semtelhas @ 13:14

Qua, 16/05/12

Ao contrário do costume, ao longe, não um ponto mas uma mancha colorida, deslizante. Já mais perto percebo tratar-se de um grupo sui generis, algo irregular na forma como se movimentava. Era um grupo de pessoas com problemas mentais e assistentes.

 

Primeira questão, quem é quem? Os extremos tocam-se. Nuns os olhos vazios, os membros bambuleantes, a baba pendurada e os movimentos ora esquecidos, ora bruscos. Nos outros o desapego no olhar. Não a indiferença, irmã da insegurança, mas aquela distanciação que nasce da rejeição de qualquer tipo de frívolidade, da concentração absoluta no essencial.

 

Vejo, de relance aquelas criaturas que ferem o vulgar conceito e estética e sinto vergonha, pessoal e alheia. Estará esta gente mais próxima da resposta? Que mundo será aquele onde vivem? Que tipo de infinito questionam?

 

Há pessoas que só se realizam protegendo todos e tudo quanto as rodeia. Não explicará tudo mas esta parece-me ser condição indispensável para cumprir a tarefa exigida a estas pessoas. Só depois a teoria dos livros e a prática de um trabalho de uma dificuldade, para o comum dos mortais, acima de qualquer outra, estabelecer e sobretudo manter, limites para a loucura.

 

Infinita a admiração por estas pessoas. Não terei a ousadia, idiota, de as considerar melhores ou piores que todas as outras. São valiosas, preciosas pela sua raridade. Também por isso deviam ser avaliadas e mais respeitadas.


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semtelhas @ 15:39

Ter, 15/05/12

Já há muito que não ouço uma frase que recordo com saudade, o jardim da fábrica.

 

Em tempos, infelizmente cada vez mais remotos, aquela expressão remetia para uma certa sensação de harmonia, prazer e sensibilidade. Talvez também fizésse acreditar numa espécie de perenidade. Uma vezes honesta e sinceramente, outras nem tanto, quem mandava , ou era o proprietário da empresa, através de um jardim carinhosa e impecávelmente tratado passava uma ideia de prazer de fazer bem feito e, mais importante, de segurança. Não importava a dimensão mas sim o local, à entrada, primeira impressão, e o estado de conservação.

 

Também numa casa particular o jardim pode ter um efeito retemperador. Neste caso tratar dele. Primeiro a limpeza, arrancar pela raiz as ervas daninhas, tirar as  folhas secas, flores murchas, caules velhos, excesso de rebentos, ou ladrões, etc. Depois a tesoura, podar a roseira, cortar as estrelicías estragadas, compôr as margaridas. A seguir, o mais demorado, cortar a relva. Durante todo o processo vários espetadores atentos, o gato na janela, os pássaros atentos ás sementes libertadas, e as sardoniscas e demais bicharada em estado de alerta na expectativa de uma retirada de emergência. No fim, cinco minutos de contemplação, a relva lisinha, as sardinheiras brancas, laranja, vermelhas, limpas e felizes, as margaridas dançantes e as rosas vaidosas. Depois é sair, que os pássaros, impacientes, querem entrar.

 

 

Para o fim os jardins mais importantes, os públicos, essenciais para o bem estar das sociedades. Também eles, como nas empresas e nas casas, possíveis espelhos de uma vila, cidade e mesmo, porque não? de um país. Muito se tem dito, de todas as formas, sobre a maneira como os dinheiros públicos têm sido utilizados. Nomeadamente pela autarquias. Independentemente das razões que os moviam, propaganda ou preocupação com a qualidade de vida, a verdade é que qualquer semelhança, sobre o ponto de vista urbanistíco, entre o país hoje e o de quinze ou vinte anos atrás é pura coincidência. De norte a sul, no litoral e no interior, desde a mais remota vila, mesmo aldeias, até às maiores cidades, pude constatar uma renovação excecional. Dir-se-á que a fatura será alta mas, aqui, pelo menos vê-se a obra. Estradas novas, casas por estrear e recuperadas e jardins. Muitos e bonitos. Não raras vezes observei as equipas de jardineiros a trabalhar. Por todo o lado. No Porto, local que melhor conheço, é notável o número e quantidade e com qualidade, de espaços verdes. A começar por um dos maiores parques de cidade da europa, passando por Serralves ou o palácio de cristal até ao mais modesto canteiro.

