer a meios mais drásticos... A prová-lo há aquela estória que conta que aquando da visita de Nixon a Mao, à pergunta de Kissinger ao ministro dos negócios estrangeiros chinês: o que pensa da revolução francesa?, este terá respondido: ainda é muito cedo para sabermos.

 

 

 Mahjong Game


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semtelhas @ 13:37

Ter, 17/07/12

Rezam as estatísticas que viajar de avião é a maneira mais segura de o fazer mas também a mais fatal nos raros casos em que o não é.

 

Concerteza  não será este rácio que contribui para a minha sensação de perplexidade sempre que tenho de o fazer. Talvez pela escassez do número de vezes que o faço, ou não, provávelmente sempre me ficaria em falta aquela alma de pássaro de quem passa metade da vida a mais de 10km acima da terra firme.

 

Apesar de tudo o medo já me vai dando espaço e oportunidade para, nos momentos mais críticos como o de levantar voo, espreitar pelo canto do olho os que me circundam e perceber o impacto enorme que tem sobre todos nós, cuja natureza é a de nos movermos sobre superficíes paradas (saltemos os planetários movimentos), aquele momento em que deixámos de ser senhores de grande parte daquilo que possa ser a nossa vontade, entregando-nos nas mãos de um ser em tudo, ou quase, semelhante a nós próprios, com o que isso pode representar.

 

Desde que enfileirámos na expectativa de embarcar, o que pode demorar, até que apressadamente abandoná-mos o aeroporto onde acabámos de chegar, sinto como que uma espécie de suspensão, como se a fita onde consta o filme que me conta, rolásse um pouco mais lentamente na bobina que há-de guardar a história que foi a minha vida e que será arquivada algures numa filmoteca de cujos corredores ninguém consegue lobrigar o fim. Pelo meio vamos lançando olhares aqui e ali, para aqueles que irão fazer parte do nosso destino mais próximo e, mais ou menos provincíanamente desatámos a fazer juízos a torto e a direito, na realidade uma espécie de inconsciente primeiro reconhecimento do que nos rodeia, que só se revelará, como noutras circunstâncias, em situações limite.

 

Recordo uma, ocorrida há já mais de trinta anos, quando após uma tentativa noturna de aterrar num aeroporto de Londres, o avião onde seguia se viu impedido de o fazer por causa da presença de gelo na pista. O que se passou depois, imenso tempo a sobrevoar o aeroporto, nunca cheguei a saber exatamente o que foi, que estavam a limpar a pista, que as que existiam no raio de ação possível ao nosso avião estavam iguais ou piores, que o piloto estava a gastar combustível para uma aterragem mais segura, uma série de hipóteses que nos chegavam pelo intercomunicador ou dali mais perto provenientes de entendidos e veteranos naquelas andanças. O certo é que quando finalmente começamos a descer foi aos trambolhões. Em vez de o fazer suavemente parecía estarmos a cair em buracos de muitos metros e que duravam larguissímos segundos. Mesmo presos aos bancos quase dáva-mos com a cabeça naquele painel que tem as luzes e as saídas de ar. Aquele espanto que penso deve atingir as pessoas quando todas as perguntas ficam sem resposta, estava petrificado no rosto de todos.

Lá fora era a escuridão total, lá dentro um barulho infernal de gritos e de mais não sei o quê que vinha não sei de onde. Quando após pousar-mos aos saltos pista fora, nos olhámos incrédulos de estarmos inteiros foi um tal chorar e abraçar apesar de encharcádos em suor.

 

Todos os dias, a todas as horas, há milhares de aviões vezes centenas de pessoas, cumprindo essa tão antiga e sempre cantada ambição dos homens que é voar. Cada um, salvo rarissímos e infelizes casos, tem uma estória que ficou por contar.

 

Quanto a mim só tornei a ver expressões faciais daquelas pela mão de Spielberg, em A Lista de Schindler, quando pouco depois de ainda perfeitamente distinguíveis pelos artefactos com que se vestiam e enfeitavam, algumas dezenas de judeus, uns quantos até enfadados com a situação, muitos já humildemente a pedir perdão pelo que não tinham feito, foram obrigados a despir-se das roupas e preconceitos, e adivinhando o que os esperava, horrorizados, olharam-se, por uma vez de igual para igual, antes de irem ao "banho". Voltei a entrar naquele avião!


