semtelhas @ 12:45

Sex, 22/11/13

 

Inacreditável e profundamente lamentável, até por tanta gente o fazer, a forma como os adultos tendem a substimar a capacidade de compreensão e interiorização das crianças, sistemáticamente esquecendo que também elas já o foram e o que por isso sofreram. Sempre pré ou mesmo ocupados pelas inúmeras tarefas de um adulto, acabam por deixar para segundo plano a devida atenção às suas crianças mais pequenas, e ao mundo imaginário em que habitam, e que também já foi o seu.

 

Pior que isso, usadas e abusadas, tantas vezes chantageadas, tanto mais quanto o meio onde estão inseridas seja atrasado ou ferido pela ignorância, tentam escapar, salvar-se e salvar os que amam que se recusam a acusar. Fazem-no até ao limite do possível, não raras vezes ficando indelévelmente marcadas pelo sofrimento a que foram sujeitas para, em muitos casos, irremediávelmente caírem nos mesmos erros e tentações dos seus progenitores, na verdade única maneira de suportarem uma dolorosa existência.

 

No ambiente rural da Dinamarca do anos sessenta do séc. passado, uma família, pai, mãe, um filho de dezoito outro de onze anos, e uma menina de catorze, que vivem de uma pequena mercearia inserida na própria casa. O filho mais velho ausente a estudar numa cidade, e os restantes, na habitual luta pela sobrevivência os pais, e os filhos ainda ambos na escola da aldeia, que, como todas as outras, é constituída por uma comunidade que gira à volta da religião, da política... da competição em todas as suas facetas.

 

Retrato implacável de uma vivência onde a mentira, a falsidade, a violência, o medo, todas filhas da ignorância, e às quais se junta o incesto em torno do qual a estória é construída. Relato feito pelo olhar do rapaz de onze anos, uma doce e imaginativa criatura, cuja ingénuidade e delicadeza, absolutamente desconcertantes, porque não só se recusa  a aceitar as monstruosidades a que assiste como, sendo grotescamente utilizado pela chantagem, objetiva e emocionalmente, quase o levam a oferecer-se em sacrificío.

 

Uma prosa numa linguagem infantil, direta, autêntica, verdadeira e sobretudo simples, através da qual se pode perceber como as crianças têm essa formidável capacidade de transformar um pesadelo em algo minimamente aceitável, um enorme esforço misto de sobrevivência e incansável tentativa de perdão, o qual a na maior parte dos casos acaba por fatalmente ser mal sucedido, mais fruto da cegueira de quem prevarica e da passividade dos seus pares do que de quem quer perdoar. O livro, A Arte de Chorar em Côro.

 

 

 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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