semtelhas @ 12:21

Seg, 23/09/13

 

Um casal de velhotitos, oitenta e muitos, sentados num banco sobranceiro ao mar. Ambos ligeiramente curvados, ele mais, ela com óculos fundo de garrafa, olhos cheios da maré vaza, lá ao longe, bem depois das primeiras rochas e do enorme areal ainda quase completamente virgem de pegadas, de onde chega um rumorejar das pequenas ondas que o delimitam. Vestem roupas exteriores pretas e camisas brancas, como os poucos cabelos que lhes restam e que consigo ver por baixo do chapéu dele e dum bonito lenço dela, também estes negros. Quase completamente estáticos parece ignorarem quem pela frente deles vai passando, magros, gordos, novos , velhos, perfumados, andrajosos, lentos, rápidos, aprumados, desleixados, indiferentes, impertinentes. Mais um, e outro, e outro, e outro...

 

A brisa corre de sul mas é fresca, revigorantemente fresca, o sol está morno num céu pleno de azul, reina um quase silêncio, o mar longe, o trânsito inaudível porque profiláticamente afastado, e as pessoas como que respeitando o ambiente que se sente sagrado, sussurram em vez de falarem. Ao fundo um câozito ladra ao seu dono desafiando-o para uma corrida, anda apanhar-me, diz a sua linguagem corporal, língua pendente junto ao chão, patas da frente encolhidas, as posteriores bem esticadas e continuadas pela cauda cautelosamente oscilante na expectativa da movimentação do homem. Olho para trás onde os dois vultos escuros, aparentemente nas mesmas posições vão desaparecendo, reduzidos a dois pontos num horizonte de dunas.

 

Numa manhã gloriosa como esta, neste cenário que remete para uma espécie de continuidade, eternidade ou infinito, aquilo não vai acabar nunca, dura há milénios, e por milénios perdurará, somos nós que por aqui temos uma brevissíma, e mais, ou menos, efémera passagem,  pergunto-me o que podem pensar duas criaturas sabendo-se tão perto, muito mais perto, de abandonar o palco da vida que teima, como se nada soubesse dessa inevitabilidade, em rabiar frenéticamente ali, bem à sua frente, uma bicha feita de gente na sua animalesca luta por uma sobrevivência, tantas vezes feita mais de sacrificios, derrotas, sofrimento, que de alegrias, vitórias ou felicidade, na procura de atingir um qualquer objetivo não raramente inconsciente.

 

Alguns dirão que simplesmente fazem horas para o próximo comprimido, ou refeição, ou que refletem na mais comezinha das questões como quaisquer outros. São os mesmos que afirmam que após a morte acaba tudo, o lugar onde só mora o nada. Não acredito, não perante aquele quadro onde o mais racional ou irracional, frio ou insensivel, caloroso ou sonhador ser vivo, pressente fazer parte, mesmo sem conseguir explicar como ou porquê, de algo que pura e simplesmente não tem fim, exatamente porque não teve princípio, um devir permanente, não um nascer e morrer, mas um para sempre indefinível transformar, que se renova num espaço e num tempo para os quais precisamos desesperadamente de limites para aquietar-mos as mentes. Mesmo que saibamos que a energia vital que sustenta toda a existência nasce da dúvida nunca das certezas. Um mistério!

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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