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semtelhas @ 11:46

Dom, 15/07/12

 

Nunca como quando estou em Madrid faz para mim sentido a Teoria da Relatividade de Einstein.

 

É conhecida aquela explicação simplificada da Teoria que compara o que sente uma jovem ao beijar o seu amado ou um desdentado e mal cheiroso velhote, em ambos os casos por um igual período tempo, mas sentindo a duração do mesmo de forma completamente diferente, o primeiro beijo escassos segundos o segundo intermináveis horas.

 

A vida nas grandes metrópoles desenrola-se a um ritmo de tal ordem elevado que o tempo parece acelarar. Há um tão vasto conjunto de coisas a acontecer em simultâneo e que vai ocupando a nossa atenção de forma tão intensa, que acabámos surpreendidos quando olhámos para o relógio.

 

A capital espanhola é uma cidade surpreendente sobretudo por tudo aquilo que conseguimos sentir ao percorrê-la. Mesmo sendo enorme deve passear-se a pé, mas é indispensável deslocarmo-nos de metro entre as várias pontos de interesse da cidade, é impressionante a intensidade e ritmo que se sente por todo o lado. As grandes avenidas de Madrid, e tem muitas, estão sempre delimitadas por magnifícos edificíos sejam os mais históricos, os mais antigos ou os mais recentes, todos igualmente grandiosos e bem demonstrativos da grandeza de uma cidade que já foi o centro do mundo. Na verdade tem isso em comum com, das que conheço, Roma, Paris ou Londres, todas elas capitais daquilo que foram mais ou menos longinquos impérios.

 

Aquilo que este notável burgo tem como elemento mais distintivo é a enorme amplitude de sensações que a profusão de cor, de sons, de cheiros, de formas, de um frenesim sempre presente que nos fazem sentir como que sempre em festa. Situada nesta esquina do mundo onde acaba o exótico e começa o clássico acaba por ter um pouco de ambos, o melhor de dois mundos.

 

Outro dos aspetos bem marcantes é o cuidado que os espanhóis põe em manter a sua capital à frente. Conheço esta cidade há quase quarenta anos e a forma como se tem, mais que mantido colocado na crista da onda, é excecional. Para além da já referida magnificência dos seus edificíos, da constante presença de árvores que lhe dão oxigénio e beleza, da profusão de frondosos e gigantes espaços de convivívio com a natureza, seria mais que redutor, insultoso, chamar ao "Retiro" jardim, resolveram há dois ou três anos, enterrar em túnel, numa fantástica obra de engenharia, a principal via automóvel que atravessa a cidade, libertando-a assim do infernal trânsito, da correspondente poluição e ao mesmo tempo, opção de grande inteligência e sensibilidade, dotá-la de toda uma zona ajardinada de dezenas de quilómetros ao longo do rio Manzanares (é que o mar está a 300Km...). Uma obra gigantesca onde canal acima vão surgindo pontes ancestrais ou ultra modernas, um sem número de zonas de lazer ou desporto, tudo orlado por lindas, vastas e bem cuidadas zonas ajardinadas, etc.,etc.. Um espanto! Começo a perceber porque Barcelona foi destronada do topo das cidades espanholas mais visitadas e Madrid entrou para o top ten mundial.

 

Por falar em topo, estar ali é conviver bem mais perto de algumas das mais badaladas criaturas desta aldeia global, nomeadamente do desporto, ele é o Nadal, o Ronaldo e o Mourinho, o Alonso, os das motas do basquete e do andebol, todos campeões do mundo!, e sei lá que mais!