 

Muitas coisas estão mal em Portugal. Mas muitas outras estão francamente melhor. A qualidade dos espaços comuns a todos nós é essencial para aumentar a nossa auto estima enquanto povo. Neste caso temos razões para nos sentir-mos orgulhosos. 

 

NOTA: Já depois de publicado este texto alguém me lembrou aquilo que eu, por egoísmo, esqueci, então e os jardins interiores que amenizam a vida de quem mora em apartamentos? Tudo o que atrás ficou escrito mas aplicável a milhões!

 

 


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semtelhas @ 12:41

Seg, 14/05/12

Frank Sinatra. New Yorque, New York. Liza Minelli e o filme. Música de filmes.

 

 

Tudo começou com Disney e as músicas encantatórias da banda desenhada, aprender a escutar. Depois os filmes de cowboys, os instrumentos da orquestra a crescer em número e intensidade à medida que a encosta se ía enchendo de índios ou então,  Aconteceu no Oeste e o som de uma gaita de beiços para sempre ligada a Henry Fonda e Charles Bronson. As primeiras paixões embalado pelas músicas do coração, Edelweiss, Edelweiss, e Goodbye Mr. Chips com Petula Clark. As primeiras óperas rock, Tommy com os de Who de Roger Daltrey e Jesus Cristo Superstar, I have thirty seems like ninety, seems like ninety...Ainda antes da violência o suspense dos violinos de Psico, Os Pássaros e Hitchcock. Então sim, Copolla, O Padrinho, Apocalypse Now com The End, Doors no seu melhor, e, não esquecer o Caçador, I love you baby. Ainda Francis a abrir a porta ao jazz com Cotton Club. Logo seguidos de Cabaret, outra vez Lisa e, os muito mais recentes Delovely, sobre o grande Cole Porter ou Chicago. Recordo agora, muito atrás, Fred Astaire, os filmes americanos a preto e branco, as séries, Bonanza, Lassie...

 

Faltaram os filmes franceses, Yves Montand, Charles Trenet, que rest t il de nos amours? Os italianos, tantos! Gianni Morandi, non son degno di te, Cinema Paraíso, os temas dos filmes de Fellini, Trinitá, o cowboy insolente, os temas de Sérgio Leone e as suas caboiádas spaghetti, as inesquecíveis bandas sonoras de Visconti...enfim, faltou tudo. Ou quase. Porque Tarantino não pode escapar, deste são todos, Kill Bill, Jackie Brown, Inglorious Bastards e o percursor, e ainda maior Pulp Fiction.

 

Há mais vida para além do medo.


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semtelhas @ 12:21

Dom, 13/05/12

Líderar a governação de um país nos dias que correm, sobretudo se o país em causa não tiver nenhuma mais valia de que se possa valer, riquezas naturais, dimensão, ou caracteristicas intrinsecas dos seus habitantes, fruto seja lá do que fôr, de serem particularmente disciplinados ou disciplináveis (?), deve exigir, logo à partida, uma de duas naturezas dominantes, ou uma total falta de responsabilidade, ou uma coragem e vontade fora do comum, quase a roçar a arrogância. Penso ser esta última a verdadeira natureza do atual e anterior primeiros ministros de Portugal.

 

 

No caso de Sócrates essa força era manifestava de uma forma extrovertida. Penso ser abusivo e até injusto, confundir entusiasmo, empreendedorismo, capacidade de risco, com irresponsabilidade. É certo que as fronteiras são ténues mas acredito que a vontade mais funda era procurar saídas através do investimento, do crescimento. Ou seja acreditando, de um forma positiva, ser essa a única saída possível. Ainda agora, a propósito do mais recenta encontro entre os pm's de Portugal e Espanha, e revendo os discursos feitos por Sócrates e Zapatero na anterior, estes diziam, plenos de convicção (em 2008), que a solução era o investimento, a criação de empregos, e não a diminuição dos direitos sociais ou a estagnação da economia. Quantos discursos semelhantes temos ouvido nos últimos tempos de eminentes figuras da politica e da economia por esse mundo fora?

