semtelhas @ 13:49

Qua, 31/07/13

 

Do púlpito situado no meio do palco de onde discursava, quase sentia a respiração enfurecida dos que nas primeiras filas vociferavam na minha direção, alguns chegando mesmo ao insulto, enquanto bramiam objetos que tinham nas mãos, revistas ou jornais enrolados, guardas-chuva, cadernos, esferográficas, de braços no ar e francamente inclinados para a frente com os rostos desfigurados e vermelhos de raiva.

 

Quando aquilo finalmente acabou, dirigi-me completamente esgotado para o meu lugar na plateia, depois de uns intermináveis cinco minutos, pareceram cinquenta, durante os quais tentei com todas as minhas forças, fisícas e animícas, gritando, berrando, saltando, gesticulando, responder o melhor que me foi possível, aos selvagens que me impediam de falar, explicar as minhas razões, de defender o meu ponto de vista.

 

Ainda não estava completamente acomodado na cadeira quando senti umas mãos enormes em ambos os ombros, cujos polegares me pressionavam fortemente as costas, enquanto os restantes dedos faziam o mesmo no pescoço. Foi como se se tivesse desligado um interruptor. Como se me tivessem desligado. Relaxei de imediato e olhei para trás para ver quem tinha sido o benemérito, encarei com a enorme cabeça do A.M., no rosto bailava-lhe um sorriso condescente e sábio. Tratava-se de um homem que podia muito bem ser confundido com um daqueles profetas religiosos que arrastam multidões dominadas pela sua invulgar estatura fisíca, pelo seu olhar hipnotizante protegido por sobrancelhas portentosas, encimadas por cabeleiras cuidadas, mas em natural desalinho, de acordo com a sua natureza selvagem e indomável que se pressente num primeiro relance, e se confirma depois de os ouvir proferirem com as suas anormalmente cavas e possantes vozes, palavras que tranquilizam.

 

Instrutor principal dos cursos de relações humanas Dale Carnegie, e deles representante em Portugal, dizia-se que tinha conhecido pessoalmente o mestre, procurava ajudar-me após aquela que foi, seguramente, a mais dura das quarenta sessões de que era composto o curso. Durante um ano, uma vez por semana, cinquenta almas foram  sujeitas aos mais variados tipos de experiências, com um nível de dificuldade crescente, para que no fim saíssem dali mais auto-confiantes, mas também mais humildes, capazes de melhor ouvir e, sobretudo, de suportar as contrariedades da vida fazendo, como por lá se dizia, dos limões limonadas. No fim foi-nos entregue um pequeno livrinho, que guardo religiosamente, onde constam alguns conselhos práticos para a vida, dos quais, e não obstante passarem anos sem que sequer para ele olhe, ainda, e penso que para sempre, retenho alguns: não critique, não condene, não se queixe; faça de cada dia um compartimento herméticamente fechado; não chore sobre o leite derramado.

 

Lembro-me que, antes de algumas sessões que sabíamos, por causa do tpc, os treinos que deveríamos fazer em casa, seriam complicadas, como por exemplo aquela na qual tínhamos de, no palco perante uma plateia que para além dos colegas era obrigatóriamente constítuida por no minímo mais três familiares de cada um de nós, fazer uma longa declaração de amor... de joelhos. Ainda antes de entrarmos no edificío que era numa avenida no centro do Porto, gritáva-mos a plenos pulmões: eu não quero ir, não vou, tirem-me daqui, socorro. Ríamos à gargalhada e lá íamos para o castigo.

 

Depois de muito procurar, ei-lo à minha frente! Abro o livrinho de um dourado gasto pelo tempo, leio-o atentamente e percebo como, mesmo inconscientemente, aquilo me formatou. As regras nele inscritas são ouro puro. Continuam a brilhar intensamente.

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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