 

Andar por ali a passear, misturado com toda aquela avalancha de gente tão díspar na sua aparência e tão igualizada pela cultura, no sentido mais amplo do termo, que nos envolve e conduz, do Sol para a praça Mayor (una canha e um bocadilho de jambóm, por fávor) de Atocha (olha! uma feira do livro permanente) para a Granvia, do Palácio Real (ah o mercadillo de S Miguel! uma ilha de excelência ali no meio da confusão!) para a Cibeles, faz-nos sentir cidadãos do mundo, daquele mundo, ali naquele preciso momento, em toda a sua simultânea extensão e variedade em que cada um tenta fazer-se único num grito da importância que é o ato de viver autênticamente, e que resulta magnificamente anónimo num quadro vivo, positivo que se move "pára delante, siempre!".

 

NOTA: Agora reparo, cadê aquela constante presença de muco no nariz e garganta? Onde pára a sensação mais ou menos omnipresente de dor nas cruzes e dobradiças várias do nosso funcionamento? Bendito tempo seco! 

 

  


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semtelhas @ 08:30

Sab, 14/07/12

Como o fazem todas as mães, era a mim que a minha recorria quando era preciso fazer algum pequeno recado por ali, perto de casa. Nenhum me dava mais prazer do que ir ao talho do sr. Coelho.

 

Normalmente havia sempre alguém a aguardar pela sua vez quando eu chegava e me colocava numa das pontas do balcão. O estabelecimento era relativamente amplo e tinha muita luz. Quase toda a parede que nos aparecia pela frente e da qual nos separava um balcão a toda a largura da mesma, era constítuida por portas que davam, ou para dois frigorifícos enormes dentro dos quais o sr. Coelho se deslocava perfeitamente à vontade, ou para umas traseiras que nunca soube como ele as utilizava. Entre esta parede e o balcão haviam uns bons cinco metros, sendo que esse espaço era ocupado, separados por distâncias convenientes ao trabalho, por dois enormes troncos de árvore presos ao chão e sobre os quais o homem trabalhava. Dentro do balcão, numa vitrina a toda o comprimento, chamavam-nos pelo odor os enchidos, chouriços, salpicões, linguiças, etc., por cima, pendurados, numa suave dança que nos hipnotizava, dominavam os presuntos. Como já referi a casa tinha muita luz que a invadia pelas duas enormes vidraças que, para além da porta, constituíam a parte frontal do estabelecimento todo pintado de branco, qual laboratório ou sala de operações.

 

A cliente fazia o pedido e depois era ver o artista a surgir, aparição!, das entranhas dos frigorifícos, ás costas meio boi. Quando o talhante apertava um cinto diabólico de onde pendiam todo o tipo armas mortiferas, facas dos mais variados tamanhos, esquisitos alicates, um sem fim de bisturis, e sei lá o que mais, sabíamos que o espetáculo ía começar. Dali resultavam, como por magia, bifes de lombo, do jarrete e da rabada, carne para estufar e cozer, ou para assar. Os ossos eram lançados, num misto de displiscência e pontaria, para dentro de pequenos baldes que estavam por ali perto, enquanto ía largando uns piropos e uns olhares de macho pela assistência feminina que sentia de água na boca. O brilhantismo com que o homem manuseava os instrumentos, todo ele concentração, energia, força, mas também elegância e gozo, punha-me a mim a pensar que quando fosse grande queria ser aquilo, e, às senhoras, nas maravilhas que aquelas enormes e sabedoras mãos poderiam fazer com outras carnes...

Soube, não há muito tempo, que o sr. Coelho tinha abandonado o mundo das carnes, e das restantes terrenas lides, para ir seduzir para outras dimensões. Dele ficar-me-á sempre na memória uma lição, quando se gosta verdadeiramente do que se faz aprende-se o gosto que há em fazer bem feito e alcança-se o milagre de o conseguir quase sempre.

 

 


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cores da lua @ 20:23

Qui, 12/07/12

 "Um dia, isto tinha que acontecer.

 

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. 

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.  

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

 

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes. Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

 

Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.

Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

 

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.

 

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?"

 

Autor: Mia Couto

 

 


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semtelhas @ 10:11

Qui, 12/07/12

Liberdade ou Morte, grito de guerra dos habitantes da ilha de Creta, é também o título de uma obra do grego Nikos Kazantzákis, um épico em toda a linha, forma e conteúdo.