 

Passos Coelho põe em prática a sua inegável crença nos seus principios no sentido oposto. Conservador por natureza, junta-lhe uma visão profundamente tecnocrática da sociedade. Tende a analisar tudo à luz dos números e das estatisticas. Acredita que foram cometidos excessos e que só é possível sair do beco recuando, procurando caminhos alternativos. Para ele não há profissão  fé, crença ou entusiasmo que nos faça saltar o muro. Tal só é exequível passo a passo. Primeiro arrumando a casa, levando tudo ao são, tal como diz, custe o que custar, para depois reconstruir em bases sólidas.

 

A resposta continua por encontrar. Na verdade é um voltar às velhas guerras entre o conservadorismo e o liberalismo. E é uma questão global, ainda que em fases distintas consoante o local a analisar. Talvez Sócrates tenha aparecido no ciclo errado, ou acabou apanhado em contraciclo. Talvez falte a Passos Coelho aquela capacidade de perceber que hoje, em muitas áreas, muito se joga no que está para além dos numeros, na capacidade de entusiasmar, transmitir positivismo, auto estima. Os avisos, os recados, devem ficar para os segundos. As pessoas precisam de sentir que se acredita nelas, enquanto grupo, ou povo, enquanto conjunto cultural. Compete aos mais responsáveis constituírem essa reserva. Ou vamos acreditar num presidente da republica que se sente em dificuldades ganhando mais de 10000€ por mês, num país em que mais de 50% auferem menos de 400€/mês? Para bem de todos, haja alguém que o alerte.


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semtelhas @ 11:56

Sex, 11/05/12

Quis o acaso que, no mesmo dia, tenha acabado o livro, Gente Independente, de Haldór Laxness, e visto uma versão cinematográfica de, O Monte dos Vendavais, de Emily Bronté.

 

Apesar de terem muito em comum, a relativa aproximação temporal e local do desenrolar das estórias, o tipo de ambiência rural e pobre, mesmo divergindo no tema central, um o amor o outro a independência, há um ponto em que a confluência é total, os limites absolutos a que é levado o sentir dos personagens.

 

Justamente emparceiradas com mais meia dúzia de obras, são consideradas as principais do séc. XX. Tarefa ciclópica e injusta esta de deixar para trás tantas outras. Uma utopia. Ainda assim não deixa de ser significativo.

 

No caso do filme assiste-se a uma competente condensação daquilo que é essencial no livro, o que normalmente se tenta nestes casos mas nem sempre se consegue. O amor no seu estado mais puro, irracional, louco e arrebatado, de um lado e, do outro, profundo, sofrido e impossível. Uma velha estória, já muita vezes contada, raramente da forma pungente como Emily Bronté o fez. Também o filme se sai muito bem nesta tarefa de transmitir  na tela um das mais trágicas estórias na história da literatura. O desempenho dos protagonistas, tanto enquanto crianças quanto como adultos é irrepreensível. Quase podemos sentir a dor que lhes martiriza a existência. Uma experiência inesquecível.

 

Gente Independente é por muitos considerado, O Livro. A saga de um homem pobre, na Islândia do inicío do séc. passado, percurso incansável contra tudo e contra todos, com o objetivo único de nunca depender de ninguem ou a alguém ficar a dever fosse o que fosse. Sacrificando tudo quanto o rodeia em nome de uma inquestionável e inquestionada independência, a vida deste homem torna-se no inferno, na sua versão mais autêntica. Durante a leitura deste livro podemos experimentar as sensações mais enraízadas da natureza humana, o medo, o riso, o ódio, o amor, a vingança ou o perdão.

 

Tal como no filme, também este livro nos deixe com uma sensação de abandono, até alguma desolação perante este quadro, se olhado bem de perto, atentamente, diante este cenário em que nos movemos e a que chamámos vida. É nestes momentos que assume maior importância perceber que, mais importante que atingir o cume da montanha, é a forma como percorremos o caminho na tentativa de o conseguir.

 

 


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semtelhas @ 14:05

Qua, 09/05/12

Ouve-se a música, apreciam-se as vozes e compreende-se haver ali um lamento, o desespero, a fugaz alegria breve, logo seguida da angústia provocada pelo medo ou pelo ciúme. É isto a ópera. Incomprensíveis textos, na maioria dos casos, mas também uma viagem a um mundo encantado, onde habitam os excessos da paixão.

