semtelhas @ 09:23

Dom, 30/06/13

 

Seguramente possível acontecer o mesmo noutras cidades, é em Madrid que melhor reconheço a Espanha de Cervantes, de D. Quixote e de Sancho Pança. Em Barcelona, no país Basco, ou na Galiza, onde mora um povo irmao que, juntamente com os portugueses nortenhos, constítuem uma naçao, sentem-se em demasia a especificidades de cada um destes espaços, muito próximos dos seus vizinhos França e do norte de Portugal.

 

Neste último a influência do mar sobre a populaçao é fortíssima marcando decisivamente a sua cultura em todos os sentidos, o que, visitando a Galiza, é também sensível, desde as pequenas localidades como a bela Vila Garcia, passando pela formosa Corunha, até â elegante Baiona. No caso do país Basco essa influência marítima atlântica é bastante diluída, sendo mais sensível a identificaçao com o vizinho continental do norte. Na Catalunha, e em Barcelona em particular, para além dos ares mediterrânicos, que adoçicarao aquelas gentes, parece que a condiçao periférica é determinante na histórica díctomia entre o dever de obediência à centralíssima Madrid, e a sempre adiada libertaçao. 

 

Anda-se ali por aqueles jardins, ruas, avenidas e, nao obstante toda a urbanidade de uma grande metrópole, ainda por cima bastante cosmopolita, que, inevitávelmente prejudica a visao romanceada e já algo datada do grande escritor, bem como a veste do frio materialismo dos nossos dias, pressente-se que, por baixo das várias camadas de pele que constitui essa realidade, o romântismo, a coragem e o arrebatamento quixotescos, bem como a bonomia, a sagacidade e a natural propensao para a sociabilidade consubstânciadas em Sancho Pança, e que sao as características mais profundas daquela gente. O turista de passagem terá dificuldade em descodificá-lo, mas uma estada mais demorada comprova-o. 

 

Claro que nao é alheia ao facto a sua situaçao demográfica. Por mais vezes que sobrevoe toda a zona envolvente da grande cidade, sempre me espanta a enormidade de quilómetros que a rodeiam para, de repente, depois de passar uma cordilheira e quando proveniente de noroeste, aquilo aparece como saído do nada, imenso, pleno de vida, como se alguns milhoes de pessoas tivessem enlouquecido isolando-se no meio do deserto, umas em cima das outras, ignorando uma vastissíma área de terreno livre a toda a volta. O espantoso e enorme oásis surge-nos verdejante, vibrante na lufa-lufa diária feita de tao díspares sobrevivências. Um milagre!

 

Acredito que tenha sido essa mesma força que permitiu o fenómeno, a dar as tais qualidades a este povo, e que Cervantes tao maravilhosamente expressou no seu romance. O sonho e o romantismo, ditos ingénuos, única forma de lutar pelo, à partida, impossível, a pertinácia de nao desistir contra condiçoes naturais extremamente adversas, agora recorrendo a outros Rucios e Rocinantes, e a necessidade de o fazer debaixo de um rígido código de conduta disciplinador, tudo características quixotescas, temperadas pelo bom senso e desarmante humor de Sancho, que permitem perceber nem todos os moínhos serem perigosos gigantes e seguir em frente.

 

Mais uma vez cá vamos nós, deambulando entre milhares de turistas e madrilenos, debaixo do calor inclemente, suavizado pela sombra de inúmeras centenárias ou mais recentes árvores, refrescados pela visao de fontes e lagos, pelo meio da infindável tagarelice indígena que contagia os forasteiros e anima o ambiente. Vao deslizando esbeltas Dulcineias, mais para o fim da tarde ainda mais sofisticadas e já acompanhadas por aristocráticos Quixotes, que desfilam elegantemente esguios com artísticos bigodes, os seus vistosos lenços de seda ao pescoço, a caminho de um qualquer evento social. Finalmente chegados ao local de eleiçao dos Sanchos como nós, depois de Madrid, cañas e calamares!  


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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