 

Lendo este livro somos surpreendidos pela semelhança entre a situação vivida pelos cretenses durante um dos vários períodos de ocupação daquela ilha pelos turcos no séc XIX, e aquela que atualmente vive o povo grego. Refiro-me à existência de características tão bem marcadas de um povo, das quais por nada deste mundo abrirão mão, da forma como repetidamente foram utilizados por outros e como por estes foram abandonados quando mais precisavam.

 

Mas este facto não passará de uma coincidência registada pela passagem do tempo. O livro é sobretudo uma maravilhosa viagem pelo modo de vida de otomanos e cristãos durante aquele período naquela ilha. Apesar de pontuais escaramuças, cerca de metade do relato é em tempo de paz entre invadidos e invasores. A descrição das idiossincrasias de cada uma daquelas formas de estar, cristã e muçulmana, põe a nú muito daquilo, quase tudo, que há de comum na vivência dos povos e as razões mais profundas que levam a que se mutilem e destruam mutúamente, o benefício de muito poucos por troca pelo sofrimento de todos. Quando esta clivagem é feita em nome de profetas religiosos, na medida em que mais incompreensíveis se tornam, aumenta proporcionalmente a cegueira dos oponentes, única maneira de, pela enorme dimensão do ruído produzido pelo entrechocar das armas, tentar não ouvir as vozes da consciência que gritam o absurdo que vivem. Por outro lado aquelas páginas também deixem bem claro até que ponto, e a enorme quantidade de pessoas, que só pelos limites impostos pela brutalidade e violência da guerra, se conseguem cumprir atingindo alguns dos mais elevados sentimentos humanos, coragem, pertinácia, fidelidade.

 

O resto, o essencial na verdade, é humor, é sensualidade, é fraternidade, é a natureza através da descrições tão detalhadas que fazem sentir o sol, a neve, os cheiros intensos da putrefação ou do almíscar, ver a beleza hipnotizante da turca, sentir o desespero na suas formas mais lancinantes, aprender com a sabedoria dos velhos, turcos ou cristãos. No fim a sensação de ter somado muitas vidas à vida e acrescentado mais um sólido tijolo na construção deste dique contra a indiferença.


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cores da lua @ 21:47

Qua, 11/07/12

Tenho um fascinio pela técnica da ilustração. Na próxima vida: talvez a experimente.

Gabriel Moreno, ilustrador madrileno, é a minha inspiração. Na próxima vida: ele será o meu mestre.

 

Em 2011, foi capa da prestigiada Illustration Now - Taschen

 

© Gabriel Moreno

 

 


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semtelhas @ 12:51

Qua, 11/07/12

Está em preparação mais uma machadada na já escassa oferta cultural a que temos acesso.

 

Já não chegava ter sido reduzida a quatro canais a possibilidade de vermos televisão sem(?) ter que pagar, desses, dois passarem 80% da sua programação a imitir telenovelas, reality shows e outras chachadas e, dos públicos, um deles gastar-se quase exclusivamente em romarias e concursos cada vez mais aborrecidos, é mais do mesmo há anos até nas pessoas que dão a cara, das quais temos acompanhado o garboso envelhecimento ao longo das últimas décadas.

 

Anuncia-se a privatização de um dos canais da RTP. Está bom de ver que este, uma vez entregue a privados, vai desatar a transmitir o mesmo veneno para arrebanhar do costume. Está a atingir proporções insultuosas esta falta de respeito pelo direito à sanidade mental das pessoas. Depois do crescente encerramento de salas de cinema, de cada vez mais fitas se ficarem pela exibição em Lisboa, o resto é paisagem, do ataque mais ou menos generalizado a tudo o que pode permitir à sociedade refletir sobre a sua condição através da cultura, chega a vez de um ataque frontal ao, até aqui, mais democrático meio de difusão que é a televisão.

