semtelhas @ 14:04

Sex, 13/09/13

 

Desde que ele chegara à empresa nunca mais as coisas voltaram a ser o que eram. Começou por fazer reuniões com todas as chefias separadamente, tomou a seu cargo a secção de informática, e tratou de infernizar de tal maneira a vida dos diretores, sobretudo imiscuindo-se e alterando sistemáticamente as instruções ou diretrizes deles, que bastaram três meses para que percebessem o que se estava a passar e tivéssem pedido baixa médica. Ao fim de um ano, fruto de uma gestão completa e propositadamente desastrada, o número de encomendas baixava em catadupa, e, de mais seis meses, falhava o primeiro ordenado ao fim do mês, depois os subsídios, situação que se repetiu sistemáticamente para nunca mais se normalizar. A partir daí, tendo todos entendido que o homem tinha sido contratado para coveiro da empresa, já se formava fila à porta do gabinete do artista para aceitar a proposta de acordo de rescisão de contrato de trabalho. Ainda não tinham passado dois anos e o pessoal diminuira de cerca de duzentos para cento e vinte empregados.

 

Foi mais ou menos por essa altura que ele, juntamente com os restantes chefes de secção, se tornaram alvos do ilustre, na sequência da estratégia de desmembramento do esqueleto propriamente dito de todo o corpo fabril, espécie de estocada final. Depois de inumeras visitas à secção, pondo em causa tudo o que ele, o chefe da mesma fazia ou ordenava, em frente dos seus subordinados numa clara intenção de desautorizar, e mesmo descaradas conversas com aqueles sugerindo direta e objetivamente a incapacidade dele para comandar as tropas, e para além de continuados ataques e dúvidas sobre os números por ele apresentados nos diversos relatórios e mapas com cuja exigência era diáriamente bombardeado, um dia chamou-o ao seu gabinete, logo após o almoço, para uma reunião.

 

Ainda mal se havia sentado e o outro já disparava, o senhor não é primo do eng...?,referia-se ao que o contratara mais de uma década atrás e entretanto despedido, assim sugerindo um favor, isto após anos de conhecido, e reconhecido excelente trabalho, levantou-se com um, é melhor fechar a porta porque isto vai ser interessante, o que fez. Às primeiras palavras que lhe disse, eu, se fosse o senhor, tinha mais cuidado porque não me conhece, o outro, empurrando ligeira, mas bruscamente a mesa na direção dele numa evidente manobra intimidatória respondeu, esticando o pescoço na sua direção, também você não me conhece a mim. Na verdade até conhecia o essencial, esta já era a terceira empresa que desativava, sendo que uma das anteriores empregara mais de duas mil pessoas, foi naquele momento, enquanto cheirava o álcool da coragem no hálito do desgraçado, e via o medo nos seus olhos, que percebeu não haver retorno, era ele ou a besta.

 

Durante a hora e meia destinada ao almoço, a telefonista, cujas instalações ficavam ao cimo de um longo lanço de escadas de mármore, uns bons seis/sete metros a direito, numa espécie de hall para os serviços admnistrativos, onde também se encontravam os WC's e a porta de entrada para um corredor de acesso aos vários gabinetes, saía. Nesse intervalo a receção das chamadas era transferida para a portaria onde um securitas tratava de as reencaminhar. Extremamente conservador, metódico e rigoroso, o famoso coveiro tinha por hábito, após chegar do almoço que fazia em casa, e de subir ao seu gabinete, descer, exatamente dez minutos antes das duas da tarde, tempo limite do intervalo para a refeição, para tomar café e exibir-se, porque profundamente vaidoso, para todo o pessoal feminino do escritório que naquele momento ainda permanecia no refeitório.

 

Bastaria esperar dentro do WC, pé direito préviamente descalçado para evitar quaisquer marcas de solas, e, num espaço completamente deserto aquela hora, como ele repetidamente confirmara, até que o animal iniciasse a descida da escadaria, empurrando-o de seguida, pé nas costas, com toda a força do ódio acumulado durante quase três anos, e dezenas de despedimentos, obrigatóriamente aceites por meia dúzia de tostões, desprezo por tudo e todos, insultos e ameaças a torto e a direito, uma absoluta indignidade comprada por uns patrôes que deixaram de acreditar no futuro do negócio às primeiras dificuldades e, muito especialmente, nas capacidades da segunda geração que deveria dar continuidade a uma empresa sólidamente consolidade no mercado, uma obra de mais de cinquenta anos. Depois de o confirmar a estrebuchar lá ao fundo, só teria de regressar ao seu próprio gabinete onde, como de costume e desde haviam quase uma dúzia de anos, durante aquele período de tempo, sendo o único a almoçar mais cedo, sempre permanecera sózinho.

 

Juntava a coragem necessária à concretização do plano quando foi chamado por um dos patrões que, amistosamente, o informou ter chegado a hora de terminar a relação profissional que mantinham, para dizer o que pretendia para que tal fosse possível, que a empresa, entretanto já com pouco mais de cinquenta funcionários, só restavam os lacaios, os medrosos e os teimosos, não necessitava, por óbvia pequena dimensão após tão surpreendente quanto forçado encolhimento, do lugar que ele ocupava no seu organigrama, e ainda, que naquele mesmo dia, também o sr. eng. X, o tal, seguiria o mesmo caminho e pelas mesmas razões. Captou a mensagem, tinham percebido que aquilo se tornara uma guerra pessoal que lhes iria trazer mais problemas, exigiu sómente a quantia a que a lei os obrigava, passara ali os melhores dez anos da sua vida profissional, e custava-lhe tirar mais de onde sabia quanto mais saísse, menos os que permaneciam iriam receber, e, agradecido e aliviado abandonou sem glória e para sempre um local onde tinha vivido terríveis aflições em sextas-feiras tenebrosas com os camiões, impacientes, à porta noite dentro, incontáveis lutas, lado a lado com os operários para o cumprimento de prazos, duras batalhas com a entidade patronal para que reconhecessem o bom desempenho do pessoal, mas sobretudo imensas vitórias e alegrias no momento incomparável da sensação do dever cumprido.

 

Uns anos mais tarde soube que o dito eng. X abandonara a empresa no dia seguinte ao qual ele próprio o fizera, no meio de gritaria e ameaças, porque só lhe pagaram o correspondente aos três anos de antiguidade a ganhar pouco mais que ele próprio, porque 80% da pequena fortuna que recebia mensalmente era por baixo da mesa, e lhe ficaram a dever largos milhares em atraso...

 


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
procurar
 
comentários recentes
Pedro Proença como presidente da Liga de Clubes er...
Este mercado de transferências de futebol tem sido...
O Benfica está mesmo confiante! Ou isso ou o campe...
Goste-se ou não, Pinto da Costa é um nome que fica...
A relação entre Florentino Perez e Ronaldo já deve...
tmn - meo - PT"Os pôdres do Zé Zeinal"https://6haz...
A azia de Blatter deve ser mais que muita, ninguém...
experiências
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


mais sobre mim