 

Cinco quilómetros. Dez minutos de rotina transformados na tal viagem. Nas asas de La Bohéme, de Puccini e o tema, Sim Chamam-me Mimi.

 

O milagre da transformação. Onde haviam loucos e assassinos na estrada, passam a haver cansados velhotes, inseguras senhoras e travessos jovens. Os buracos e a falta de sinalização? A intempérie não tem dado tréguas e, atendendo à crise as condições não são nada más. Como não compreender os peões distraídamente pelo meio da rua caminhando ou fora das passadeiras atravessando? Nos dias que correm como é que as pessoas podem ter a cabeça assente? A paisagem, para a qual normalmente nem olhámos, torna-se quadro impressionista, carregada de cor e significado. Volubilidade? Não. A força da Arte.

 

Tive a felicidade de assistir ao vivo a algumas óperas, e de ter visto e ouvido por outros meios muitas outras. Um teatro cantado sobre cenários magnifícos, pleno de ingenuidade e crença. Passagem para o mundo da fantasia. Lembrar-me das melodias de Tanhauser ou Tristão e Isolda, de Wagner, de tantas de Verdi, mas talvez especialmente de Nabucco, da maravilhosa Carmen, de Bizet e, das muitas de Puccini, muito especialmente de Madame Butterfly, remete-me para um universo onde até nas tragédias há beleza. É isto a magia da música.  

 

 

 

 


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cores da lua @ 21:01

Ter, 08/05/12

 

 

Patrick Watson

LIGHTHOUSE

Leave a lighthouse in the wild,
Cause I'm coming in
A little blind
Dreamer of a lighthouse in the woods
Shining a little light to bring us back home
Or to help us get back into the world

When to find you in the backyard,
Hiding on the ceilings of our lives OR Hiding behind all, all busy lives
Dreaming of a light house in the woods
To help us get back into the world

Cause I know
I've seen you before
Won't you shine
A little light
On us now

Won't you shine a little light
In your own backyard
Won't you shine a little light
In your own backyard

Dreaming of a lighthouse in the woods
Dreaming of a lighthouse in the woods 

 

Patrick Watson
THE GREAT ESCAPE

Bad day, looking for a way,
home, looking for the great escape.
Gets in his car and drives away,
far from all the things that we are.
Puts on a smile and breathes it in
and breathes it out, he says,
bye bye bye to all of the noise.
Oh, he says, bye bye bye to all of the noise.

Doo doo doo doo doo noo noo
Doo doo doo doo doo noo noo noo noo
Doo doo doo doo doo doo doo
Doo doo doo doo doo doo noo noo noo

Hey child, things are looking down.
That's okay, you don't need to win anyways.
Don't be afraid, just eat up all the gray
and it will fade all away.
Don't let yourself fall down.

Doo doo doo doo doo noo noo
Doo doo doo doo doo noo noo noo noo
Doo doo doo doo doo doo doo
Doo doo doo doo doo doo noo noo noo

Bad day, looking for the great escape.
He says, bad day, looking for the great escape.
On a bad day, looking for the great escape,
the great escape.

    


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semtelhas @ 11:38

Ter, 08/05/12

Neuropotenciação, manipulação genética, instrumentalização do genoma, dissecação das funções cerebrais, etc.. Foi destas matérias que falaram Alexandre Castro Caldas, neurocientista, e João Almeida, diretor da antena 2. O que disseram é, no minímo, surpreendente.

 

Cada vez há mais pessoas a recorrer a drogas que permitem uma maior capacidade de concentração, durante mais tempo. Neste domínio quem mais ordena é o mercado. Não obstante se estar longe de saber os riscos inerentes à utilização de fármacos que neuropotenciam as pessoas, toda a máquina envolvente deste negócio cresce exponencialmente, deixando em aberto a possibilidade, real, do surgimento de problemas desconhecidos e, consequentemente, sem solução. Em contra ponto, alguns dos principais maleficíos que esta questão pode trazer, como a depressão ou parkinson, já são passíveis de ser tratados, interna ou externamente, através da admnistração de choques elétricos. Não curam mas minimizam o sofrimento. A doença, essa, continua a avançar.