 

As privadas que andaram a chorar-se durante anos da concorrência desleal feita pelo canal público, que apesar de tudo tinha que cumprir algumas regras de condicionamento relativa à publicidade, agora deitam as mãos à cabeça na perspetiva de verem mais um canal a viver inteiramente daquela num mercado tão pequeno. Se neste momento já é confrangedor ver e ouvir aqueles autênticos gritos de socorro, desesperado apelo à sobrevivência, que são os anúncios de autopromoção das telenovelas com que, a TVI e a SIC massacram a babosa audiência, a Marléne Cristina está grávida, o menino Pedrinho isto, a Cátia Vanessa aquilo, imaginemos o que vai ser aumentar a parada. As privadas têm que sobreviver, e até estão a criar postos de trabalho, ainda que, maldito ciclo vicioso, alimentando o monstro da ignorância, mas o estado tem obrigação de preservar uma parte deste poderoso meio de influência sobre as pessoas, para ir elevando a capacidade delas refletirem, serem construtivamente criticas e cooperantes na construção de uma sociedade mais solidária. Tal só é possível pela via do esclarecimento, não do entorpecimento. Ou será que o canal a manter público só vai servir como meio de propaganda de quem ocupar o poder, em resultado dessa dança macabra de cadeiras entre os maiores partidos politícos.

 

Pode ser que não, mas ter a liderar o processo um ministro que até agora, não obstante uma nota artística de alto gabarito, quanto à técnica deixar muito a desejar, não augura nada de bom. Ter a conduzir um projeto tão importante como é qualquer um que tenha a ver com a informação e a cultura, alicerces da saúde ou da falta dela de uma sociedade, uma pessoa que fez o que fez (alguém duvida?) a uma jornalista do Público (até tu Carlos Magno!) começa a soar a desaforo e a desafio. Ainda ontem no parlamento o homem dava provas de toda a sua acutilância na resposta, apanágio e alma do chicoespertismo. Sagaz e espertissímo, está ali para as curvas. Braço direito do primeiro-ministro?  Ampute-se, e rápido, caso contrário o contágio é certo.


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cores da lua @ 21:54

Ter, 10/07/12

Em nome da sustentabilidade, contam-se  cada vez em maior número as reaplicações de objectos -neste exemplo garrafas de água, que, supostamente, estariam em fim de vida. O compromisso desejável será produzir menos lixo; até lá este é um bom, até bonito, ponto de partida.

 

  © Sustainable Development (Rio+20)

 

 

 © Garth Britzman

 

 




semtelhas @ 10:31

Ter, 10/07/12

A propósito da descoberta de uma partícula, conhecida pelo nome de quem primeiro a identificou, Higgs, também conhecida como de Deus, reacendeu-se a discussão imemorial da existência ou não deste.

 

Segundo explicam os cientistas a constituição de tudo o que nos rodeia já era conhecida, ou quase tudo porque estava em falta o elemento que dá peso às coisas, a partícula que está na origem da massa que é parte integrante dos elementos. Explico-me, sabia-se que partículas estão na origem deste monitor que olho, deste ar que respiro ou deste gato que me vigia, da sua cor ou da sua  forma, desconhecia-se qual a partícula que lhes dava massa, consistência, peso. Terá sido essa mesma que agora foi descoberta recorrendo a tecnologias inovadoras, revolucionárias, à volta das quais se andava desde há três décadas procurando o que agora parece ter-se encontrado.

 

 

Do ponto de vista cientifíco, a confirmar-se que o que se encontrou é o que Higgins tinha identificado como o que faltava para completar o puzzle daquilo de que é constituído o universo, leia-se tudo o que nos rodeia, então, mesmo um leigo pode perceber a importância que adquire desde logo a confirmação de toda uma teoria que estava construída para trás, independentemente da sua validade final. Certo é que enquanto não se chegasse a este ponto toda a sua construção estava em causa. A confirmar-se este fechar do circulo é legítimo pensar que se deu um grande passo em frente. Mas não hajam ilusões, aquilo para que irá servir acima de tudo, é para que outros circulos se abram, outras dúvidas se instalem. A única coisa verdadeiramente adquirida é que o percorrer estes caminhos atrás de soluções para as questões que se vão sucedendo proporcionam avanços cientifícos que modificam decisivamente, geração após geração, a forma como os homens vivem as suas vidas terrenas, aquelas que conhecemos, ou melhor, julgámos conhecer. Toda e qualquer tentativa de dimensionar aquilo a que se convencionou chamar universo não faz sentido, todos o sentimos ainda que não saibamos explicar porquê. É notável o esforço da curiosidade humana, em boa parte consubstânciada no espírito cientifíco, existente desde sempre ainda que diferentemente nomeado, nessa procura que tem resultado numa cada vez mais confortável existência terrena, mas falar em só conhecermos 4% do universo, que faltam os outros 96 é a exposição ao ridículo.  Como acabam sempre por ser as posições dogmáticas, confrangedoras tentativas de limitar o ilimitável. X% de quê? Alguém sabe verdadeiramente do que está a falar? Num determinado momento houve um big-bang que deu origem à matéria e a algo que convencionou chamar-se universo. E o que havia antes do antes? E o que haverá depois de uma eventual depois? Explicar o inexplicável, usem-se os códigos que se usarem, palavras ou números será sempre tarefa de dimensões infinitas. Seja isso o que fôr.

