semtelhas @ 13:16

Seg, 21/01/13

Os dos Big Brothers televisivos. Aparentemente muito distantes daqueles que aterrorizam as populaçóes urbanas e, no entanto, tão perto.

 

Alguns factos a que tenho assistido últimamente, a sentença de inocência atribuída aquele indivíduo que se auto-intitulava o estripador de Lisboa, ter visto o filme Gran Torino, essencialmente sobre gangs de jovens com ascendência oriental nos EUA, e uma corrente mais ou menos generalizada de  cerradas críticas negativas ao programa da TVI, Casa dos Segredos, deu-me vontade de espreitá-lo ontem à noite.

 

Uma casa a berrar cor e plástico, um conjunto de rapazes e raparigas a condizer com o cenário, um estúdio gigantesco onde as massas em geral pedem sangue, os familiares dos belos  exemplares sofrem, e uma entretainer, estilo chefe de pista de circo, que ora brande o chicote ora abana as plumas, são ou estão como que embrulhados numa série de monólogos e diálogos onde, em muito perto de 100% dos casos, o assunto tem a haver a interação fisíca bastante intensa entre os habitantes da casa. Toda a matéria que ultrapasse estas questões resume-se a sentimentos, digamos, epidérmicos, cíume, traição, desejo, fome, sono, moda, futebol, engate, doença, etc.. Sempre que surge a tentação de meter por ali algum raciocínio que roce o abstrato, a animadora logo trata alterar o rumo da conversa à velocidade diretamente proporcional com que sabe os espetadores mudam de canal.

 

As sociedades desiguais sempre geraram estes subprodutos sociais, vitimas da espiral de consumo cuja força centrífuga atira para as margens. Particularmente os bandos de marginais que desde há muito vivem da violência que exercem sobre as populações. Mais recentemente, em plena era da comunicação, os requintes de malvadez chegam ao ponto de se ir recrutar ás fileiras do povo, pessoas até aí, pelo menos na maior parte dos casos, completamente inocentes, em todas as facetas do termo excluíndo óbviamente em ambição no sentido mais básico do termo, expô-las numa espécie de aquário onde vão desempenhando um papel em que o lado mais crú daquilo que todos somos é abanado como cenoura à frente do focinho dessa besta que é a audiência. Que, como o prova estar sempre à frente nas tabelas dos programas mais vistos, chafurda alegremente. Tudo orquestrado por especialistas, atrás e à frente das câmaras, sendo que no caso de quem dá a cara se trata de um género de refugo, no sentido moral do termo, já que funcionam com as pessoas como de coisas se tratassem, sem o mais tímido pingo de vergonha, bem pelo contrário.

 

Assisti religiosamente ao primeiro Big Brother. Não obstante a anos luz do que vi ontem, apesar de tudo os artistas e toda a máquina que os rodeava, eram bem mais autênticos, já dava para temer o pior uma vez acertadas certas variáveis. Mesmo assim um dos participantes acabou a atuar num gang, e o Zé Maria só não deu num magnífico capo, miolos não lhe faltavam, porque fisícamente muito frágil. Ainda ontem, na hora da despedida, uma das raparigas andava para ali desesperada porque o namorado acabara de sair. Ao fim de algum tempo, fruto do isolamento, aquela gente multiplica qualquer pequena questão por cem. Se a isso juntármos a evidente fragilidade e falta de  preparação para lidar com emoções, e o constante acirrar por quem está a vender o produto, não me parece que aquelas pessoas tirem algo de positivo daquela experiência. São abertamente utilizadas como mercadoria que se deita ao lixo (ou coloca na prateleira) quando é dispensável, não desempenhando um papel mas sendo elas mesmas, aí residindo a alma e, por isso, também o risco da coisa. São despidas, por vezes literalmente, em frente de centenas de milhar de pessoas, diáriamente. Não acredito que isso seja saudável para alguém.

 

Uma vez longe das luzes voltam para as suas vidas, agora já não sentidas como normais, mas muito mais sombrias e desinteressantes, à medida que a notariedade adquirida vai diminuíndo, aumenta a frustração e a amargura, quando não a violência perante uma vida vulgar que os revolta. É neste sentir que tanto têm a haver com os ditos marginais. É que, potencialmente, todos o somos, haja alguém que o desperte.


direto ao assunto:

"O medo de ser livre provoca o orgulho de ser escravo."
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