 

Na tentativa de resolver um problema de fala, comum aos membros de uma familía, cientistas descobriram qual o gene que estava alterado. Posteriormente experimentaram uma possível cura num rato. Resultado: o bicho desatou a comunicar desenfreadamente... na sua própria linguagem. Para já.

 

Desde que se completou o genoma humano, há menos de meia dúzia de anos, naquilo que foi uma das principais descobertas da humanidade, a utilização comercial deste facto tem sido de tal ordem que, hoje nos Estados Unidos é possível a qualquer pessoa conhecer o seu por cerca de dez mil dólares. Qual a probabilidade de ter esta ou aquela doença, quando, várias caracteristícas do corpo, etc.etc. E depois, vive-se como? Debaixo de que expectativas?

 

Já se consegue dobrar o tempo de vida da mosca do vinagre. Por manipulação genética. Sabendo nós que este continua a ser, talvez, o principal sonho de cada um de nós, viver eternamente, não custa muito a acreditar que, neste preciso momento, muitos estudiosos estejam a tentar aplicar a receita da mosca aos humanos. Quanto ao custo de um eventual sucesso, nem é bom pensar.

 

Onde fica a ética médica no meio disto tudo? Ninguém tem, pode ter, certezas absolutas. Afinal, fruto da constante evolução, o que não é ético hoje, amanhã pode sê-lo.

 

Entretanto muitas coisas positivas se vão fazendo, descobrir a zona do cérebro que comanda a aprendizagem da escrita e da leitura, para mais cedo as crianças aproveitarem destas valências fundamentais ao seu desenvolvimento. Descodificar o máximo possível as zonas que coordenam o sono e o período de vigília, para permitir aumentar o tempo de descanso das pessoas, condição fundamental ao seu bem estar, etc..

 

A evolução é imparável e ainda bem, deve, no entanto ser vigiada, o passado pode prová-lo. Talvez esteja chegado o tempo de, como diz o cientista, quando alguém o consulta pedindo-lhe algo para combater o cansaço, ele responde: vista o pijama.


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semtelhas @ 13:36

Seg, 07/05/12

Ford, Ford Perfect, ou, como nós dizíamos, préfécte.

 

 

Corriam os últimos anos da década de sessenta quando a familia teve o primeiro automóvel. Verde musgo, estofos creme e quatro velocidades, três para a frente e uma para trás. O que mais me ficou na memória foram os imensos cromados, não tanto pelo brilho e beleza que deles imanavam, o que era uma realidade,  mas sobretudo pelas intermináveis sessões de polimento, resmas de jornais, religiosamente, qual missa, todos os domingos de manhã. Agora que penso nisto recordo os koni, amortecedores vermelhos, os melhores do mundo e a buzina. Quem nos ouvia ficava sempre à espera de um comboio ao virar da esquina. O meu pai deve ter sido o primeiro fanático do tuning. Tudo quitado.

 

Aquilo parecia um tanque de guerra. Lembro-me de ficar inconsolável ao vislumbrar um arranhãozito no pára choques, pura e simplesmente ignorando, mesmo desprezando, a outra viatura que estagiou mais de uma semana na oficina.

 

Foi neste maquinão que fizémos a nossa primeira viagem ao algarve. Toda uma aventura! Só os preparativos arrastaram-se ao longo de meses.

Desde as viagens aos arredores do Porto, indispensável tirocínio, passando pela rigorosa preparação dos variadissímos componentes substitudos para eventuais avarias e contratempos, até a uma panóplia de mapas, sobre os quais passámos debruçados vários serões. A propósito destes passeios iniciais recordo um particularmente agitado a Rio Meão. Saímos de madrugada, afinal sempre eram mais de 30km! e outro tanto para cá! Mas foi precisamente a meio da jornada que o inesperado aconteceu. Após uma paragem, e quando pretendíamos iniciar a viagem de volta, o carro não andava! acelarava, acelarava, mas mexer-se, nada. Tal qual mula teimosa. Caiu-nos tudo ao chão. Só após aturadas e demoradissímas deligências dos sabedores olhos paternos se desbloqueou o problema, destravar o travão de mão.

 

Foi há pouco tempo, assistindo a uma série televisiva, que me apercebi de como estes episódios eram relativamente comuns naquele tempo. Um misto de ingenuidade, descoberta, submissão, satisfação controlada. Ao comparar com os dias de hoje, para além da nostalgia, sobra uma sensação de autenticidade, longe do efémero de que quase tudo hoje enferma.


