semtelhas @ 16:39

Seg, 29/04/13

 

Tenho saudades do meu cão

Tenho saudades dos meus gatos

Tenho saudades das minhas mulheres

Das que tive e das que tenho

Tenho saudades do meu filho inocente

E de sentir que era o seu héroi

Tenho saudades da minha mulher ingénua

E de quando todo o seu corpo ria para mim

Tenho saudades dos meus amigos

E pena por não lhes ter dito tudo

Tenho saudades de quando era novo

Tenho saudades dos primeiros livros

E de neles deixar de ser eu

Tenho saudades de morrer na música

E de ressuscitar com gente ao meu lado

Tenho saudades do meu pai protetor

Tenho saudades do meu irmão pequeno

Tenho saudades da minha mãe nova

Tenho saudades do mar da minha infância

E de nele mergulhar nas ondas frias

Tenho saudades do cheiro da minha prima

De lhe vislumbrar os pelos púbicos e enlouquecer

Tenho saudades do olhar da minha tia

Tenho saudades das feridas nos meus joelhos

E da minha cegueira também quando corria

Tenho saudades da felicidade vir com o sol

Tenho saudades de seguir os carreiros de formigas

E de sentir o cimento quente na cara

Tenho saudades das corridas de caracois

Dos caminhos de baba e do campeão lá no alto

Tenho saudades da tristeza chegar com as núvens

Tenho saudades de gostar do frio

Tenho saudades de ter medo da chuva forte

Tenho saudades de me sentir perdido com o vento

Tenho saudades dos primeiros filmes

E de me apaixonar pelas atrizes

Tenho saudades de sair do cinema a flutuar

E com os jeitos, e a ser, o meu héroi da fita

Tenho saudades do sabor do primeiro beijo

E da euforia calma, e da volupia, que ele provocou

Tenho saudades do eu que me chega pelos cheiros

Tenho saudades da bondade dos vizinhos

Tenho saudades dos domingos nas Antas

Tenho saudades da alegria pura e cristalina

Tenho saudades das sensações absolutas, inteiras

Tenho saudades dos climaxes loucos

Tenho saudades dos pequenos desgostos devastadores

Tenho saudades da tristeza infinita

Aquela que aperta a garganta e faz correr as lágrimas

Tenho saudades dos sabores perfeitamente acabados

E dos momentos que as suas memórias me trazem

Tenho saudades de me sentir completo

Tenho saudades dos medos profundos

Tenho saudades de admitir uma estética perfeita

Tenho saudades da possibilidade da ética total

Tenho saudades do ódio puro

Tenho saudades do espanto ao descobrir

Tenho saudades do conforto no voltar

Tenho saudades das casas onde vivi

Tenho saudades dos carros que tive

Tenho saudades do pião, do arco e da gancheta

E da fisga , e dos carrinhos Matchbox

E da bolas azuis da Nívea na praia e do seu cheiro

E de fazer Legos diferentes da fotografia da caixa

Tenho saudades dos orgasmos primordiais

E da plena satisfação de existir que lhes seguia

Tenho saudades de corpos femininos jovens

E de os ter nús ao meu lado em tardes quentes

De, na penumbra, pensar que era realmente feliz

Tenho saudades de desesperar de saudades

Das que sentia logo após deixar um meu amor

Tenho saudades de sentir a esperança no verde

Nas árvores, nas florestas, nos prados do campo

Tenho saudades de ficar olhar as núvens brancas

De vê-las avançar lentamente no azul maravilhoso

Tenho saudades do céu estrelado na noite algarvia

No meio da serra escura, sem frio e no silêncio total

Tenho saudades da água morna e da areia fina

E do peixe grelhado e do vinho branco gelado

Tenho saudades de jogar ténis à chuva, só com meias

Do meu filho, pequenito, a correr atrás das bolas perdidas

Do meu irmão e eu jogarmos como não houvesse amanhã 

Tenho saudades do nosso primeiro jardim

Das dálias vermelhas sangue, dos veludos enormes

dos junquilhos amarelos, dos gladíolos elegantes

E multicores, das zínias e das tulipas brancas

E do meu pai vergado a libertá-las das ervas

E do cheiro a terra molhada após a rega do fim da tarde

E dos lanches solitários dos dias de Verão

Do sabor do pão, do queijo, do fiambre e do Sumol

Depois de sorver magníficas estórias do Mickey e do Pateta

E do Ene 3, e do Ogan, da Mademoiselle X, e do Kalar

Tenho saudades de acordar sem conhecer o dia que chega

Tenho saudades de quando descansava enquanto dormia

...

 

Tenho saudades de mim 


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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