semtelhas @ 14:18

Qua, 27/11/13

 

Quando acordei não reconheci nada do que me rodeava, onde estava? Que tinha acontecido? Foi uma dor de cabeça intensa e uma sensação de enjôo que vinha das entranhas e se espalhava por todo o corpo, quase não me deixando mexer, essa perceção de existência fisíca, que me fez ter a certeza de não estar a sonhar. Aos poucos fui inventariando o que o olhar ía captando limitando-me a rodar os olhos em volta porque tirar a cabeça do travesseiro parecia-me ser um risco demasiado elevado. Uma outra cama ao lado da minha, igualmente pequena e com os cobertores atirados para trás sinal que alguém ali tinha dormido, uma mesita com uma cadeira de cada lado, um sofá, as portas do armário embutido e, ao fundo, antes de uma porta onde estavam pendurados várias folhas de papel, uma outra entreaberta que deixava ver uma parede em azulejos. Dormira num quarto de hotel. Foi nesse momento que me lembrei.

 

Como nos filmes de ficção a rodagem começou pelo fim, a montagem iria dar uma lógica aquilo. Nas caves do Vinho do Porto, em Gaia, fizeram-se uns quantos bonecos, um por cada um dos cantores franceses que faziam parte do trabalho, uma coprodução entre a televisão portuguesa e um canal francês para mostrar naquele país, e depois ser vendida a canais de todo o mundo. Uma reportagem que tinha por assunto central esse magnifíco vinho do Douro, fruto do microclima que por ali se sente, do calor solar do dia retido nos abundantes xistos das encostas das montanhas, que mesmo durante as noites gélidas não deixa de aquecer as terras transmitindo às vinhas aquela espessura, doce e delicado sabor que posteriormente se pode provar bebendo o precioso néctar. Eram três os artistas, todos relativamente bem conhecidos, dois homens ainda jovens dos quais não recordo o nome e Nicoletta, na altura já na meia idade.

 

Depois de mostrar alguns dos locais mais emblemáticos da cidade do Porto do final dos anos setenta do séc XX, avançámos com armas e bagagens, naquele tempo muito mais volumosas do que hoje em dia, vários carros que formavam um autêntico comboio, por ali acima rumo às montanhas mágicas, percorrendo estradas também elas bem diferentes das que hoje conhecemos. Demorámos algumas horas até a S. João da Pesqueira onde se montou o quartel general, num hotel com vistas fabulosas sobre o rio Douro. Ao longo de três dias o trabalho foi intenso, até carris para deslizamento de câmaras de filmar montámos! Explorámos quintas e adegas, percorremos inúmeras ravinas para fazer o melhor retrato possível das vinhas no seu habitate original, visitámos casas maravilhosas em si mesmas, enormes e excecionalmente bem decoradas, mas sobretudo localizadas em sítios inacreditávelmente bonitos. Antes de voltarmos ao Porto, num desses lugares fez-se uma festa de despedida...

 

Desse evento retenho um convívio fantástico entre toda a gente, as equipas técnicas de ambos os países e das quais eu fazia parte, os artistas, os donos das quintas e a população local. A coisa decorreu num restaurante que tinha um enorme espaço exterior pelo que se tratou de um verdadeiro arraial em que participaram dezenas de pessoas. Comeu-se lindamente, dançou-se, cantou-se, nunca os artistas o haviam feito tão bem, com tanta alma! Como sempre nestas ocasiões o pessoal foi dispersando restando, altas horas, uns quantos resistentes, os habituais rapioqueiros e os maçaricos, cabendo a estes últimos, não raras vezes, o papel de bombos da festa ou bobos da corte, vítimas do gozo dos mais experientes. Acontece que eu era o mais novato de todos, pelo que quando me convidaram para aquela disputa para ver quem aguentava beber mais daqueles pequenos copinhos cheios de bagaço purissímo, ainda por cima bem fresco o que resultava numa espetacular sensação de gelo à entrada, e de quase insuportável fogo enquanto fazia o seu caminho goela abaixo e consequente formidável e cavalgante euforia, estava longe de pensar que a última imagem que haveria de ter daquela inesquecível saga, no manhã seguinte metade do pessoal desapareceu, seria ver o mundo a virar-se ao contrário quando me levantei depois de beber, disseram-me, mais de uma dúzia dos tais copitos e aterrar ali mesmo. Despertei poucas horas depois na cama para onde me levaram, como se me tivesse passado um comboio por cima, e já cheio de saudades daquele semana incrível. 

 


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