 

Chamar partícula de Deus ao que se descobriu é uma manobra de marketing associada à ideia de que, uma vez percebida e confirmada a teoria da constituição do universo está tudo explicado, não sendo portanto mais necessária a crença em algo que preenchia os espaços criados pelas dúvidas agora desaparecidas. Digamos que Deus está dispensado, deixou de ser preciso. A dimensão do sofisma é quase tão grande quanto a persistência da nossa ignorância sobre a existência, ou a consequente necessidade de manter os espiritos abertos à duvida, chame-se-lhe religião, filosofia ou arte. Por enquanto a única (lamento as grilhetas sensíveis na utilização do termo mas uso-o como simples ferramenta) forma de manter uma certa tranquilidade de espiríto ainda é mantê-lo aberto a todas as possibilidades, livre de voar em todas as direções, sem quaisquer limites, até ao infinito. O futuro ao desconhecido pertence.

 

Ouvir da boca de um cientista que a ciência estuda o céu e a religião ensina o caminho para lá chegar, ou da de um filósofo que, quando um pintor reproduz uma flor ou um rosto na tela, o que lá aparece e sentido por quem observa é algo mais do que aquilo que os cientistas poderiam decifrar, é a confirmação que esta salutar e nuclear dúvida persiste e que, em consequência, o mundo continuará a evoluir através desta incansável confrontação na procura de respostas.

 


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semtelhas @ 12:23

Seg, 09/07/12

Nada contra, aliás sinto-me imbuído, mesmo possuidor (ninguém se faz...) do espiríto dos ditos, mas haja quem os ponha no seu lugar.

 

O nosso primeiro, merceeiro mor, fez-se rodear de uns quantos marçanos e de pelo menos dois catedráticos na arte de "acartar para casa", ou "pica-chouriços", como eram apelidados aqueles especialistas do roubar na balança e usurários do "livro", desgraça mas também salvação de tantas familias, dependia do nível de mesquinhez do artista. Refiro-me ao Gaspar e ao Macedo (belo nome para uma mercearia fina, hoje também conhecidas por Corretoras de Valores, Gaspar & Macedo).

 

 

Se um até poderá vir a revelar-se rei, oxalá mago, no seu reino, já o outro parece estar a cair em desgraça. Onde pára o brilho e a segurança do então infalível e supereficiente diretor geral das finanças? Aquela secura nas respostas, aquela suficiência que modestamente esconde genialidades? Será que o rei vai nú? Acontece que agora tem que convencer uma clientela com muito mais poder e cultura. Foi-se a vantagem de falar de cima e sobretudo a superioridade intelectual sobre o interlocutor. Desta vez quem pode valer-se da fragilidade dos utentes são os clientes do sr. ministro, os quais vão dando mostras de poderem ombrear com aquele em magnificência na arte de esgrimir a espada contra pessoas mais expostas, desta feita na mais triste e desprotegida situação em que se pode estar, doente. Digamos que houve uma transferência da excelência revelada pelo magnifico diretor geral dos vinte mil euros mensais, e como eles eram merecidos, escassos até, para os não menos brilhantes senhores doutores médicos (salvo a terrível injustiça que é esta generalização) os quais, ainda que menos, continuo a ver impantes, imparáveis na sua ofuscante luz, a desfilar a sua superioridade pelos corredores dos hospitais e centros de saúde, onde imperam muitas vezes não pelo que deviam, sabedoria, espiríto de missão e humanidade, mas valendo-se da fragilidade de quem, na maior parte dos casos já quase sem nada, perdeu o que de mais valioso tinha, a saúde. Ou então, milagre da transformação!, nos seus consultórios particulares, onde se desfazem em simpatias e cordiais conselhos mostrando, mais uma vez, grande capacidade em competir com o Macedo, agora na arte do sacar. Na realidade este mais os piores daqueles, tendo tanto em comum, só podem fazer parte da mesma fauna. 

