semtelhas @ 16:11

Qui, 28/02/13

 

Não é só in vino que nos revelamos, no trânsito, ao volante, a nossa natureza mais profunda bóia à tona como o azeite...

 

Ainda há pouco pude assistir na estrada a um desacato que me fez recuar uns anos, a dois episódios em que fui protagonista e dos quais nada me orgulho, na verdade...muito me envergonho. Mas antes o tal desacato. Haverá poucas situações mais caricatas do que ver a saltar de um daqueles autênticos carros de assalto da BMW, onde o condutor viaja lá no alto, de onde nos lobriga com um ar que soma comiseração e fastio (sei que o problema é meu, mas desconfio sempre do caráter das pessoas que conduzem estes buldózeres) bem longe do bulício e perigos de cá de baixo, com pneus para aí com um metro de largura, e nos sai um caga-tacos de meio metro, ainda sob influência do sobretudo que vestia, até lhe ouvirmos uma vozita de menina assustada, todo encolhido, perante o calmeirão que saiu como rolha de garrafa de espumante do Mini para aí de 1970. Deve ter sido a marca da viatura do superhomem de voz doce que me reavivou a memória.

 

Curiosamente os dois episódios que recordo deram-se pelas razões inversas, um porque ía, supostamente, muito devagar, o outro, muito depressa. Mesmo que nos desloquemos relativamente lentos há sempre os que ainda o são mais. Foi por isso que naquele dia, na auto-estrada, tive que dar pisca e ultrapassar uma viatura. Ainda não estava sequer ao lado da dita quando quase fui abalroado por um BMW do tipo que referi acima, o qual aliás tinha visto mas muito atrás, não podia adivinhar que circulava a 200Km/hora, que me dava màximos à velocidade da luz aí a trinta cêntimetros da traseira do meu carrito. Calmamente, muito calmamente, fiz a manobra e quando voltei à faixa da direita o fangio plantou-se à minha frente, fazendo sucessivas travagens e arranques numa atitude de provocação reles de quem, por ter medo de se meter com os do seu tamanho ataca os mais fracos. Foi aí que me debrucei para o tablier e saquei a caixa de guardar os óculos de sol que, se  manuseada da forma certa, imita na perfeição uma pistola, que apontei, com o braço já fora da janela, na direcão do vidro traseiro do camião, provocando lá dentro um verdadeiro pânico e que resultou no bater do tempo do recorde do mundo dos 0 aos 100. Ainda bem que o grunho não tinha uma arma de fogo a sério...

 

Um belo domingo ao fim da tarde, dirigia-me para as Antas para ir à bola quando, provávelmente já dominado por aquilo que chamo o sindrome da angústia de segunda-feira, que é costume começar a manifestar-se precisamente por aquela hora, um indíviduo que conduzia um carrito parecido com o meu, pura e simplesmente recusava deixar-me ultrapassá-lo. A coisa atingiu tal ponto que, de cabeça perdida, investi qual touro bravo na traseira do automovel do inergumeno para depois, perante o seu espanto, tentar finalmente passar-lhe à frente. Acontece que o homem não se intimidou e respondeu-me na mesma moeda exatamente quando já seguia ao seu lado. Ainda andámos umas quantas dezenas de metros transformados em autênticos carrinhos de choque das feiras até que um semáforo nos obrigou a parar. Em jeito de símio enfurecido saí do carro e tentei abrir as portas que, entretanto, avisadamente, o deprimido domingueiro tinha fechado a sete chaves. O que não me deixou alternativa que não fosse rumar ao meu destino. Na volta, chegou a minha vez de usar de cautela e deixar o carro bem longe da porta de casa. E ainda bem, é que o agredido encheu-se de brios, descobriu a minha morada, e foi lá naquela noite com uns matulões à procura do meu bólide, e não era para lhe puxar o lustro. Uns dias depois, feitos os respetivos mea culpa, entendemo-nos como gente civilizada e resolvemos o problema.

 

Hoje, talvez como nunca pela conjuntura sócio-economica que atravessámos, é preciso muita cabeça-fria na estrada ao volante de uma viatura, e, mais que isso, ser inteligente. Porque ali não há verniz, cuidadas educações ou refinadas culturas que resistam, o que sempre transparece é a incontornável verdade de cada um. A qual, como pessoalmente pude (e posso) experimentar, está sempre a tempo de ser aprofundada.


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