semtelhas @ 12:05

Seg, 30/09/13

 

É cada vez mais surpreendente assistir ao desfilar de centenas de homens e mulheres pedindo o voto dos eleitores. Como de um peditório se tratasse apelam, por vezes com pungência, que lhes seja dada uma oportunidade para mostrarem o que valem, que com eles é que vai ser! Que os outros lhes são inferiores. Que se preocupam sinceramente com o povo.

 

O número de pessoas que se questionam qual será a verdadeira motivação que os move é crescente. O poder? O reconhecimento? O dinheiro? A ignorância? O dever cívico? O sentido de missão? A carreira política ser uma das poucas alternativas? É que quase quarenta anos de voto livre trouxeram inumeras coisas boas, mas também esse alto preço a pagar pela liberdade quando oferecida a uma população muito atrasada quase em todos os aspetos socioeconómicos, sobretudo se comparada com a dos países vizinhos. A breve prazo torna-se pasto dos interesses, esperteza ou vantagens anteriormente adquiridas, de algumas faixas da sociedade, que rápidamente transformam aquilo que deveria ser uma mudança profunda porque estrutural da mesma, numa oportunidade para continuarem a enriquecer nos casos dos que vêm de trás, mas especialmente no aparecimento de uma nova classe de novos-ricos, gente esperta, ativa e emprendedora, mas não raramente sem a preparação cívica, por défice de vivência democrática, para partilhar essa melhoria de nível de vida com todos os que para ela contribuíram, criando assim uma cadeia positiva de responsabilidade no sistema produtivo e consequente vida melhor para a maioria. Hoje vivemos num país cujos jovens pouco vislumbram como futuro daí o abandonarem aos milhares, onde os mais velhos não param de ver ameaçado esse mesmo futuro que era suposto já terem garantido depois de décadas de descontos sobre os seus salários, e no meio uma cada vez mais sobrecarregada e cansada geração dita na idade de maior produtividade, ou desempregada, ou sempre mais e mais carregada de impostos, com os filhos adultos em casa, e impossibilitados de ajudar os seus próprios pais. Perante este cenário como insistir em querer participar nesta espécie de purgatório a caminho de um inferno que se adivinha?

 

Talvez sejam menos os candidatos, mas os que neles vão votar são-no comprovadamente. Ontem quase metade dos eleitores pura e simplesmente não se deslocou para o fazer. Apesar de, pela primeira vez, não ter escapado a essa tentação, à qual resisti exercendo o meu direito e dever(?) cívico no último momento, pergunto-me se este sistema continua a fazer sentido. Quando em função do quadro descrito, consubstânciado nos partidos políticos, não há alternativas credíveis como chamar dever cívico ir às urnas? É certo que começam a multiplicar-se os independentes, mas se repararmos atentamente nestes casos, particularmente em dois deles, Matosinhos e Porto, percebemos que no primeiro se tratou de uma quase expulsão do partido que o vencedor sempre representou e, mais importante, ao qual logo após as eleições anunciou fidelidade, e no segundo o discurso de vitória, amargo e populista, não augura nada de bom. Ou seja se o sistema partidário tal como existe em Portugal está completamente ultrapassado mas promete continuar na mesma, o funcionamento da sociedade sem eles é impensável tais os perigos que isso poderia representar. Não sei se há, ou com que peso, uma qualquer tomada de consciência nessa recusa de participar na escolha de quem nos vai governar ou, pior, se se trata de uma espécie de desistência, seja por desleixo, desilusão ou ignorância, mas que de tal atitude tem um significado enorme parece evidente.

 

Alguns dirão que chegou o tempo do tudo ou nada, mas se fosse o caso não deveria essa posição ser manifestada por votos em branco, correspondentes a uma mobilização para a luta? Tal como se costuma dizer para a democracia, provávelmente é melhor este sistema que sistema nenhum. Por isso a minha humilde admiração por esta gente que ainda acredita com sinceridade.

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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