semtelhas @ 12:22

Seg, 16/09/13

 

A Toalha

 

Tinham sido oito dias fantásticos mas estavam prestes a terminar. Ainda antes de seguirem para o Porto tiveram direito a um dia em Lisboa, isto é, uma tarde depois da viagem desde Portimão, uma noite, e parte da manhã do dia seguinte porque sairíam de forma a fazerem o almoço de despedida na Bairrada.

 

Após três anos bem durinhos, à média de dezasseis disciplinas ano/letivo para obter variadas saídas, a revolução de 1974, acontecida havia pouco mais de um ano, veio alterar completamente os dados a meio do jogo pelo que o futuro apresentava-se mais que incerto. Até por isso esta viagem de finalistas tinha um sabor muito especial, mas para eles os dois, de um grupo de quatro que, entre mais de trinta, conseguiram terminar o curso, então a coisa assumiu foros de verdadeira conquista dos algarves, ainda por cima para inaugurar as na altura denominadas Torres Torralta, ali com vistas para a Praia da Rocha.

 

Muitos optaram passar a última noite fora de casa a ouvir fados, outros a passear pelos bairros mais castiços de Lisboa, a maior parte a vaguear pelas ruas da capital. Eles quiseram acabar em grande! Mereciam-no. Devidamente informados, mal saíram do hotel onde ficaram instalados naquela noite, meteram-se num táxi e ordenaram, Parque Maier. Por aqueles dias de liberdade a jorros, os excessos da uma revolução recente, passava no teatro Capitólio uma revista que se intitulava Mostra-me a Tua Piscina. A coisa constava básicamente em hora e meia a ver umas quantas meninas esculturais a atirarem-se, sem qualquer trapinho em cima, para uma piscina completamente transparente, situada a dois/três metros de nós que ocupávamos os lugares um e três da fila A...

 

Já no fim do espetáculo, depois de saírem da água para uma plataforma que rodeava o tanque, com as pingas a escorrerem e penetrarem, lenta e dengosamente por todo o lado, e enquanto se limpavam docemente a umas espessas toalhas branquissímas, nas quais nós ardentemente, como seguramente os nossos olhos em chamas demonstravam, nos desejávamos transformar, os deuses fizeram a vontade ao meu amigo, ali ao meu lado direito, o numero um, a pouco mais de um metro do palco, e uma das esculturais deusas que para sempre hão-de povoar os nossos sonhos, provávelmente impressionada pela concentração de cientista do meu vizinho, lança o toalha encharcada da água que limpara do seu corpinho de sereia sobre a cabeça dele onde fica pendurada uns bons segundos, até que eu a tire de cima do meu paralisado e coradissímo companheiro, enquanto a sala rebentava numa gargalhada geral.

 

 

Uma Aventura

 

Teria nove, dez anos e a paixão pelas maravilhosas imagens do grande ecrã já o faziam fervilhar de entusiasmo. Tinham já decorrido alguns anos sobre a primeira ida ao cinema, ainda naquele tempo em que pequenas localidades como aquela onde residia suportavam a subsistência de uma sala, o Estrela Cine, para aí cem lugares na plateia e cinquenta no balcão de onde, para além de uma infernal algazarra, também era costume choverem os mais variados objetos. O Rei e Eu, assim se chamava a fita, e ele ficara especialmente impressionado pela magnifíca personagem de Yul Brynner que fazia de rei. Depois disso, no Coliseu, no Trindade, no Rivoli, ou quando íam no Batalha, vira toda a coleção Disney, alguns biblícos e até umas quantas inofensivas coboiádas.

 

Sózinho em casa ruminava uma ideia que não lhe saía da cabeça, pegar em algumas das suas economias, meter-se num trólei, e ir ao Porto, ao Coliseu, ver aquele filme que acabara de estrear, e que ele lera no Primeiro de Janeiro do último domingo estar a fazer um sucesso nunca visto por todo o lado, meses a fio em exibição. Até já tinha ouvido a música principal, cantada por uma linda rapariga, e a coisa tinha-o deixado bastante emocionado. O problema é que nunca havia feito tamanha deslocação, tão longa e por tanto tempo, entregue a si próprio. E se algo corría mal? Perder-se-ía lá pela grande cidade? E se alguém o procurava em casa durante a tarde? Conhecia bem a baixa por causa das frequentes idas às sextas-feiras com o pai e o tio ao bilhar do Imperial, por outro lado nunca o procuravam  de tarde, porque é que havia de correr mal?

 

O filme começava às três, tinha portanto tempo de fazer tudo direitinho. Assim foi a tranquila viagem para lá, fora da hora de ponta do regresso que por aqueles dias fazia transbordar os lentos e complicados troleicarros, toda a sessão autênticamente nas núvens, ou climbing the mountains, como espantosamente cantava a velha freira, mas acima de tudo completamente apaixonado pela maravilhosa Julie Andrews, uma espécie de maria-rapaz mas com as curvas todas como ele começava a apreciar, tendo abandonado a sala em pleno extase que só se desfez, qual feitiço, quando enfrentou a enorme bicha de pessoas, que rabiava por muitos metros, a fita fora longa, para apanhar o transporte de regresso. Foram penosos os intermináveis minutos que se seguiram, finalmente entrar no trolei, a viagem demoradissíma em permanentes filas atrás daquilo que parecia muito trânsito, e não passava de uma tentativa de meter monstros em pequenas ruelas, até uma complicada entrada em casa para evitar ser visto. Acabara de fechar a porta quando ouviu a chave a entrar na fechadura da porta comum do prédio e, espreitando pela janela da cozinha, vê o pai a entrar. Só teve tempo de afiambrar a mais tranquila da expressões, enquanto se imaginava objeto de um sedutor olhar de admiração da esbelta e falhada freira Maria... 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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