 

Escrevendo  ao som do 2º concerto para piano de Rachmaninoff, pergunto? Como o conseguir esta coexistência? Uma parte de mim nas escuras profundezas do miserabilismo e da mesquinhez, a outra a levitar nas alturas da harmonia e da clarividência. Os pés bem assentes na terra, a cabeça na lua. A eterna procura do equilibrio entre os lados lunar e solar da existência. Como? Só recorrendo aos autênticos catalisadores da vida que são estes homens e mulheres trabalhadores incansáveis no trazer à superficíe a beleza que, mesmo escondida, em tudo e em qualquer circunstância, pode ser encontrada. Abençoado compositor!

 

 


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semtelhas @ 12:01

Dom, 08/07/12

É um termo que tem vindo a vulgarizar-se porque, em boa verdade, hoje, com a enorme quantidade de informação que temos ao nosso dispôr a qualquer momento, não é fácil idolatrar alguém. Por isso, ao contrário do que sucede, deveríamos utilizar cada vez menos o termo ídolo e substituí-lo por qualquer outro mais aplicável ao que de facto sentimos por uma pessoa, admiração por exemplo. Também as palavras estão a cair na ratoeira da banalização global e globalizante numa espécie de atração para um abismo, vertigem que nos faz cair num discurso igualizante, liso, superficial e profundamente entendiante que só poderá conduzir à mediocridade.

 

Ainda há pouco tempo saiu um livro onde eram relatados "os podres" de alguns dos mais conhecidos escritores da história. Como tendemos a construir uma determinada imagem daqueles que mais (ou menos) gostámos, foi para mim chocante saber que o grande Tolstoi tinha por hábito bater na mulher, ou que oitenta por cento do conteúdo das páginas escritas pelo intrépido aventureiro Hemingway foram invenções escritas num confortável quartinho nas caraíbas, estas entre outras informações sobre outros escrevedores, algumas das quais bem mais escabrosas.

 

É portanto com a perfeita noção do risco que corro, que ouso afirmar ser Roger Federer um dos mais extraordinários ser vivos que tive a felicidade de conhecer.

 

 

Independentemente do resultado que ele vier a conseguir mais logo, quando defrontando Andy Murray na final de Wimblebon, se pode tornar estatísticamente o maior tenista de todos os tempos, até porque para muitos já o é, este autêntico paradigma da imagem que temos do relógio da Suiça, sua terra natal, é uma pessoa que quase apetece idolatrar.

 

Mais do que a quase perfeição do ténis que pratica penso que o segredo, nele natural, como não podia deixar de ser, é a incomparável força mental para resistir à adversidade, a correção da postura e o respeito demonstrado pelo adversário e pelas pessoas em geral, seja nas vitórias seja nas derrotas. Aquela capacidade de se afirmar positivamente na forma como interpreta o jogo, fazendo-o quase sempre abertamente ao ataque, enfrentando olhos nos olhos os adversários, de peito aberto, com aquela franqueza, dignidade e nobreza dos verdadeiramente grandes campeões, aqueles que a história não esquece. Até pela natureza da sua humildade, a dos que têm a noção de ter nascido e crescido com o previlégio de escolhidos e, por isso mesmo, com a obrigação de resistirem à arrogância que os tenta como da sua própria sombra se trata-se. Inesquecível a forma como chorou copiosamente a derrota durante uma cerimónia de entrega dos troféus de um torneio ainda recentemente.