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semtelhas @ 14:40

Dom, 06/05/12

Como pode ser mobilizadora a procura da excelência, o profissionalismo, a demonstração de vontade, a incansável luta contra a maledicência e a mediocridade, o constante esforço contra a (ainda) menor dimensão perante o adversário, a defesa de uma certa maneira de ser e de estar de um conjunto de pessoas num espaço de vivência comum.

 

Como há pessoas que, como que escolhidas pelos deuses, são dotadas de talentos naturais que as torna ímpares nas suas ações, adoradas e objeto de todas as imitações e motivo do movimento de multidões no seu encalço, desejosas de as ver, tocar, verdadeiros super heróis.

 

 

Como uma celebração pode ser magnifíca, a um tempo vibrante e tranquila, alegre e calma, segura e ansiosa, expectante e explosiva. Sensações que só o genuíno e leal confronto pode oferecer, proporcionando momentos beleza únicos como aquele que é o de, na escuridão, milhares de flashes cintilarem tal qual estrelas num universo sem fim, que somos nós, origem e destino.

 

Como é compensadora a sensação de fazer parte de uma ideia vencedora, de um projeto que se vai cumprindo, ao longo de décadas, e que vem resultando numa empresa de sucesso global, inigualável tendo em conta as várias realidades em que está inserida. Como é sempre certo, no tempo, no conteúdo, na envolvência, o momento de exaltação das vitórias. Que maravilhosa sensação de perfeição no encaixe de todas as peças, do climax tranquilo na observação da obra pronta, formidávelmente acabada.

 

Como se pode pressentir, desde já, o sucesso no futuro que aí vem. Eram diamantes mas estavam escondidos, gente sábia foi capaz de os descobrir e lapidar. Hoje valem milhões. Uma estória que se repete, fazendo já história. Partem felizes e realizados, levando para sempre no coração, reconhecidos, para sempre ligados ao intenso brilho dos momentos que aqui viveram, a quem os deu a conhecer ao mundo. Na forja já outros para continuar a cumprir este destino. Cada vez são mais! Assim se conquista as gerações futuras e se fazem os campeões.

 

     F. C. PORTO 2011/2012    


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semtelhas @ 13:41

Sex, 04/05/12

Campos da Morte é um filme que pertence a, digamos assim, uma familia de que fazem parte, alguns capítulos de livros de Roberto Bolano, nomeadamente 2666, da principal obra de Stieg Larsson, em particular de Os Homens que Odeiam as Mulheres, o qual já deu um bom filme, ou filmes como Eu Vi o Diabo.

 

Tal como todas estas obras este filme aborda a questão da violência sobre jovens mulheres. Também neste caso há uma maldade intrinseca, sempre presente, quase inexplicável. Sendo percetivel algum cariz sexual nos ataques que estas raparigas sofreram (o filme baseia-se em factos veridicos), sente-se que o que ali se passou foi muito para além disso. Tal como a cidade de Santa Teresa para Bolano, aqui há um lugar, uma cidade texana, onde o mal está de tal forma entranhado que as pessoas não o praticam enquanto tal mas como de algo normal se tratasse. Daí até à perversão é um pequeno passo. As vitimas são, naturalmente, onde está presente a fragilidade mas, sobretudo, a beleza, o convite ao amor, a punção para a vida. Em suma tudo aquilo que apela ao lado solar da existência humana. E o que melhor espelha esse sentimento como, em geral, e no caso do filme em particular, uma jovem de 13/14 anos, belissíma, a despontar para a vida em todas as suas vertentes, inocente e feliz, a transbordar de futuros radiosos, quando caminha nos degradados carreiros da miserável cidade onde vive?

 

Independentemente da inominável violência presente neste tipo de obras há sempre o outro lado, o solar. Onde estão presentes homens e mulheres enormes, mesmo inacreditáveis, na sua capacidade de resistência ao mal e à perversidade. A sua força é de tal ordem que, aquilo de que têm de prescindir, logo à partida, se querem permitir-se em ser bem sucedidos da sua luta, é perder qualquer espécie de medo, amor à sua própria vida e dispôrem-se a entrar no inferno. Mas, quando o consegue, é este tipo de gente que ganha os ceús.


