semtelhas @ 13:48

Sex, 14/06/13

 

Lidos centenas, talvez milhares, de artigos, diagnósticos, prognósticos, vistas e ouvidas análises com origem nas mais diversas personalidades, de todos os quadrantes políticos, sociais, religiosos, ao longo de mais de quarenta anos, iniciei-me um ou dois anos antes do 25 de Abril de 1974 com o Expresso, parece-me estar a assistir ao fim de um ciclo que terá começado uma geração antes da minha.

 

Com o final da II Guerra Mundial, com toda a devastação por ela provocada, surgiu o Estado Providência, a segurança social, como forma de combater a pobreza, facilitar a reconstrução, uma espécie de renovação com os altos objetivos de criar uma sociedade baseada na solidariedade, e cujos pilares seriam a educação, a saúde, a justiça, tudo a construir num clima de paz indiscutível, após o pesadelo dos milhões de mortos ainda bem presentes na memória coletiva. O advento da Guerra Fria, nascida da intervenção direta de duas potências globais no continente europeu aquando do conflito, curiosamente uma delas, a União Soviética, maioritáriamente asiática, e a outra, os EUA, da américa do norte, proporcionou um género de paz podre consubstânciada nas duas alemanhas. O surgimento de líderes políticos como Ronald Reagan, Margueret Tatcher ou Gorbatchov, e de Karol Wojtyla como Papa, todos produtos de um certo desgaste de um sistema já com mais de  uma geração sobre o término da guerra, veio reiniciar um processo de liberalização mais ou menos feroz da sociedade que, a libertação dos países da leste europeu, como que caucionou, sendo a queda do muro de Berlim, o desmembramento da União Soviética, e o fim da Guerra Fria, os exemplos maiores deste virar de página.

 

A década que se seguiu foi de preparação para o que haveria de abalar o mundo. A explosão do universo da informação por via da internet, que   resultaria na globalização que tornou tudo mais perto e pequeno, mais competitivo e reenvindicativo. A tomada do poder global pelo neoliberalismo como que marcou passo face a essa revolução que ía acontecendo, ainda algo lentamente, o que permitiu uma evolução mais ou menos pacífica ainda que já pontuada por conflitos, nomeadamente o da Guerra do Golfo, ovo da serpente que haveria de eclodir mais tarde. Potenciais potências globais como a China, a Rússia ou o Brasil, entre outros, aproveitaram a oportunidade que lhes era dada por esse iato de tempo histórico entre os tempos da mão de obra barata e o despertar das populações, para rentabilizar as muitas riquezas naturais que possuem, e começaram a atrapalhar a economia do todo poderoso dito mundo ocidental, e a enervar os seus principais beneficiários, a alta finança, as grandes empresas globais, os extratos mais elevados de uma sociedade que, de cima a baixo, se tinha tornado preguiçosa.

 

A oportunidade que estes falcões e abutres esperavam surgiu com o ataque, à bomba, ao coração do tal mundo. Ao seu principal país, EUA, na sua principal cidade, Nova Iorque, e no seu maior ícone, as Torres Gémeas. A partir daí, em nome da luta contra esse novo papão, em substituíção do medo da guerra nuclear, que tudo iria justificar, o terrorismo, e beneficiando da presença de um presidente marioneta ao leme do país farol do mundo, foi um fartar vilanagem. Como que recuperando o tempo perdido, misturado com um sentimento de vingança pouco disfarçado, os poderosos desataram a trabalhar uns para os outros. Usando sobretudo a construção civil, setor que, como é sabido, movimenta práticamente todos os outros, desenharam uma teia de leis que os protegia, e um sistema bancário viciado que legitimava o comprometimento de milhões num falso futuro, iludidos e enganados por uma riqueza só virtualmente existente, reassumiram o poder real em roda livre, uma fuga para a frente que criou uns milhares de milionários e muitos milhões de pobres.

 

Quando acabou por se descobrir que, afinal, o rei ía nú, quem estava no poder, independentemente da côr partidária, algo cada vez mais irrelevante, um sistema político em falência, caiu ou foi corrido nas eleições seguintes, e foram castigados meia dúzia dos principais responsáveis pelo estado das coisas, tendo ficado completamente impunes 99.9% dos restantes. A pergunta que se impunha era, como sair deste buraco? É para essa pergunta que ainda ninguém encontrou uma resposta cabal. Uns, como Obama, puseram as rotativas a funcionar e distribuíram dinheiro pela população, como que dando-lhe o benefício da dúvida, acreditando que o consumo vai reativar a economia, criar emprego, e, acima de tudo, que quando este surgir as pessoas vão mesmo querer trabalhar e assim justificar a aposta nelas feita. Outros tiram dinheiro e direitos, acham que a cura virá pela dor. Ir ao sâo pelo castigo e pela dolorosa tomada de consciência do que apelidam de excessos, para, então sim, começar de novo. Aparecem os primeiros sinais indicativos de, sem pôr em causa a bondade inicial das apostas, qual delas terá mais possibilidade de êxito. Também algumas evidências, o sonho europeu parece cada vez mais uma utopia, os EUA vão perder o monopólio do poder mundial, e o ritmo a que as coisas acontecem, fruto de uma informação global desenfreada, jamais permitirá previsões a médio prazo.

 

Estará a fechar-se um ciclo, algo terá que parar esta vertiginosa queda num poço de que ninguém conhece as paredes nem o fundo. As gerações mais jovens, e as vindouras, têm que ser imbuíadas desses valores que surgiram no pós guerra em meados do séc. passado, só assim poderão encarar um futuro que, atualmente, não conseguem adivinhar. Pode ser que não tenham que pagar um preço tão elevado quanto o tiveram que fazer os seus antepassados. 

 


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"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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