 

Curioso como quando procuro na memória alguém por quem tenha sentido tão grande admiração neste mundo da competição desportiva, só encontre Airton Senna. Sintomático. O mesmo enorme coração na frontalidade e no risco, a mesma incomparável competência e a semelhante postura contida, a humildade dos campeões. Espero e desejo que hoje Federer não se despiste numa curva qualquer, mas se acontecer acredito que ainda lhe restará tempo para recuperar o que, caso ganhe, o recolocará pela terceira, e desta, definitiva vez naquele que perdurará para sempre na história como sendo o seu lugar, o primeiro.


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semtelhas @ 11:43

Sab, 07/07/12

Passaram ontem na RTP2, um a seguir ao outro, dois programas que dão da afetividade duas imagens completamente antagónicas.

 

O primeiro trata-se de uma daquelas séries que os americanos produzem tipo telenovela semanal, mas com uma qualidade, alcance e profundidade a anos-luz dos tradicionais folhetins televisivos, diría mesmo nos antípodas, já que onde aquelas despertam estes adormecem. Trata-se de "No Limite", série baseada numa mais antiga, inglesa, que já passa na SICRadical há uns anos. Nela a questão da afetividade é abordada de uma forma bastante ficcional pretendendo assim tornar mais clara a mensagem, acima de tudo a autenticidade dos afetos. A interação entre os membros de uma família e desta com a comunidade, todos eles razoávelmente feios, porcos e quase todos bons, onde ao longo de mais ou menos recambolescas estórias se vão desmontando, um a um, todos os preconceitos da sociedade atual, consumo, sexo, aparências, família, religião, trabalho, etc., etc., por vezes algo violentamente (tem bola vermelha), sendo que no fim sempre tudo acaba bem em nome desse valor mais alto que é a defesa da verdade e do amor fraternal.

 

O segundo foi sobre a vida sexual dos japoneses e toda a sua envolvência. Parece que aquela gente cada vez pratica menos sexo uns com os outros, sendo que a industria do mesmo floresce a olhos vistos, incidindo e por causa do facto de o fazerem cada vez mais com eles mesmos. Então é ver toda uma robusta indústria dos mais eficazes artefactos de autosatisfação sexual para ela e para ele. O mais impressionante será uma boneca que cada ano que passa se vai tornando mais humana, a ponto de estar previsto que dentro de um ano passe a imitir sons relacionados com o prazer. Dizia o narrador que à medida que as bonecas se vão tornando mais humanas, as mulheres mais se parecem com bonecas, incluindo a óbvia frigidez destas. Por outro lado acompanhámos um homem através das suas deambulações por aquele enorme universo comercial do sexo, que confessava já não ter disponibilidade fisíca nem mental para dar seja o que fôr a uma companheira, só quer receber e tem como único obetivo a ejaculação. Ou seja a procura do prazer animal, só, à semelhança de qualquer outro animal irracional. Estranho este excesso de racionalidade que leva à irracionalidade. Nos casais a prática do sexless (ter relações sexuais uma vez por ano, ou ainda menos) é cada vez mais comum, os rapazes cultivam o culto da personalidade a níveis impensáveis, apaixonam-se por eles próprios autosatisfazendo-se em todos os sentidos. Aquilo acabou e dei comigo a pensar, como é possível? Aquela sociedade levou o espiríto samurai de exigência e perfeição ao limite, aqueles sim, é que estão no limite. Uns mais outros menos, todos acabaram por admitir uma dificuldade enorme em dar ou receber afeto, pura perda de tempo num mundo tão exigente e no qual todos têm, absolutamente, que vencer. Assustador.

 

 

Como é costume o ideal estará algures ali pelo meio, entre aquela louca anarquia, totalmente libertária, onde triunfa o amor mas também a mediocridade e a pobreza será, muito provávelmente o destino final, e, por outro lado, o brilho, a limpeza assética, a eficiência, mas igualmente a frívolidade, o vazio e a indiferença que concerteza conduzirão a uma espécie de vida vegetativa não assumida, a não ser no crescente número de suicídios. Apesar de tudo há muita vida entre estes dois extremos.


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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