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semtelhas @ 15:02

Qua, 02/05/12

E não foi um pingo, foi um mar de amargura o sentimento experimentado por mim, e por muitas pessoas que entretanto li e ouvi, a propósito da promoção de 50% sobre todos os produtos para compras superiores a 100€, ontem praticada nas lojas Pingo Doce. O que vi suscitou em mim algumas perguntas:

 

Qual a real motivação dos responsáveis do PD para avançar com esta promoção tão avassaladora?

 

Porquê num 1º de Maio?

 

O que poderá levar a fazê-lo a mesma admnistração que transferiu as mais valias do seu negócio para a Holanda?

 

Ou a mesma admnistração que no fim de cada ano,  caso único no país, faz distribuição de lucros por todos os funcionários?

 

Ainda a mesma que criou uma fundação que estuda e procura explicar, a fundo e como nunca, Portugal e os portugueses?

 

Que nos últimos anos numa demonstração de força económica e de marketing, desatou a comprar tudo quanto eram lojas de dimensão média, implementando decisivamente o conceito de proximidade no que a distribuição alimentar diz respeito?

 

Depois do que se passou, ideia brilhante ou tiro no pé?

 

Ou não se passou nada?

 

Então aquelas filas de largas dezenas de metros à espera de vez para entrar numa loja já repleta? É normal?

 

E as pessoas a lutar selváticamente por uma garrafa ou uma embalagem de carne? É normal?

 

E, literalmente acartarem, para o carrinho tudo, não importa o quê, só para o encherem mais depressa? Porque será?

 

E aquele olhar, da gula à tristeza? E a pancadaria? E a policia? E o olhar, parado, cúmplice, quase envergonhado, de alguns fucionários do PD?

 

Será que os responsáveis maiores do PD, ao verem as prateleiras vazias, tiveram aquela sensação que enche o coração dos homens quando sentem um dever cumprido?

 

Serão as pessoas carne para canhão que precisa ser estudada para, depois, melhor adulada, caminho certeiro para a fidelidade?

 

Provávelmente não. E o que se passou é, apesar de tudo, e foi muito, muitissímo, é um mal menor? Foi, é, e sempre será assim?

 

Adoraria ter respostas mas, no fim sobra só mais uma pergunta, para quem vendeu e para quem comprou, na resposta à mesma talvez a solução do enigma: depois de assistir ao que se passou, valeu a pena?


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semtelhas @ 12:23

Ter, 01/05/12

Ao contrário de, O Artista, o filme de Martin Scorsese, Hugo, não aborda o tema cinema, enquanto instrumento de entretenimento, mas sim das pessoas que estão na sua origem.

 

Tal como nas máquinas, nas quais todas as peças tem uma função, não havendo qualquer hipótese das mesmas serem em excesso ou faltarem, também o mundo é composto exatamente pelo numero de peças, as pessoas, necessárias ao seu funcionamento, tendo, cada uma delas, uma função rigorosamente definida para nele cumprir. A tarefa de Hugo era consertar as suas avarias.

 

 

A partir desta ideia central o filme vai-se construíndo em torno de imagens lindissímas, de um som nem demasiado estridente nem lamechas, e habitado por personagens excecionalmente personalizadas mas que, no conjunto, resultam num equilibrio pacificador.

 

É certo que não temos explosões, gritaria do princípio ao fim nem sequer, imagine-se! um único ato de violência e, muito menos, o recurso à piada irónica e até sarcástica, hoje presente já em filmes para crianças. Veneno prematuro. Talvez por isso não tenha sido do particular agrado da academia nem grande sucesso de bilheteira. Sinal dos tempos.

 

Uma grande ideia que faz um maravilhoso filme. Continuando a metáfora de Scorsese, diria que, nesta grande máquina que é o mundo, a maior parte das pessoas serão os êmbulos, as correias, as roldanas; os cientistas serão as molas, os motores; e, os artistas, os óleos, a lubrificação que não deixam que a máquina emperre e pare.


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cores da lua @ 11:11

Ter, 01/05/12

Manhã cedo, cheira a almoço, preparado com gosto e carinho por quem faz questão de conquistar corações pelos sabores, sinal de que a partida está para breve. Tralhas, sacas, almoço, lanche, a barraca,  ou antes, o templo, 5 de partida rumo à nossa praia.

