semtelhas @ 16:05

Sex, 21/06/13

 

Eram os últimos dias da guerra. Um oficial nazi da SS deserta e junta-se à família que tenta esconder do que viria a seguir. Reencontra a mulher, os filhos, e uma enteada, agora uma belíssima jovem, perante a qual não consegue disfarçar um olhar predador que não escapa à mãe, o que vem reforçar a imagem de cobarde, de que esta o acusa e que com ele transporta. Lore, a rapariga, é também o nome deste filme poderoso. 

 

 

  

Daí para a frente constroi-se um documento sobre o inferno que foi a vida das famílias alemãs no pós guerra, seguindo o calvário em que se tornou a fuga desta jovem a quem a mãe, após se entregar ás tropas aliadas, deposita a responsabilidade de, juntamente com quatro pequenos irmãos, um deles bébé, atravessar um país autênticamente a saque e sedento de vingança, onde as violações, os assassínios, a violência totalmente gratuita, era exercicida sobre os civis alemães como se de culpados oficiais militares se tratassem, até casa de uma irmã, tentando assim salvá-los de uma morte certa.

 

Arrepiante o retrato que nos é dado do quanto estava profundamente convencido aquele povo, nomeadamente os mais jovens que não tinham conhecido outra coisa, da justeza da luta de Hitler, muito em particular contra os judeus, símbolos de toda a maldade reinante sobre a terra: a mentira, o roubo, a ganância, etc., em confronto com a irrepreensível ordem estética, seguramente, e ética, supostamente, da pura raça ariana. Fica também claro que, naquele período, ninguém ficou inocente, americanos, ingleses, franceses, russos, e até, muito especialmente, os próprios alemães, divididos entre os que, com enorme dificuldade, se rendiam às evidências, uma realidade que lhes eram brutalmente esfregada na cara, e os outros, que preferiam continuar a ouvir a voz interior, há muito enraízada, para muitos mesmo uma natureza intríseca, recusando-se a admitir os óbvios e hediondos excessos cometidos.

 

Sem falhas este realmente fantástico filme, uma obra prima pela absoluta excelência sob todos os pontos de vista, o argumento baseado num romance, as interpretações, os cenários, o guarda roupa, a caracterização, e sobretudo a condução daquilo tudo, numa realização perfeita, a qual só nos permite ver a luz na última cena. Uma sucessão de imagens por vezes bastante cruel e mesmo perturbante, mas sempre seguindo um critério assente num único objetivo, passar com o máximo rigor histórico uma mensagem urgente pela, ainda há pouco tempo, inacreditável sensação de imensa oportunidade. Da vintena de pessoas que estavam na primeira sessão do dia de estreia não fazia parte um único jovem, estavam todos na sala ao lado, de onde nos chegavam resquícios das inumeráveis explosões, a ver Brad Pitt salvar a humanidade de mais uma invasão de extra terrestres ou coisa que o valha. 

 

Provávelmente as coisas são assim mesmo mas, como a mundo está por estes dias, lembrar o sucedido há, afinal de contas, tão pouco tempo, especialmente aos principais protagonistas do futuro, seria de uma importância decisiva, porque aquilo não pode voltar a acontecer. É por isso muitas vezes questionada a utilidade prática destes verdadeiros documentos que, pelo menos por cá, na maior parte das vezes são vistos exclusivamente pelo mesmo círculo restrito de pessoas. Quase todas as outras, sobretudo as que mais contam para o efeito, estão completamente alienadas a alimentar, à semelhança de outros casos noutras áreas, uma indústria global e crescentemente decisiva na formação do caráter das gerações mais novas, que movimenta milhões, de pessoas e em dinheiro, e engorda meia dúzia. Será que, tal como à heroína da fita, precisarão de ser dilacerados por acontecimentos de uma violência sem nome para acordarem?  

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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