semtelhas @ 12:49

Sab, 13/04/13

 

Do latim tenere, tipo, manter ou segurar, o que de facto significa, que entretanto foi degenerando para o dito entreter, divertir, distrair e coisa e tal. Hoje o entretenimento serve para enganar, violar, torturar, humilhar, degradar, e por aí fora. Uma Piada Infinita.

 

David Foster Wallace, no livro com aquele título, encontrou novas possibilidades para aqueles vinte e seis simbolozinhos que conhecemos por alfabeto, e mais uma vez demonstrou a absoluta necessidade de um total desprendimento da vida, para se ser capaz de escrever algo a que se possa chamar obra-prima. É desta massa que são feitos os génios.

 

 

 

Obra inqualificável sobre qualquer ponto de vista exceto na sua genialidade ímpar, como que descontroi a realidade por via de um aprofundamento feito de palavras sobre a standardização daquilo que é a vida, sem dó nem piedade, quase maldito.

 

Alternando entre uma luxuosa academia de ténis, uma decadente casa de recuperação para todo o tipo de dependências, as ruas de Boston, tendo como protagonistas centrais uma família abastada, de hábitos pouco comuns, e um homem produto de uma família pobre, mas igualmente disfuncional, vai narrando estórias atrás de estórias difícilmente adjetiváveis que vão desde o completamente alucinadas, passando pela profunda crueldade, até à mais desarmante inocência, mas sempre recorrendo a um humor por vezes perfeitamente delirante, e sempre cavando bem fundo na história de vida de alguns dos personagens principais, na maior parte dos casos desgraçadamente trágica, durante as quais faz a prova mais cabal da degenerescência em que apodrece a sociedade norte-americana e afins dos nossos dias, com uma crueza só ao alcance dos eleitos, e que penso alguma vez tenha sido feita. Lendo-o lembrou-me Celine, em Até ao Fim da Noite, mas indo ainda mais longe, um maior desespero pessoal e coletivo, talvez a prova de que nunca se terá ido tão baixo na degradação, certamente porque somos hoje muito menos inocentes. Todos.

 

Obra autobiográfica onde podemos descobrir um homem absolutamento farto da sociedade de consumo assente numa competição feroz desde cada vez mais tenra idade, que relega para o desespero milhões de falhados, completamente frustados com a sua incapacidade de atingir os supostos patamares mínimos para merecerem ser respeitados, e não simplesmente (mal) tolerados porque origem dos poderes reinantes, profiláticamente adormecidos pela publicidade, e por toda uma diabólica máquina do tal entretenimento, que mais não fazem do que desavergonhadamente tentar, e não conseguir, esconder um pavoroso mundo de fuga à realidade, nomeadamente e de forma alarmante e crescente, por via de todo o tipo de drogas, maioritáriamente entorpecedores químicos cada vez mais elaborados nas viagens que proporcionam. No fim, fatalmente, a, até agora inenarrável violência, filha das ressacas dos estupefacientes, mas sobretudo da queda no real insuportável, perante o qual têm que enfrentar uma insustentável culpa que lhes foi inóculada pela sociedade e pelos progenitores, vítimas e agressores, que lhes envenena e destroi a vida. 

 

Aquilo que Wallace fez antes de se pendurar no fim de uma corda, foi transmitir-nos a sua penosa passagem pelo inferno, um aviso, numa espécie de grito redentor e legado, último resquício de lucidez há muito perdida pela impossibilidade de ser vivida, e absoluta necessidade de ser sentida.

 


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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