 

N13, pão de forma parado, tralhas para fora, aroma  intenso e característico, o  1º desafio,  entre as dunas preenchidas por chorões da praia, de colorido quente e hipnótico e um vasto lençol de flora marítima,  descobrir um espaço aberto, a salvo de arranhões e picadelas,  para chegar ao areal.

 

Encontrado o caminho, gente? nenhuma, a praia era nossa, dos montes e de extensos lençóis, castanhos, formados  de sargaço. Já na areia, o cheiro a mar, a iodo,  envolvia-se  com o do sargaço e nós os pequenos reclamávamos – que pivete – os grandes, os pais respondiam: - Respirem, respirem que faz bem aos pulmões. Ao fim de algum tempo, cansados de tapar o nariz, estávamos habituados ao aroma “medicinal” e já não dava-mos por ele.

 

Escolhido o local, tarefa breve porque na praia não havia mais ninguém, era chegada a hora do 2º desafio, montar o templo.  Grande, muito grande, de lona cru embranquecida, e inevitável, listada de barras azuis, nenhum de nós questionava que pudesse ter outra cor. Imaginada e construída, pelo nosso pai, a grandeza servia dois fins, abrigar comodamente uma família, mesa grande para cinco, cadeiras, 1 espreguiçadeira aberta, as sacas,  espaço para nos cruzarmos sem cotoveladas, e demonstrar, com prazer e orgulho, que certas cores, as escolhidas, também conquistam corações.

Começava a montagem, bem planeada, a nós os filhos, cabia a tarefa de montar os ferros pequenos e aos nossos pais, a de compor a estrutura, minutos depois, estava pronta a receber o manto, de azul e branco.

 

© Kay Crain

Tarefa concluída os nosso olhos só tinham uma direção, o mar.  - Não, porque ainda  está frio. - Não, porque está vento.  Queríamos lá saber! Queríamos ir à água e não percebíamos, nem sentíamos, os argumentos que nos impediam de ir ao banho.  Tinha de ser, esperar um pouco, enquanto isso entretínhamos  o tempo com malabarismos por cima do sargaço. Fazia cócegas, era divertido. – Já podemos ir à àgua? Já? – Podem, vamos lá! Isto sim, agora é que, pelo menos para mim, começava o dia de praia – O Mar do Mindelo! Tão rebelde, tão tranquilo!

 

Divertíamo-nos, literalmente, ao sabor das marés, ora a de preia-mar, com banhos tímidos e saborosos, tal era a força da natureza, ora a da baixa-mar,  onde nós os dois irmãos mais novos nos tornávamos verdadeiramente exploradores:  estrelas-do-mar, peixinhos, conchas, ouriços do mar, mais estrelas, mais conchas, beijinhos muitos beijinhos que eu achava amorosos e o meu irmão, achava muito mais divertido,  parti-los.

A irmã mais velha, divida, entre acalmar os pirralhos, e os sonhos de Corin Tellado, a mãe entre a música e as rendas, o pai, entre os jornais e almanaques faroeste, interrompidos pelas nossas descobertas, -Vê esta estrela! – Vê esta concha!

 

A praia continuava nossa, a espaços muito largos, para além de nós os cinco e a barraca , lá se via alguém, quase ninguém.  Idas e voltas entre o templo e o mar, a fome reclamava os seus direitos, ao templo, recolhiam-se os fiéis. Dos panos de flanela, ainda quentes, desdobrados com cuidados, luziam, espelhos fumegantes, reconhecíamos os aromas sentidos pela manhã, bem cedo. Era chegada a hora de servir, entre os deuses, o almoço, divino. Conquistados, convertidos, calminhos, por pouco tempo. -Que horas são? Que horas são?. Sabíamos que agora tínhamos pela frente a prova mais dura do dia, dar tempo à digestão. Até lá, reinventávamos ocupações, bola, baldes, água e areia, sopa de algas, estrelas panadas, forminhas de areia molhada que terminavam em formas originais aos pés do benjamim.

 

De novo, o mar, os banhos, a agitação possível determinada pela maré.  

De regresso ao pão de forma, dávamos o dia por terminado, já só desejávamos o próximo fim de semana!

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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